Segunda-feira, 27 de março de 2017

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Mozarela? Muçarela?...

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

dúvida do leitor

A leitora Marisa Galvão Klemm, do escritório Franchi Consultores, envia ao Dr. José Maria da Costa a seguinte indagação:

"Boa tarde. Gostaria que o ilustre profissional e mestre de Gramatigalhas comentasse e publicasse para os leitores sobre o assunto a seguir mencionado:

'MUÇARELA vira polêmica em concurso

Pelo menos 50 candidatos entram com recurso para questionar a prova; grafia com 'ss' é a mais usada, mas está errada

Felipe Ferraz/Agência BOM DIA

Uma questão no concurso público da Prefeitura de Jundiaí para o cargo de educador social levantou uma polêmica gramatical na cidade: o correto é "mussarela" ou "muçarela"? A pergunta pedia para o candidato assinalar a frase que estava correta. A resposta certa era a que "o atacante Ronaldo, 1,83 metro, 94,7 quilos é incapaz de resistir a uma pizza de muçarela". Segundo o teste, a grafia correta do tipo de queijo é com "ç", o que causou estranheza e revolta em alguns candidatos. Pelo menos 50 participantes entraram com recurso na prefeitura para reclamar dessa e de outras questões da prova. Esse material deverá ser enviado à Vunesp (Vestibular da Universidade Estadual Paulista), responsável pelo exame realizado dia 3. Mas, as queixas provavelmente serão em vão. Segundo o Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), o oficial da língua, a palavra só pode ser escrita como "muçarela", "mozarela" ou "muzarela". Autor do livro "Gramática do Português Culto Falado no Brasil" e professor de língua portuguesa da USP (Universidade de São Paulo), Ataliba Castilho estranhou a grafia da palavra com "ç". "Eu mesmo achei que fosse com 'ss'. Sempre escrevi e li desse jeito. Estou surpreso", disse. O professor fez questão de consultar o dicionário "Houaiss" para constatar que sua antiga "mussarela" estava errada. Para ele, a confusão é comum devido a origem da palavra. "Em italiano, ela é escrita mozzarella, com 'zz', por isso as pessoas costumam traduzir do jeito mais próximo ao cotidiano, mas a palavra já foi aportuguesada", disse. Castilho deu exemplo da palavra pizza, que, diferente do queijo, ainda segue sendo escrita da forma original em italiano. Poucos entendem tanto de queijo quanto Severino do Ramo Santos Soares, 33 anos. Há 15 anos ele trabalha como pizzaiolo e manuseia cerca de 40 quilos de muçarela por dia. "Nunca tinha ouvido falar que é com 'ç'. Nos cardápios dos lugares em que trabalhei sempre estava com 'ss' e, graças à Deus, nunca ninguém reclamou. Nem da gramática, nem do gosto da minha muçarela", brincou. O gerente do restaurante Vesúvio Rogério Antônio Fuziger, 34, também estranhou a forma correta. Em sua pizzaria, o cardápio informa "mussarela", do jeito considerado errado. "Ninguém nunca falou nada. Até poderia mudar e colocar com 'ç', mas acho que aí sim o pessoal iria reclamar", disse'."

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1) Em recente concurso, indagou-se qual a forma correta em português para aquele famoso queijo napolitano de leite de búfala ou de vaca, que se talha com uma espécie de fungo conhecido por mozze no dialeto napolitano.

2) A primeira observação a ser feita é que, em nosso idioma, a autoridade oficial para dizer quais vocábulos pertencem ao vernáculo ou não é o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, uma espécie de dicionário que lista as palavras reconhecidas oficialmente como pertencentes à língua portuguesa, bem como lhes fornece a grafia oficial, mas normalmente não lhe dá o significado.

3) É ele elaborado pela Academia Brasileira de Letras, que tem a responsabilidade legal de editá-lo, em cumprimento à vetusta Lei Eduardo Ramos, de n. 726, de 8 de dezembro de 1900.

4) Por isso, dizer que tal ou qual dicionarista registra ou não registra determinada forma não resolve a questão nesse campo, uma vez que a palavra oficial não está com eles, mas com o VOLP; este, sim, é que diz oficialmente o que se deve acatar nessa esfera. Ou seja: por mais abalizados que sejam dicionaristas como Houaiss ou Aurélio, eles não são a autoridade oficial nesse campo.

5) Uma segunda observação é que, se há palavras vernáculas, isso significa que o vocábulo já sofreu aportuguesamento, de modo que, então, normalmente não mais se emprega o termo tal como escrito no idioma original, a não ser que haja expressa permissão do próprio VOLP.

6) Feitas essas ponderações, uma consulta do VOLP vai demonstrar que lá não se encontram as seguintes grafias: moçarela, morzarela, mossarela, mozzarela, murzarela, mussarela, muzzarela.

7) São apontadas, todavia, como formas corretas, em mesmo local, mozarela, muçarela e muzarela.1

8) Esclareça-se que o que se tem, nesse campo da grafia, em última análise, é uma lei: a Academia Brasileira de Letras tem a delegação legal para elaborar o rol dos vocábulos oficialmente existentes em nosso idioma, e o faz por intermédio do VOLP, de modo que qualquer discussão que se queira travar sobre a questão haverá de situar-se no plano científico. Não está, porém, no alvedrio de quem quer que seja adotar uma grafia não consagrada por ela, de modo que grafar diferentemente da determinação oficial será, em última análise, descumprir a lei.

9) Resolvida a consulta, quero, neste final, fazer três observações:

I) – se fosse submetido a tal exame, no qual a questão foi formulada, eu também erraria, pois ninguém sabe qual a grafia oficial de todos os vocábulos em nosso idioma;

II) – uma questão como essa não verifica o real conhecimento que um candidato tem do uso do idioma, nem mesmo se sabe manejá-lo adequadamente;

III) – bem por isso, um teste como esse não atinge o alvo nem seleciona, de modo efetivo, candidatos aptos para cargo nenhum, nem mesmo se estiverem buscando um pizzaiolo ou um garçom.

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1Cf. Academia Brasileira de Letras, Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 4. ed., 2004. Rio de Janeiro: Imprinta. p. 538 e 544.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.