Domingo, 25 de junho de 2017

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Campus

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

dúvida do leitor

O leitor Bento Tadeu Cuquetto, do UNESC – Centro Universitário do Espírito Santo, enviou-nos a seguinte mensagem:

"É comum a algumas universidades ou Centros Universitários, que tenham uma unidade descentralizada (o campus), utilizarem a palavra, também latina, 'campi' quando usam o plural (Ex: A festa dos pais foi promovida em ambos os 'campi' da instituição). - Isso está certo? - Seria certo utilizar 'campus' em vez de 'campi', quando a referência está no plural? - Há alguma orientação para que a referência, nesse sentido, seja em português? - Seria certo dizer: 'os dois câmpus da universidade'?"

envie sua dúvida

1) Trata-se de palavra latina, vinda até nós pelo inglês, com o significado de conjunto de edifícios e terrenos de uma universidade.

2) Quanto a sua ortografia, se se considera a palavra já incorporada a nosso idioma, deve ela, pelas regras que norteiam as paroxítonas, receber acento circunflexo no a (câmpus); se, contudo, ainda se reputa o vocábulo pertencente ao latim, então não se emprega o acento gráfico, que não existia naquele idioma, mas, em compensação, de rigor são ao aspas – que têm como uma de suas finalidades envolver palavras estrangeiras usadas entre nós – ou então itálico, negrito, sublinha, ou grifo equivalente, indicador de tal circunstância.

3) Quanto a seu plural, tendo-a como de nossa língua, faz-se ele com a simples alteração do artigo (o câmpus, os câmpus), como em bônus e vírus; considerando-a latina, entretanto, não se lhe põe acento, que não existia no latim, e seu plural será campi.

4) São assim as observações de José de Nicola e Ernani Terra a esse respeito: "sem acento por se tratar de palavra latina. O plural é campi".1

5) Domingos Paschoal Cegalla aconselha a que se prefira, no singular, a forma aportuguesada câmpus e que se lhe dê por plural os câmpus, àsemelhança de bônus, ônibus e ônus.2

6) O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras, que é o órgão oficial para definir quais os vocábulos que integram nosso léxico, considera tal palavra ainda integrando o latim, e a registra, portanto, sem acento (campus), dando-lhe por plural campi,3 devendo ser essa, assim, oficialmente, sua grafia, até por força do princípio de que essa é a lei (legem habemus).

7) Uma atenta leitura da quarta edição do VOLP (edição 2004) mostra que ele não repete a observação da edição anterior e não faz sequer constar a palavra campus, circunstância essa que obriga concluir que tal vocábulo continua pertencendo ao latim, e não ao nosso léxico, de modo que persistem integralmente as observações aqui formuladas.

8) Apenas em termos científicos, contudo, é de se anotar que o plural latino, em uma análise acurada, deveria ser evitado a qualquer custo, até porque, na língua mãe, os substantivos eram declinados, sendo diversas as terminações, conforme a função sintática por eles desempenhada: campi (sujeito), camporum (adjunto adnominal), campis (objeto indireto), campos (objeto direto).

9) Em outras palavras, não haveria como usar hoje pela metade o vocábulo em latim: ou se considera o termo já integrado ao nosso idioma para todos os efeitos, também para sua acentuação gráfica e sua flexão para o plural; ou se lhe confere feição e regime latinos em plenitude, hipótese em que terá ele uma específica terminação, de acordo com a função sintática que a palavra desempenhar na oração, proceder esse que, além de muito estranho, é simplesmente inviável ao usuário médio do idioma, que nem mesmo teve acesso aos rudimentos da língua de origem do vocábulo.

10) E, quanto ao aspecto de integrar nosso léxico como neologismo, não se há de olvidar que, antes do uso de tal vocábulo, não havia em nosso idioma palavra específica que designasse o conjunto de prédios e terrenos de uma universidade, situação essa que justifica plenamente seu emprego como tal.

11) Desse modo, sua integração ao nosso léxico bem poderia ser total, quer para dispensar as aspas, quer para receber o acento gráfico, quer, ainda, para ter seu plural formado como as demais palavras similares de nosso idioma.

12) Em termospráticos, portanto, o melhor seria dizer e escrever: "Os câmpusde nossas universidades têm-se desenvolvido ao longo desses anos".

13) Nesse sentido, vale lembrar a lição de Silveira Bueno, ministrada a um consulente que lhe indagava qual a melhor maneira de formar, em nosso idioma, o plural da palavra memorandum: "As palavras estrangeiras podem ter dois usos em nossa língua: ou o snr. conserva a forma originária da língua donde provém o termo, ou aplica às palavras as regras comuns de português. Se o snr. seguir a primeira forma, deverá dizer no plural: memoranda – que este é o plural de memorandum em latim. Se o snr. seguir a segunda maneira, dirá memorânduns, porque, em português, os nomes terminados em m fazem o plural mudando o m em ns".4

14) E não é só: não parece haver coerência na postura do Vocabulário Ortográfico, ao considerar o vocábulo apreciado ainda pertencente ao latim, fazendo-o, no plural, como na língua mãe, e isso porque, em posição bem diversa, o VOLP já faz com que integrem nosso idioma vocábulos outros como mapa-múndi e memorândum.

15) A par dessas considerações teóricas e cientificas, contudo, o certo é que legem habemus, motivo por que devemos prestar obediência à determinação do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, onde se registra campus no singular e campi no plural, dando-os ainda como pertencentes ao latim.

________

1Cf. NICOLA, José de; TERRA, Ernani. 1.001 Dúvidas de Português. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2000. p. 53.

2Cf. CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. p. 63.

3Cf. Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 2. ed., reimpressão de 1998. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1999. p. 135.

4Cf. BUENO, Silveira. Português pelo Rádio. São Paulo: Saraiva & Cia., 1938. p. 49.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.