Quinta-feira, 24 de julho de 2014 Cadastre-se

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Obrigado você / ou obrigado a você?

quarta-feira, 20 de outubro de 2004

dúvida do leitor

A um leitor que indagava se o correto era "Obrigada (o) eu" ou "Obrigada (o) você", o autor de Gramatigalhas, na coluna da semana passada, observava que, quando se diz obrigado (a), o que se tem é uma oração abreviada e significa "Eu estou obrigado pelo favor que me fez", além do que a um obrigado como esse, alguém pode replicar com outra forma abreviada e correta ("Obrigado eu"), com o exato sentido de "Eu é que me sinto obrigado". E, assim, perfeitamente viáveis as seguintes variações:

a) - "Obrigado eu" (se do masculino é quem fala);
b) - "Obrigada eu" (se do feminino é quem fala);
c) - "Obrigados nós" (se do masculino plural é quem fala);
d) - "Obrigadas nós" (se do feminino plural é quem fala).

A leitora Márcia Correia, todavia, não concordando com esse posicionamento, envia a seguinte mensagem:

 "Discordo. A expressão também pode ser 'obrigada (o) você'. Na mesma linha, seguindo os ensinamentos da eloqüente explanação, quem se sente obrigado, assim se sente em relação a alguém. Portanto, o 'OBRIGADA (O) VOCÊ', muito bem sintetiza a frase mais completa 'OBRIGADA estou eu em relação a VOCÊ'. É isso."

Sobre o mesmo assunto, a leitora Heloísa de Souza Anderson também traz a sua dúvida: 

"Do texto do Dr. José Maria da Costa, quando brilhantemente explicava como utilizar o agradecimento 'obrigado/obrigada', provocado pela pergunta de um colega migalheiro, respondia que 'obrigada eu', então, seria a forma correta de responder um agradecimento. E surgindo-me uma dúvida, me atrevo também a formulá-la ao Sr. redator, desde já agradecendo a delicadeza em recebê-la. Pois bem, se obrigada eu está querendo dizer que eu estou obrigada a retribuir, não caberia a forma 'obrigada a você', no sentido de que agora eu é que devo a você? Como essa dúvida me martelou o pensamento, gentilmente pediria auxílio para saná-la. Muitíssimo obrigada."

envie sua dúvida

1) Sempre é bom rememorar que, para se entender o regime da palavra obrigado, é importante observar o que se quer com ela dizer: a pessoa a quem se presta um favor, ao agradecer, diz que se sente obrigada a retribuí-lo.

2) Bem por isso, não importa a quem é manifestado o agradecimento; o que efetivamente interessa é a pessoa que o manifesta, pois é com ela que tal palavra concorda: assim, se é um homem que fala, diz ele muito obrigado; se mulher, muito obrigada; se vários são os homens, expressando-se, por exemplo, num discurso, por meio de orador, diz-se muito obrigados; se várias as mulheres, muito obrigadas.

3) Exatamente porque, em tais casos, obrigado é uma oração abreviada e significa Eu estou obrigado pelo favor que me fez”, é que, a um obrigado como esse, alguém pode replicar com outra forma abreviada e correta (Obrigado eu), com o exato sentido de Eu é que me sinto obrigado. E daí surgem as variações:

a) –“Obrigada eu” (se do feminino é quem fala);

b) – “Obrigados nós” (se do masculino plural é quem fala);

c) – “Obrigadas nós” (se do feminino plural é quem fala).

4) Querem alguns, todavia, que se deva dizer, em tal caso, “obrigado(a) você”, o que estaria sintetizando de modo adequado a oração completa “obrigado(a) estou eu em relação a você”. Tal, entretanto, não é a forma correta, pois, se esse é o sentido que se quer conferir ao texto, quem se sente obrigado continua sendo o “eu”, enquanto “você” há de ser o destinatário do agradecimento. Por isso, indispensável há de ser o emprego da preposição. E, assim, se há de dizer corretamente: “Obrigado(a) a você”.

5) E mais:se se pretender falar “Obrigado você” (ausente a preposição), o único sentido possível será: Você se sente obrigado. E tal conotação está fora de qualquer consideração no presente caso, porque não é o que se quer dizer.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas.