Domingo, 19 de novembro de 2017

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 513

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

2106, o ano decisivo

2016 passará para a história como o ano que marca o princípio de uma nova era. O mais importante ciclo da investigação no país. O ano em que o Judiciário atinge o clímax de sua ação. O ano do ativismo judicial. O ano em que os jovens procuradores do Ministério Público mostraram ao país que estão dispostos a passar uma lupa sobre a corrupção. O ano em que foram presos grandes perfis das esferas política e empresarial. O ano em que um juiz, Sérgio Moro, foi alçado ao patamar de herói. O ano em que o ex-maior partido de esquerda perdeu seu manto de vestal e vê seu ícone, Lula, tragado pela chama de denúncias. Um ano e tanto.

2017-2018

Serão dois anos de passagem. Servirão de ponte entre o hoje e o amanhã. Lembrados como os tempos em que a sociedade participativa se fez mais presente na construção do edifício ético.

Fazer o dever

As pesquisas atestam impopularidade do governo Temer. É um fato. O governo herdou a maior recessão da história brasileira. O maior rombo nas contas públicas. O país assiste, perplexo, à maior investigação sobre a maior propinagem de nossa história. Ora, querer que o governo tire, de repente, o Brasil da zona do inferno para as glórias do céu é querer milagre. O governo tem de fazer seu dever : medidas duras, sérias, que possam aliviar a carga que pesa sobre a Nação.

E tem feito

É só olhar para a planilha. O governo aprovou no Congresso a PEC do teto dos gastos, que segurará as despesas da administração pública. Aprovou a Lei das Estatais, que dará maior transparência e controle ao aparelho do Estado. Diminuiu gastos. Inflação está em queda. Juros começam descer, mesmo que lentamente. Recursos sob controle. Petrobras sendo reorganizada. Lei do Pré-Sal abrindo a exploração para a iniciativa privada. Vai encampar a reforma da Previdência. E modernizar a legislação trabalhista. Não é pouca coisa.

O fim do mundo

Pergunta geral : se as primeiras delações já provocam tsunamis, imagine-se o que poderá ocorrer com a infinidade de delatores da Odebrecht ? Este analista tem a seguinte leitura : provas e contra-provas não serão consensuais. Vai haver muita polêmica. Recursos vão se multiplicar. E as condenações vão aparecer, sim, mas bem adiante. Não se vê esse processo concluído nos próximos meses.

TSE vai cassar chapa ?

Mais uma pergunta recorrente. O TSE tende a fazer o julgamento das denúncias sobre recursos para a campanha Dilma/Temer nos primeiros meses de 2017. O processo será demorado. Vai esperar, inclusive, por depoimentos da Lava Jato. No primeiro semestre, sairão dois ministros do TSE e entrarão dois novos nomes. A serem nomeados pelo presidente da República. Será pouco provável a cassação da chapa. O pano de fundo será a economia. A recuperação das camadas econômicas dará força ao presidente. E essa fortaleza, se for construída, protegerá Michel Temer.

Ambiente de dúvidas

O ambiente continua tomado por muitas dúvidas. O governo irá até o fim ? Será afastado ? O governo deverá ir até o final do mandato. Vale lembrar, em primeiro lugar, que o presidente só pode ser objeto de ação penal por ato ocorrido em sua gestão. Portanto, quaisquer eventuais denúncias que recaiam sobre a figura do presidente e que levem em conta situações passadas não serão empecilho para tirar Michel Temer do assento presidencial. Renúncia não faz parte da índole de Michel. Ademais, ele está na linha correta : adotando a cartilha de mudanças por que o Brasil clama.

Caiado, oportunista ?

O senador Ronaldo Caiado foi picado pela mosca azul. Quer, porque quer, tirar o presidente Michel Temer. Para que ? Para pavimentar sua candidatura à presidência da República. Acha-se como paladino da política e desfralda a bandeira da renúncia presidencial. Para que ? Para aparecer no cenário. Para atrair o brilho midiático. Caiado perde grande oportunidade de ficar calado.

MP do Trabalho

Governo prepara edição de uma MP com vistas à abertura do mercado de trabalho. Abrigaria coisas como o programa de proteção ao emprego ; a representação dos trabalhadores no local do trabalho ; o negociado como força de lei ; o trabalho temporário ; o trabalho em tempo parcial e o contrato intermitente. Mas as Centrais estão pondo obstáculos à MP. Essas entidades, como é sabido, deixaram há muito tempo de se preocupar com o mundo real de trabalho. Seu foco de interesses é um só : aumentar o caixa e o cofre. E continuar atreladas nas tetas do Estado.

Refluxo natalino

Fim de ano chegando, ânimos mais cordatos, harmonia doméstica, convívio e festas. Animosidade arrefece. Brasil pausa para fazer sua grande reflexão. Diagnósticos. Planejamento. Compromissos para 2017.

Régua de 2017

O Brasil tem condições de segurar a peteca em 2017 ? Tudo indica que os índices de melhora na economia comecem a se apresentar a partir de maio de 2017. Se em outubro, as coisas estiverem razoáveis, inverte-se a curva de impopularidade do governo. A conferir.

Geraldo aposta errado

Geraldo Alckmin faz uma aposta errada. Estaria se afastando do governo Michel Temer sob a crença da crescente impopularidade da administração Federal. É uma aposta arriscada. Pois em 2018, a economia poderá dar sinais de grande vitalidade. Se isso ocorrer, Aécio será beneficiado. Apostando no governo, deve aprofundar a inserção do PSDB no governo Temer.

Alckmin no PSB

Se assim ocorrer, Aécio ganhará a disputa entre os tucanos, habilitando-se a ser o candidato do partido no pleito de 2018. Alckmin terá a alternativa de sair para o PSB do vice-governador Márcio França. Há muita água a correr por baixo da ponte.

Estados falidos

Os Estados estão de pires na mão. Suas dívidas serão renegociadas. Mas os governadores sofrerão por um bom tempo. Não haverá exceção. Tempos bicudos favorecerão candidatos de oposição.

Perfis em crescimento

Outsiders – Empresários sem experiência política, profissionais liberais de boa imagem. Arriscam-se a cometer despautérios. Roberto Justus : "vamos tirar o Brasil das mãos dos políticos".

Religiosos – Líderes messiânicos de discurso populista. Não a ponto de escalarem o topo da montanha.

Radicais – Protagonistas localizados nas extremidades do arco ideológico. Crescimento, porém limitado.

Assépticos – Perfis não contaminados pelo vírus da velha política. Marina Silva, por exemplo. Mas ela é limitada.

Regionalistas – Pessoas identificadas com as comunidades locais/regionais. De vôos curtos.

Juízes – Figurantes do Judiciário. Que poderão ser um fiasco na política. Joaquim Barbosa, por exemplo.

Bolsonaro

Terá, sim, algum crescimento, mas não tem estofo, densidade, essência, para chegar ao cume da montanha. Um radical de estatura mediana.

Personalidades da coluna

1. Executivo da Medicina : Claudio Lottenberg – Amil/ UnitedHealth

2. Novidade na Política : João Doria – Novo prefeito de São Paulo

3. Novidade no Jornalismo : Jornalista Willian Corrêa – TV Cultura

4. Voz sempre bem ouvida : Empresário Jorge Gerdau

5. Articulista de peso : Advogado Ives Gandra Martins

6. Exemplo de Ação Social : Orquestra Sinfônica Heliópolis do Instituto Baccarelli

7. Liderança na Advocacia : Marcos da Costa, presidente da OAB/SP

8. Um jornalista que comenta bem : Gerson Camarotti, Globo News

9. Governador que não perde uma piada : Geraldo Alckmin

10. Colunista de bons bastidores : Natuza Nery, do Painel da Folha

11. Editor de Política : César Felício, do Valor Econômico

12. Médico sistêmico : Cardiologista Américo Tângari Jr., Hospital Beneficência Portuguesa

13. Análise política : Fernando Mitre, TV Bandeirantes

14. A cara de São Paulo : José Paulo de Andrade, Rádio Bandeirantes

15. Conselheiro do Trabalho : José Pastore – FEA-USP

16. Ministros de boa safra : Bruno Araujo (Cidades) e Mendonça Filho (Educação)

17. Um século de vida : Chiquita Torquato, minha mãe, que fez 100 anos

18. Um editor da pesada : José Mário Pereira, da TopBooks

19. O guru da economia : Delfim Netto

20. A voz do Varejo : Flávio Rocha, empresário e presidente do Grupo Riachuelo

21. Articulador da política : Michel Temer, presidente da República

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Fechando a coluna com o finado Manoel

O lendário Valdetário Carneiro contribuiu para os causos de Caraúbas/RN.

Ia ele em sua pick up na zona rural de Apodi. Próximo à cidade, um senhor meio alquebrado pelos anos acenou pedindo carona. Valdetário prontamente o atendeu, abrindo a porta. Já aboletado e no conforto do ar condicionado, começou a puxar conversa :

- O senhor vai pro Apodí ?

- Vou sim -, respondeu Valdetário, vou tratar de negócios no banco.

O carona resolveu dar uma de conselheiro :

- O senhor tenha cuidado. Se vai tirar dinheiro no banco e andando nesse carrão, aqui por essas bandas, tenha cuidado pois há gente perigosa por aí. Tem um tal de Valdetário Carneiro, homem de muita fama que pode ser um grande risco, principalmente pra quem é de fora.

Valdetário riu da situação e até agradeceu :

- Obrigado, eu vou ficar atento.

Em seguida devolveu a pergunta :

- E o senhor não tem medo de estar sozinho nessa beira de estrada ? E se de repente lhe aparece o tal do Valdetário Carneiro ?

- Ele que venha -, completou o carona com valentia de quem se sente em confortável distância do perigo. E acrescentou : "- Um homem nasceu pro outro."

Chegados ao destino, o carona já ia descendo quando resolveu fazer mais uma pergunta.

- Obrigado por tudo, senhor. Vá com Deus. Mas como é mesmo o seu nome ?

Com toda naturalidade Valdetário respondeu :

- Eu sou Valdetário Carneiro. E o senhor como se chama ?

Branco como algodão, suando pelos poros, com as pernas trêmulas e a voz embargada, o carona mal conseguiu balbuciar :

- Eu sou o finado Manoel.

Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.