Domingo, 22 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Polícia ou policia?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

dúvida do leitor

A leitora Patrícia Monteiro envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"De acordo com as novas regras da língua portuguesa, a palavra 'polícia' é ou não acentuada?"

envie sua dúvida


Polícia ou policia?

1) Uma leitora indaga se, após o Acordo Ortográfico de 2008, a palavra polícia continua ou não acentuada.

2) Ora, quanto à acentuação gráfica (aqui abrangidos não apenas os acentos – grave, agudo e circunflexo – , mas também os sinais diacríticos, como o trema), o mencionado acordo alterou, fundamentalmente, alguns aspectos, listados a seguir.

3) Num primeiro ponto, a partir do acordo, nas palavras terminadas em oo, não mais se emprega o acento circunflexo, de modo que agora se escreve voo, enjoo e abençoo, e não mais vôo, enjôo e abençôo.

4) Também não mais se usa o acento circunflexo nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos crer, dar, ler e ver e seus compostos (como descrer, desdar, reler e entrever), e, assim, a grafia, doravante, é creem, deem, leem e veem, e não mais crêem, dêem, lêem e vêem.

5) Para acertar a duplicidade já existente nos dois países, foi criado um caso de dupla grafia para diferenciação, com a marca optativa do acento agudo na primeira pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo dos verbos da primeira conjugação (louvámos, adorámos e falámos), para opor-se à primeira pessoa do plural do presente do indicativo (louvamos, adoramos e falamos).

6) O trema desapareceu por completo, de modo que a grafia correta é linguiça, sequência e quinquênio, e não mais lingüiça, sequência e qüinqüênio.

7) O acento deixou de ser usado para diferenciar pára (verbo) de para (preposição).

8) Eliminou-se o acento agudo nos ditongos abertos ei e oi de palavras paroxítonas, de modo que se escreve agora assembleia e jiboia, e não mais assembléia e jibóia.

9) Como, no caso do item anterior, o acento foi eliminado das palavras paroxítonas, é certo que continuam sendo acentuados os vocábulos oxítonos com tais terminações, como papéis e herói.

10) Continua valendo a dupla grafia de acento antes de m e n, já que, por questões de pronúncia, Portugal emprega o acento agudo, enquanto o Brasil usa o acento circunflexo. Desse modo são igualmente corretos os acentos dos seguintes vocábulos: académico/acadêmico, génio/gênio, fenómeno/fenômeno, bónus/bônus.

11) Feitas essas ponderações, observa-se, para o caso da consulta, que a única possibilidade que haveria para gerar a dúvida trazida pela leitora seria o caso de se pensar na existência de um hipotético acento diferencial entre polícia (substantivo) e policia (terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo policiar – ele policia).

12) Mas nem esse é o caso, pois não se tem, no caso, acento diferencial. Em verdade, polícia (com a sílaba tônica li) tem acento gráfico porque é um vocábulo paroxítono terminado em ditongo; já na palavra policia, a sílaba forte é ci, e esse fato não gera razão alguma para que exista acento gráfico no mencionado vocábulo.

13) Assim, em resumo, pelas razões já expostas, mesmo após o Acordo Ortográfico de 2008, polícia continua com acento gráfico, enquanto policia continua sem acento gráfico.

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Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.