Segunda-feira, 16 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Impede-nos de ser? Impede-nos de sermos?

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

dúvida do leitor

O leitor José Carlos Ficher envia-nos a seguinte indagação:

"Senhor Redator, No informativo de ontem (1.518 - 17/10/06) Migalhas escreveu no Editorial: 'Isso, entretanto, não nos tira o apanágio de sermos, como de fato somos, isentos de ânimo...'. O Prof. José Maria da Costa já discorreu sobre isso, aqui mesmo no Migalhas, e me parece que a flexão sermos não está correta. Ou está? Atenciosamente."

envie sua dúvida

1) Indaga-se qual a forma correta:

a) – "Isso não nos tira o apanágio de ser...";

b) – "Isso não nos tira o apanágio de sermos...".

Em outras palavras, quer-se saber se o infinitivo (o próprio nome do verbo, como em amar, vender ou partir), no caso, vem flexionado ou não.

2) Lance-se aqui uma primeira lição genérica para emprego do infinitivo: "muitas vezes, a opção entre a forma flexionada ou não flexionada é estilística e não gramatical. Quando mais importa a ação, prefere-se a forma não flexionada; quando se realça o agente da ação, usa-se a forma flexionada".1

3) De modo específico para o caso da consulta, veja-se que o que há é um infinitivo ser (não flexionado) ou sermos (flexionado), precedido pela preposição de. E a questão é resolver qual empregar.

4) Ensina Artur de Almeida Torres que “o infinitivo poderá variar ou não, a critério da eufonia, se vier precedido das preposições sem, de, a, paraou em. Exs.:

a) "Vamos com ele, sem nos apartar um ponto" (Padre Antônio Vieira);

b) "... os levavam à pia batismal sem crerem no batismo" (Alexandre Herculano);

c) "Careciam de obstar a que se escrevesse o que faltava do livro" (Alexandre Herculano);

d) "Os manuscritos de Silvestre careciam de serem adulterados" (Camilo Castelo Branco);

e) "Obrigá-los a voltar o rosto contra os árabes" (Alexandre Herculano);

f) "... obrigava a trabalharem gratuitamente" (Alexandre Herculano);

g) "... fanatizados que aparecem sempre para justificar o bom quilate da novidade" (Camilo Castelo Branco);

h) "... tantos que nasceram para viverem uma vida toda material" (Alexandre Herculano).

5) Respondendo, de modo específico, à indagação feita, como nenhuma das formas propostas parece contrariar a eufonia, pode-se afirmar que estão gramaticalmente corretas ambas as formas:

I) "Isso não nos tira o apanágio de ser";

II) "Isso não nos tira o apanágio de sermos".

No primeiro caso (infinitivo não flexionado), realça-se a ação; no segundo (infinitivo flexionado), o que se põe em relevo é o agente dessa ação.

6) Vale uma observação final: se o leitor teve dúvidas no caso concreto e se tem dificuldade para diferenciar as situações e de proceder à opção adequada, saiba que não está sozinho nessa questão e console-se com a precisa e preciosa observação de Pasquale Cipro Neto e Ulisses Infante, quando lecionam que "o infinitivo constitui um dos casos mais discutidos da língua portuguesa", de modo que "estabelecer regras para o uso de sua forma flexionada, por exemplo, é tarefa difícil", e, "em muitos casos, a opção é meramente estilística".2

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1Cf. NADÓLSKIS, Hêndricas; TOLEDO, Marleine Paula Marcondes Ferreira de. Comunicação Jurídica. 2. ed. São Paulo: Edição dos Autores, 1998, p. 125.

2Cf. CIPRO NETO, Pasquale; INFANTE, Ulisses. Gramática da Língua Portuguesa. 1. ed. São Paulo: Editora Scipione, 1999, p. 491.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.