Segunda-feira, 14 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Pago

quarta-feira, 4 de julho de 2007

dúvida do leitor

O leitor Rinaldo Rodrigues envia a seguinte mensagem ao autor de Gramatigalhas:

"Quando se usam os verbos pago e pagado?"

envie sua dúvida

1) Quanto à conjugação verbal e ao emprego de seu particípio passado, é de comum ensino que se usa o verbo pagar apenas na forma irregular (pago), e isso com qualquer auxiliar, lembrando mesmo Otelo Reis que, "quanto ao particípio regular pagado, não existe mais na linguagem hodierna", lição essa a que tal autor ainda acresce, em outra passagem, que "a forma regular é absolutamente desusada".1 Exs.:

a) "O réu tinha pago a pena";

b) "A pena foi paga pelo réu".

2) Nos dizeres de Édison de Oliveira, na linguagem contemporânea, "estão fora de uso as formas ganhando, gastado e pagado, não só com o auxiliar ser, mas também com o auxiliar ter", motivo por que "estão, pois, superadas construções como:

a) 'Nós teríamos ganhado a partida';

b) 'Ele tinha gastado o tempo inutilmente';

c) 'Tínhamos pagado tudo o que devíamos’;

devendo-se preferir:

a) 'Nós teríamos ganho a partida';

b) 'Ele tinha gasto o tempo inutilmente';

c) 'Tínhamos pago tudo o que devíamos'."2

3) Tal tendência ao uso do verbo pagar na forma principal irregular, tanto na voz ativa quanto na passiva, é antiga, sendo raros os exemplos em contrário.

4) Aires da Mata Machado Filho, a esse respeito, transcreve interessante lição de Antenor Nascentes, que resume a questão: "Na língua viva atual, quer com o auxiliar ter, quer com ser, só se usam os particípios irregulares ganho, gasto e pago... Na língua antiga, o regular domina".3

5) Também de oportuna transcrição o ensinamento de Celso Cunha: "De outrora se usavam normalmente os dois particípios. Na linguagem atual preferem-se, tanto nas construções com o auxiliar ser como naquelas em que entra o auxiliar ter, as formas irregulares ganho, gasto e pago, sendo que a última substituiu completamente o antigo pagado".4

6) Fundando-se em lição de Said Ali e anotando que pagado e pago são "formas de particípio passado do verbo pagar correntes em antigos documentos e na época clássica", também Antonio Henriques assegura que, "hoje, a forma pago suplantou a forma pagado".5

7) Em mesma esteira, para Cândido de Oliveira, "ganho, gasto, pago, pego são usados indiferentemente para ambas as vozes (com qualquer auxiliar)", e "os particípios ganhado, gastado, pagado, pegado tendem a desaparecer".6

8) Para Domingos Paschoal Cegalla, pagado é "forma obsoleta, suplantada pela forma irregular pago".7

9) Para Regina Toledo Damião e Antonio Henriques, "pagado está em desuso" na atualidade.8

10) Para Vitório Bergo, "os particípios fortes ganho, gasto, pago, salvo tendem a suplantar as formas em ado, pois que se usam normalmente com os dois tipos de auxiliares".9

11) Quanto a pagado, Sousa e Silva observa que "vai caindo em desuso este particípio, quase sempre substituído pela forma pago".10

12) Observe-se, porém, que Evanildo Bechara acata para esse verbo os particípios regular e irregular.11

13) De igual modo, Cândido Jucá Filho, sem quaisquer explicações adicionais, especifica indiferentemente os particípios pago e pagado, exemplificando com autor de abalizada autoridade:

a) "Estas duas têm pagado bem seu tributo à asneira" (Camilo Castelo Branco).12

14) Também para Eduardo Carlos Pereira, por uma lado, os particípios irregulares pago, ganho e gasto "podem empregar-se na voz ativa com os verbos ter e haver"; por outro lado, "muitas formas regulares", como por exemplo, ganhado, gastado, "podem ser empregadas na passiva com os verbos ser e estar".13

15) Pasquale Cipro Neto e Ulisses Infante consideram pagar um verbo abundante, sendo para tais autores perfeitamente possível o emprego do particípio passado regular (pagado), o qual deverá ser usado com os auxiliares ter e haver.14

16) Muito embora até se possa dizer que a norma culta, na atualidade, tenha preferência pelo particípio passado pago tanto para seu uso com os verbos ter e haver quanto ser e estar, o certo é que ainda não se pode dizer que o particípio pagado esteja em completo desuso ou que seu emprego esteja errado; é ele certo e há de ser usado com os verbos ter e haver.

___________

1Cf. REIS, Otelo. Breviário da Conjugação dos Verbos da Língua Portuguesa. 34. ed. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1971. p. 91.

2Cf. OLIVEIRA, Édison de. Todo o Mundo Tem Dúvida, Inclusive Você. Porto Alegre: Gráfica e Editora do Professor Gaúcho Ltda., edição sem data. P. 121.

3Cf. MACHADO FILHO, Aires da Matta. “Análise, Concordância e Regência”. In: Grande Coleção da Linguagem Portuguesa. 1. ed. São Paulo: co-edição Gráfica Urupês S/A e EDINAL – Editora e Distribuidora Nacional de Livros Ltda., 1969. vol. 2, p. 783.

4Cf. CUNHA, Celso. Gramática Moderna. 2. ed. Belo Horizonte: Editora Bernardo Álvares S/A, 1970. p. 216.

5Cf. HENRIQUES, Antonio. Prática da Linguagem Jurídica. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1999. p. 134-135.

6Cf. OLIVEIRA, Cândido de. Revisão Gramatical. 10. ed. São Paulo: Editora Luzir, 1961. p. 205.

7Cf. CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. p. 304.

8Cf. DAMIÃO, Regina Toledo; HENRIQUES, Antonio. Curso de Português Jurídico. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1994. p. 242.

9Cf. BERGO, Vitório. Consultor de Gramática e de Estilística. Rio de Janeiro: Livraria Editora Zelio Valverde, 1943. p. 182.

10Cf. SILVA, A. M. de Sousa e. Dificuldades Sintáticas e Flexionais. Rio de Janeiro: Organização Simões Editora, 1958. p. 202.

11Cf. BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 19. ed., segunda reimpressão. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974. p. 110.

12Cf. JUCÁ FILHO, Cândido. Dicionário Escolar das Dificuldades da Língua Portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: FENAME – Fundação Nacional de Material Escolar, 1963. p. 461.

13Cf. PEREIRA, Eduardo Carlos. Gramática Expositiva para o Curso Superior. 15. ed. São Paulo: Monteiro Lobato & Cia., 1924. p 141.

14Cf. CIPRO NETO, Pasquale; INFANTE, Ulisses. Gramática da Língua Portuguesa. 1. ed. São Paulo: Editora Scipione, 1999. p. 175.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.