Sábado, 20 de abril de 2019

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Voz ativa e voz passiva

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

dúvida do leitor

A leitora Mariana Sortica Giacomini envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas :

"Na frase : 'O requerimento lhe foi enviado', o 'lhe' é agente da passiva ?  O verbo 'enviar' deixa de ser transitivo direto e indireto na passiva ? Se não, está faltando o objeto indireto então ?"

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Voz ativa e voz passiva

1) Uma leitora traz o seguinte exemplo: "O requerimento lhe foi enviado". E indaga: I) o lhe é agente da passiva? II) o verbo enviar deixa de ser transitivo direto e indireto na voz passiva? III) se não, está faltando, no caso, um objeto indireto?

2) Voz ativa e voz passiva são duas maneiras sintaticamente diversas de dizer a mesma realidade de fato, conforme o sujeito pratique ou receba a ação indicada pelo verbo: a) "O magistrado proferiu a sentença" (voz ativa, porque o sujeito magistrado pratica a ação indicada pelo verbo proferir); b) "A sentença foi proferida pelo magistrado" (voz passiva, porque o sujeito sentença recebe a ação indicada pelo verbo proferir).

3) Da observação dos exemplos dados, algumas regras são de importância vital para o emprego de diversos verbos e para a própria criação de estruturas sintáticas.

4) Assim, por primeiro, o objeto direto da voz ativa torna-se sujeito da voz passiva, e o que era sujeito na voz ativa passa a ser o agente da passiva.

5) Observe-se esta transposição no esquema abaixo:

6) Por essa explicação, vê-se que, por via de regra, só tem voz passiva um verbo que seja transitivo direto ou transitivo direto e indireto (bitransitivo).

7) Exemplificando essa asseveração, vê-se que a frase "O juiz não gostou do depoimento" não tem voz passiva, porque não há, na voz ativa, objeto direto que possa tornar-se o sujeito da voz passiva.

8) Quanto ao exemplo que motivou estas considerações, por questão de facilidade, faz-se uma pequena complementação: "O requerimento lhe foi enviado pelo patrono do Autor".

9) Com essas ponderações, fixam-se as seguintes premissas: I) O exemplo está na voz passiva, porque o sujeito (o requerimento) recebe a ação de enviar; II) O exemplo, na voz passiva, será "O patrono do Autor enviou-lhe o requerimento", porque nela o sujeito (o patrono do autor) pratica a ação de enviar.

10) E, fixados esses conceitos, extraem-se as seguintes conclusões: I) no exemplo dado, que está na voz passiva, quem pratica a ação indicada pelo verbo (o patrono do Autor) é o agente da passiva; II) na voz ativa, o verbo enviar é bitransitivo (ou transitivo direto e indireto), pois quem envia, envia alguma coisa (objeto direto) a alguém (objeto indireto); III) o fato de estar o exemplo na voz passiva não altera a transitividade do verbo; IV) como, na passagem da voz ativa para a voz passiva, as mudanças de função sintática se dão apenas entre o sujeito da ativa (que se torna agente da passiva) e o objeto direto (que se torna sujeito da passiva), o que era objeto indireto na ativa (lhe) continua sendo objeto indireto na passiva.

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Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.