Quarta-feira, 24 de julho de 2019

ISSN 1983-392X

Cadeira de balanço

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Era imenso o prazer de ficar sentado em uma cadeira de palha e de balanço, ouvindo-a contar histórias, que sempre eram as mesmas.

A cadeira de balanço era a sua preferida, mas para o neto ela a cedia, sentando-se em uma outra, que também balançava, mas que não era a típica cadeira de balanço do mobiliário brasileiro tradicional, como a outra.

Não se pense que o seu despojamento significava que eu fosse o seu neto preferido. Não, com certeza eu não o era. Ela possuía netos e netas, éramos dez ao todo. Suas inclinações eram para alguns, dentre os quais meu irmão José Eduardo, que pela proximidade das nossas casas e pela sua pouca idade, era o seu xodó, ou um deles. Os outros eram, Celina, a mais velha de nós e Eduardo, talvez aquele que a cativasse por ser o mais engraçado e arreliento de nós todos.

Mas, não se pense também que os outros, os fora do rol dos preferidos, não fossem alvo de sua extremada afeição, do seu carinho e acima de tudo da sua paciência. Sim, ela era afetuosa e paciente com todos nós, especialmente comigo que a fazia repetir histórias já contadas.

Como todas as avós da minha geração, ela era uma exímia cozinheira. Na verdade ela se destacava como doceira. Os seus doces eram magníficos, à base de ovos, farinha, de muito açúcar, e, evidentemente, colesterol, mas o bom.

Para irmos tomar refeições em sua casa não era necessário aviso prévio. Não, não era preciso, isto porque a qualquer hora do dia ou da noite a mesa estava posta. A farta mesa era apenas para ela e para uma empregada, pois morava sozinha desde a morte de meu avô. O hábito de manter a mesa posta é também uma tradição da família brasileira antiga, tal como a cadeira de balanço.

Voltando à cadeira de balanço, eu me sentava e ela, antes de sentar-se na outra, que como disse, não era a verdadeira, abria o seu pequeno bar, e servia-me um martini. Ela também se servia da intragável bebida. Na verdade, abominável bebida, pois além de naturalmente ruim o martini servido era doce.

Eu estava começando a adquirir cultura etílica, que foi se aperfeiçoando com o tempo, levando-me a nunca mais tomar o execrável martini doce. No entanto, depois de muito refletir, eu cheguei à conclusão de que as bebidas ruins se tornam toleráveis e até apreciáveis dependendo do nosso estado de espírito, e da companhia com quem se bebe.

Devo dizer que a minha avó justificava seus esporádicos goles, ora de vinho, ora de martini , ora de wisk, com a sua pressão arterial. Se a pressão estivesse alta a bebida indicada era uma, se estivesse baixa era outra. Por vezes ela as invertia...

Certo dia, em seu aniversário, meu primo Eduardo apareceu na sala onde estavam todos os seus filhos, noras, netos e demais convidados, empunhando uma garrafa de cachaça que ele afirmou, marotamente, haver encontrado em baixo da cama de nossa avó. Exibiu a garrafa, salvo engano era da marca "Tatuzinho" e perguntou a ela: "Vó, o vinho é para pressão alta, o wisk para pressão baixa, e a cachaça? Vovó não se fez de rogada e de pronto respondeu: "Ah, o médico não falou para que servia a cachaça..." Esclareça-se, que a história da cachaça foi invenção do seu neto, meu primo. No entanto, é verdade que vez ou outra ela ingeria uma "pinguinha", mas na forma de "meia de seda" ou de " leite de onça", preparados por ela.

Fecho mais esse parêntesis e retorno à cadeira de balanço. O abominável martini doce era acompanhado por castanhas de caju, pois sempre havia uma latinha em seu bar.

Como eu disse, as histórias que ela contava eram as mesmas, mas nunca eram contadas da mesma maneira. Assim, algumas delas apresentavam versões diferentes, fato que as tornavam ainda mais interessantes.

Alguns dos episódios por ela narrados, por terem várias versões, ficavam envoltos em mistério, que ela fazia questão de não desvendar.

Um desses episódios eu denominei de "baile branco". Outra pausa, minha avó era belíssima, conforme atesta uma sua foto tirada aos dezoito anos, que ficava em cima do piano da sala.

Pois bem, a cidade de Sorocaba, sua terra natal, no início do século passado, era rica e cultivava hábitos da corte. Um desses era o seu famoso "baile branco", acontecimento onde imperava o requinte, a elegância e a sofisticação da época. Ponto alto da temporada de eventos e festas sorocabanas, a preparação do baile antecedia meses e a festa era aguardada com muita ansiedade pela sociedade, em especial pelos jovens.

Minha avó se ufanava de sempre ter sido considerada a mais bela jovem do referido e de outros bailes, festas e recepções de sua cidade natal. Era, segundo dizia com indisfarçável orgulho, a mais assediada e cortejada, sendo disputada para todas as danças. Durante os tradicionais footings, todos os olhares se voltavam para ela e não eram raros os tropeções e os esbarrões quando pescoços se viravam para vê-la e para chamar a sua atenção.

Dentre os seus admiradores havia um farmacêutico, ainda de acordo com a sua nada modesta narrativa, que estava apaixonado, mas com quem ela nada queria. À época, ela já namorava o meu avô.

Inconformado com o desinteresse de minha avó, o farmacêutico que conhecia e mantinha relações com meu avô, o teria atraído para a sua farmácia, na tarde da realização de mais um baile branco. Meu avô teria ido, se não fosse a interferência de um amigo que desconfiado das intenções do boticário, impediu a sua ida.

Nesse ponto a história se tornava nebulosa, misteriosa. Indagada por mim, sobre o que pretendia o seu fã com o seu namorado, futuro marido, ela limitava-se a dizer que os seus objetivos não eram os mais saudáveis. Segundo corria na cidade o farmacêutico estava tramando a morte de meu avô. Nunca se soube se o risco era real ou não, bem como qual seria o meio empregado para o homicídio.

Outras tantas histórias eram contadas. Suas, de meu avô, de irmãos, sobrinhos, cunhados e demais parentes.

Uma delas era a de um sobrinho, extremamente mentiroso, que emocionava suas tias, incluindo a minha avó, quando narrava as agruras por que passara na revolução de 1932. Dizia ter comido papel de jornal durante quase uma semana, pois não tinha com o que se alimentar. Após a narrativa, as tias comovidas às lágrimas, cotizavam-se e davam um dinheiro para o faminto sobrinho, que dizia precisar de tratamento médico, pois ainda sofria do estômago pelo excesso de jornais ingeridos.

Havia uma sobrinha que muito a preocupava, quando ia à sua casa. Tratava-se de uma enfermeira que se especializara em cuidar de senhores idosos, ricos e viúvos, com os quais ela se casava. Casou-se três ou quatro vezes, número de vezes que ficou viúva. Apesar de seus cuidados, seus maridos morriam em suas mãos. Meu pai dizia, com seu peculiar jeito galhofeiro, que ela provocava a sua viuvez. De tanto meu pai repetir essa sua teoria, vovó passou a não ficar à vontade com as idas da sobrinha à sua casa...

Mais e mais histórias ela as contava, mais eu as queria ouvir, pouco importando se novas ou repetidas. O encanto das suas recordações, a suavidade de sua voz e o embalo da cadeira de balanço me proporcionavam uma "pacata satisfação de viver", muito marcante em minhas recordações.

Crônicas Absolvidas
Antônio Claudio Mariz de Oliveira

Antônio Claudio Mariz de Oliveira é advogado.