Segunda-feira, 14 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Mas e aí, o que fazer com o São Paulo?

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Texto de autoria de José Francisco C. Manssur

Estou absolutamente satisfeito (muito mais no sentido de saturado) com os inúmeros e, por que não dizer, precisos diagnósticos sobre a situação do São Paulo Futebol Clube.

Ganhou seu último campeonato brasileiro em 2008, paulista não ganha desde 2005, o último título foi a Sulamericana de 2012 (que, parece que por algum motivo, esse ano, por enquanto, deve contar como título novamente), foi eliminado pela Penapolense, pelo Bala & Mistura e outros tantos vexames.

De quando em quando, ou melhor, a cada eliminação – ou mesmo possibilidade de – algum São-paulino fanático ocupa os espaços nas mídias para contar uma mesma história: "tudo começou no (escolha aqui seu adjetivo) terceiro mandato do Juvenal, depois veio esse, veio aquele....".

E nunca texto algum acaba propondo alguma solução real para o problema atual do Clube. Minto. Muitas vezes a solução proposta não vai além do "fora esse, fora aquele, fora aquele outro..." e nessa de "fora, fora" já foram três presidentes, dezenas de diretores de futebol, ainda mais dezenas de técnicos, jogadores então, cujo número dos que chegaram com foguetório da torcida no anúncio da contratação e saíram debaixo de vaias, dá para encher mais de um Boeing.

Saiba você, se ainda não sabe, que o tal terceiro mandato do Juvenal foi aprovado pelos conselheiros. Os tais presidentes que agora pedimos "fora, fora", também foram escolhidos pelos conselheiros, estes, por sua vez, eleitos pelos por volta de 7 mil associados do São Paulo FC, que escolhem os dirigentes do Clube de 18 milhões de torcedores. Democrático, não?

Pois é, meu amigo, lá vem o "chato da sociedade anônima", que mesmo fazendo o mea culpa por ter feito e fazer parte de tudo isso, ainda tem a pretensão de dar seu pitaco, para dizer, com algum conhecimento de causa, que nesse sistema político da associação a saída para o São Paulo Futebol Clube passa por uma porta estreita, onde dificilmente iremos encontrar a luz dos velhos tempos.

Ou você realmente acredita que, em dezembro de 2020, quando os 7 mil sócios elegerem os 260 conselheiros e estes últimos consagrarem, entre eles, o presidente da associação, tudo vai mudar como que por milagre? Você não desconfia que na primeira eliminação de 2021, Você mesmo, cheio de raiva, não vai se manifestar nas suas redes sociais com o velho "fora esse, fora aquele, tudo começou no terceiro mandato do Juvenal, depois veio esse, depois aquele outro e agora este que foi eleito ano passado...." O São Paulo Futebol Clube precisa de uma mudança de verdade. Não só o São Paulo. O futebol brasileiro precisa de mudança de verdade, não o mais do mesmo do jogo político-associativo, com seus conchavos, suas nomeações em favor dos "partidos aliados" se sobrepondo à meritocracia da escolha, não dos mais populares, mas dos mais capazes.

Existem muitos investidores só esperando quais serão os primeiros clubes do Brasil a adotarem a forma de Sociedade Anônima para aportarem por aqui com bilhões de dólares, visando lucrar (lucrar já não é mais pecado, faz tempo) com o nosso futebol tão rico na produção de talentos e tão incapaz na gestão. Deixando por aqui clubes mais capazes, especialmente financeiramente, de reter nossos maiores talentos, proporcionar melhores espetáculos e, por que não dizer, voltarem a brigar de igual para igual (ao menos dentro do campo), com os grandes da Europa como era nas décadas passadas.

Porque no sistema da associação, com suas eleições entre os da piscina e os da quadra de tênis, nenhum investidor sério irá arriscar seu capital nas mãos do político de ocasião. Gestão pelos mais capazes, não pelos melhor aparelhados politicamente. Esse é o nome do jogo.

Até por isso, tramita no Congresso Nacional Projeto de Lei 5.082/16, que pretende criar o modelo da Sociedade Anônima do Futebol, inclusive, com regime tributário especial e transitório para os clubes que constituírem as empresas para gerir seu futebol profissional. Estando nessa luta desde 2016, nunca sentimos um ambiente tão favorável para que o Projeto tramite e venha a ser colocado em vigor como nesses primeiros meses de 2019.

Nesse cenário, vai ser o São Paulo Futebol novamente a exercer seu papel de vanguarda e tomar a frente da mudança que certamente atrairá em seguida outros importantes clubes brasileiros? Vai ser o São Paulo Futebol Clube que chegará primeiro às margens do rio para tomar água limpa?

Há pouco mais de 1 ano e 1 mês, o Conselho de Administração do São Paulo Futebol Clube está estudando, até por disposição do Estatuto Social, proposta de separação do futebol profissional da área social do Clube, para que o futebol possa ser gerido por uma sociedade anônima detida, quando da constituição, 100% pelo São Paulo Futebol Clube. Ou seja, a semente da mudança está plantada, falta semear e colher.

Se você, como eu, acha que esse modelo, que no passado trouxe tantas glórias e tantos dirigentes cuja História devemos sempre respeitar, hoje já não serve para trazer de volta o São Paulo para seus melhores dias. Você precisa lutar para que aconteça a verdadeira mudança. Você precisa se manifestar e pressionar para que os Poderes do Clube adotem a Sociedade Anônima para gerir o futebol. Sem a sua participação nessa luta, nada vai acontecer, até porque, quem decide hoje é quem participa da política interna do clube associativo. E ninguém gosta de perder poder.

Você tem essa opção. Lutar pela mudança de verdade. Ou pode seguir no mais do mesmo, repetindo a ladainha (tão correta, quanto hoje em dia desgastada), do "fora esse, fora aquele", "tudo começou no terceiro mandato do Juvenal", "na próxima eleição vamos mudar isso aí..." tudo que você já deveria saber que não vai mudar nada realmente.

Futebol e Governança
Rodrigo R. Monteiro de Castro

Rodrigo R. Monteiro de Castro é presidente do MDA. Ex-presidente do IDSA. Professor de Direito Comercial do Mackenzie. Doutor em Direito Comercial pela PUC. Coautor do projeto de lei que institui a Sociedade Anônima Simplificada. Coautor do Livro "Futebol, Mercado e Estado" e autor dos livros "Controle Gerencial" e "Regime Jurídico das Reorganizações". Sócio do escritório r. monteiro de castro advogados.