Segunda-feira, 16 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Política & Economia NA REAL n° 86

Agenda de Obama - I

Uma das razões para a prolongada recessão dos anos 30 foi a crença de que os estímulos fiscais deveriam ser retirados com maior rapidez. O Congresso de então, dominado pelos republicanos, pressionava Roosevelt para que reduzisse o déficit fiscal. O dilema de Obama neste momento não é diferente : ele terá de enfrentar a oposição dos republicanos e dos próprios democratas para manter a política de expansão fiscal que ainda não consolidou a recuperação da maior economia do mundo. Isto num ano eleitoral, onde os parlamentares estão mais de olho nas pesquisas do que em "fazer a coisa certa".

Agenda de Obama - II

Além da política fiscal, Obama está sendo pressionado a adotar uma postura mais rígida em relação ao sistema financeiro. Não resta dúvida que a turma dos bancos está mais preocupada com seus bônus de curto prazo do que com a recuperação do setor no médio prazo. Isto tudo quando foram salvos pelo dinheiro dos contribuintes. Todavia, neste tema Obama vai ter de ser muito cuidadoso. Sem um sistema financeiro sólido, a recuperação prometida pode resultar num atolamento da atividade econômica tal qual ocorreu nos anos 90 no Japão. Portanto, a questão é saber como o governo dos EUA vai endurecer com os banqueiros sem que isto implique no enfraquecimento dos bancos. Uma equação que não foi encontrada pelo presidente americano, embora ele já tenha decidido que o alvo do ataque é Wall Street.

Resultados corporativos

Não dá para reclamar dos resultados do último trimestre do ano passado das empresas de capital aberto dos EUA. Apesar de toda a recessão, e de haver certa dispersão entre os setores, os lucros foram razoáveis : o setor financeiro cambaleia e o tecnológico cresce, apenas para citar dois extremos. E os analistas estão perdidos em relação ao que pode ser 2010, mesmo que suas análises apontem "certezas" sobre as quais pouco podem saber.

Risco China

Como já enfatizamos em nosso primeiro informe deste ano, dá arrepios analisar os riscos envolvidos na China. O sistema financeiro é verdadeiramente desconhecido, os dados fiscais inquietantes e, nas últimas semanas, crescem os sinais de que o governo comunista de Pequim vai esfriar a economia. Este é um risco tão grande que ninguém quer falar muito sobre ele. É a chamada "política de avestruz", adotada em relação ao país.

Por tudo isto...

A volatilidade deste ano deve ser elevada em quase todos os mercados. Muito maior que aquela ocorrida desde março do ano passado.

Radar NA REAL

Não vamos alterar as tendências estruturais dos diversos segmentos do mercado financeiro e de capital, seja do Brasil ou lá de fora. Todavia, fica aqui o alerta : a semana passada foi a primeira desde o início da recuperação dos mercados mundiais que demonstrou que os investidores ainda estão muito inquietos em relação à recuperação dos fundamentos de longo prazo da economia mundial, especialmente a norte-americana. Portanto, estamos num momento de análise para verificar o quão este processo pode modificar o cenário para 2010. As expectativas dominam os movimentos dos preços dos ativos. Assim, cabe verificar se as expectativas até agora positivas se manterão. De nossa parte, redobramos a atenção aos fatos que estão a ocorrer no mercado, sobretudo no que se refere aos EUA e China. No caso do Brasil, as perspectivas são promissoras, mas o país não vive isolado do mundo. Preocupa-nos, especialmente, os elevados patamares do mercado acionário.

22/1/10 

TENDÊNCIA

SEGMENTO Cotação

Curto prazo

Médio Prazo

Juros ¹  

 

 

 - Pré-fixados NA

alta

alta

 - Pós-Fixados NA

estável

alta

Câmbio ²  

 

 

 - EURO 1,4410

estável

estável/baixa

 - REAL 1,8199

estável/baixa

estável/baixa

Mercado Acionário  

 

 

 - Ibovespa 66.220,04

estável

estável/alta

 - S&P 500 1.144,98

alta

alta

 - NASDAQ 2.205,29

alta

alta

 

(1) - Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais)
(2) - Em relação ao dólar norte-americano
NA - Não aplicável

Para segurar o BC

Dez entre dez mercadistas da economia não-oficial e boa parte dos analistas privados têm como certo que o BC começa ainda neste primeiro semestre a aumentar a Selic. Não já na próxima reunião do COPOM. No governo, pelo seu lado político (e eleitoral) considera-se que a medida, além de ser desagradável para a campanha de Dilma, não é necessariamente inevitável, mesmo que o consumo na economia brasileira continue em sua firme ascensão para gerar um crescimento em torno de 6% em 2010. Para conter a temida escalada da inflação, que viria puxada pelo aumento da demanda, estuda-se um conjunto de opções, quase todas pontuais, a saber :

1. Redução temporária de impostos nos setores ou produtos nos quais aparecerem mais pressões inflacionárias.

2. Contenção no fornecimento de créditos, principalmente por parte das instituições oficiais, BB e CEF.

3. Facilitação das importações de produtos cujos preços estejam fugindo do controle, tanto para consumo direto quando para uso industrial.

4. Promover um aperto fiscal, cortando de preferência despesas de custeio.

Nem tudo é possível - I

Esse arsenal anti-elevação dos juros, porém, enfrenta obstáculos e dificuldades. A redução temporária dos impostos esbarra nos problemas do orçamento, com despesas crescentes e uma incerta receita em recuperação. Poderia ser viável se o quarto ponto, o corte de gastos, acontecesse de fato. Não se deve contar com ele em ano eleitoral. Um exemplo das restrições está no caso do preço da gasolina. Por conta da redução da mistura do álcool, a partir de 1º/2, prevê-se um aumento entre 2% e 4% no combustível para o consumidor. Sugeriu-se que o governo reduzisse o valor da CIDE para evitar este reajuste e seu rebate na inflação. O ministério da Fazenda, no entanto, resiste, por causa das perdas na arrecadação. Aperto fiscal não rima, no vocabulário político, com ano eleitoral.

Nem tudo é possível - II

A ideia de facilitar as importações esbarra na queda dos superávits comerciais e nas reações dos empresários. Também é delicada a contenção do crédito interno para o consumo, uma vez que boa parte da estratégia para as eleições do governo baseia-se na satisfação da população com a possibilidade de adquirir novos símbolos de ascensão social.

Slogans para Dilma

Pelos planos dos estrategistas de Lula e da campanha da ministra Dilma, o Congresso neste curto ano de 2010, antes de mergulhar na campanha eleitoral, se dedicará apenas a aprovar dois dos grandes slogans que ele pretende apregoar da campanha da ministra : os projetos do pré-sal e a CSL - Consolidação das Leis Sociais, no modelo de CLT de Getúlio Vargas, a ser apresentado em março. Eventualmente, um ou outro projeto a mais. A ordem é nada de marolinhas.

O Congresso pode "aprontar"

Deputados e senadores podem aprontar (ou tentar aprontar) alguns dissabores para Lula. Sem contar com as dificuldades nas regras do pré-sal, Lula vai enfrentar a tentativa de deputados e senadores, boa parte de sua base, com apoio das centrais sindicais, de aprovar a redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas semanais e regras mais generosas para a correção dos benefícios de aposentadoria para quem recebe mais do que um salário mínimo. São medidas tidas como de grande apelo popular, capazes, portanto, de tocar o mais fundo da alma política brasileira, ainda mais quando as urnas estão batendo nos calcanhares. Lula não gostaria de vetar essas medidas, exatamente para não comprometer o jogo de Dilma. Vai ter de fazer valer sua autoridade junto aos aliados, baixar ordem do dia e pôr a tropa em fila.

O gato e o rato

Aguarda-se o novo lance de Lula no seu jogo para o PMDB na indicação do vice de Dilma. O presidente havia embaralhado o esquema do PMDB governista ao pedir a tal lista tríplice para Dilma escolher o parceiro. Bateu direto nas pretensões de Michel Temer, pelo qual não morre de amores. O PMDB acaba de rebater antecipando sua convenção para renovar a direção do partido e optando por reeleger Temer para sua presidência nacional. Agora, para escolher alguém para acompanhar Dilma que não seja Temer, Lula vai ter de negociar com o próprio. O PMDB sinaliza que agora é Temer ou Temer. Lula precisa de alguém que some mais que o presidente da Câmara à chapa de Dilma. Ou trazendo forças regionais desgarradas (MG, com Hélio Costa), ou repetindo a velha fórmula Sul/Sudeste - Norte/Nordeste (Edison Lobão, do MA ?) ou para acalmar setores específicos desconfiados (Henrique Meirelles para bancos e empresas em geral).

As complicações mineiras

Amanhã as cúpulas do PMDB e do PT têm reunião em Brasília para começar a acertar as alianças estaduais nos cinco Estados onde entendimentos para a aliança estão mais complicados : PA, MT, PE, BA e MG. O primeiro e mais delicado a ser destravado é o de MG. Lula terá de baixar o "centralismo democrático" e obrigar os dois postulantes petistas - Fernando Pimentel e Patrus Ananias - a buscar novos rumos. Sob pena de arranjar uma confusão sem volta com o PMDB de Hélio Costa. É que Costa pode ficar sem espaço se não for candidato a governador, com forte apoio do PT. Uma das vagas do Senado, que o ministro das comunicações poderia disputar, não foge das mãos do governador Aécio Neves. O vice-presidente José Alencar já manifestou o desejo de concorrer ao Senado e Lula, por gratidão, deve a ele apoio irrestrito. Para onde pode ir então Hélio Costa ? Uma opção é ser vice de Dilma. Mas esta opção é pouco viável depois que Dilma virou mineira, como política. Seria queijo com queijo, de pouco apelo eleitoral. Resta a ele disputar o governo do Estado, com ou sem o PT, dividindo Minas Gerais.

A solução mineira

De um DEM muito próximo ao governador Serra e ao comando tucano : "O Aécio vai ser o vice de Serra, não tenha dúvida". Em MG, a hipótese não é descartada nem é vista mais como uma rendição ou uma diminuição do prestígio do governador. Mas a decisão final só será tomada no último momento e será precedida por um acordo sobre os futuros palanques presidenciais, além de uma co-participação efetiva de Aécio e de MG num governo Serra. Já se falou - a sério - na possibilidade de Aécio ficar com o controle do maior naco das áreas sociais. Oferta que continuaria na mesa de negociações. De certo mesmo se pode assegurar apenas que Aécio desta vez vai se engajar de corpo, alma e mais o que tiver na campanha federal tucana. O tucanato mineiro percebeu que Lula vai jogar pesado no Estado para derrotar Aécio.

Desamor à luz do dia

Partidos e políticos preparam-se para tentar barrar a pretensão do TSE de acabar com a prática de doações ocultas nas eleições de 2010.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.