Quarta-feira, 13 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 11 de maio de 2010

Política & Economia NA REAL n° 100


A Europa e não apenas a Grécia

A envergadura do pacote da UE - 750 bilhões de euros, US$ 960 bilhões aproximadamente - dá uma dimensão mais real para os problemas de liquidez dos países que fazem parte do euro e aqueles que pretendem nele ingressar. Ao contrário do que muitos pregaram fora das salas fechadas dos ministérios econômicos europeus, a crise não era somente da Grécia. O país helênico era apenas o pavio da bomba instalada no mundo financeiro do Velho Continente.

Fundo de Estabilização. Estabilização ?

A resposta imediata dos mercados mundiais ao anúncio (na madrugada da segunda-feira) foi de alívio, mas não deve ser de euforia. O tratamento à crise tem chance de ser um sucesso, mas a dimensão dos problemas estruturais da Europa indica que a recuperação da atividade econômica deve ser muito mais lenta que a dos EUA. Os problemas de coordenação econômica da UE ficaram evidentes, sobretudo quando o tema é financeiro. Além disso, falta à grande maioria das nações europeias condições estruturais de competir com as nações em desenvolvimento, sobretudo a China, e os EUA. O sistema de proteção social do Velho Continente é um sistema de proteção comercial e gera um insulamento impossível no mundo atual. Assim sendo, é muito provável que assistamos nos próximos meses variações bruscas no humor dos investidores em relação à zona do euro.

A Grécia não está salva

Muito embora o pacote de 110 bilhões de euros possibilite a rolagem da dívida grega nos próximos anos, o programa de ajuste fiscal é incompatível com as possibilidades sociais do país. Logo, não se deve descartar novas e severas turbulências, incluindo a possibilidade de reestruturação de sua dívida, bem como sua saída do sistema monetário europeu.

Portugal, Espanha, Itália

A prontidão dos europeus para que outros países mediterrâneos não adentrassem no cenário da Grécia deve evitar o pior no curto prazo. Todavia, como imaginar que estes países, cujas taxas de desemprego estão entre 15% e 20%, superem suas mazelas ao mesmo tempo em que fazem ajustes fiscais ? Seria infantil acreditar em um cenário de estabilização sem que esta questão seja enfrentada do ponto de vista político e econômico.

Alemanha só funciona quando pressionada

O ministro das relações exteriores da França Bernard Kouchner resumiu bem o quão nefasta foi a demora de ajuda à Grécia : "Não podemos viver segundo a graça dos mercados. A zona do euro deveria ter ajudado mais rapidamente a Grécia." Recado direto à Chanceler Alemão Angela Merkel, responsável maior pela péssima gestão da crise por parte da UE.

Britânicos mais distantes do euro

O debate sobre a entrada do Reino Unido no sistema monetário europeu foi um dos principais temas debatidos entre os três principais candidatos à cadeira de primeiro-ministro britânico. A crise atual distancia o país da Europa continental. Já há muita confusão em casa para ser resolvida.

EUA fingem não ver, mas "fazem figa"

A crise europeia é, neste momento, o principal obstáculo para a recuperação da economia americana, a qual emitiu bons sinais nos últimos três meses. O fortalecimento do dólar norte-americano dificulta o ajuste externo do país e a queda prolongada da atividade econômica europeia impede o espalhamento do aumento de demanda no mercado mundial. Os EUA são o país mais aberto do ponto de vista comercial dentre os países ricos. O andamento da economia mundial é muito mais vital para os americanos que para os europeus. Além disso, reviver uma crise bancária a esta altura dos acontecimentos é ver muitos fantasmas novamente...

FMI, tão criticado e tão presente

Depois do pacote de 750 bilhões de euros da UE, começa-se a falar num "fundo monetário europeu". Por enquanto, contudo, quem está colocando as mangas de fora é o velho FMI e seu receituário ortodoxo para que os "civilizados europeus" o sigam. Amarga ironia, não é mesmo ?

Brasil : arrogância e recomendação

Quem viu as declarações de Guido Mantega sobre a participação brasileira na ajuda financeira a Grécia não deixou de notar certa ironia do ministro em relação à condição do FMI de "devedor" em relação ao Brasil. É certo que o FMI sempre foi um órgão que tratou o país dentro de uma ortodoxia muitas vezes insensível à realidade. Todavia, a condição brasileira não é imutável e os caminhos da política econômica por aqui não são tão louváveis quanto imagina o governo atual. Moderação é recomendável neste momento.

Brasil perde a preferência

Não dá para prever a profundidade dos efeitos da crise europeia sobre o Brasil, mas dá para se afirmar que esta crise afetará mais sensivelmente os investimentos externos para o Brasil que no caso da crise americana. Durante a crise dos EUA, os ativos do Brasil - sobretudo os do mercado financeiro e de capital - ficaram baratos e tinham perspectivas de recuperação num prazo relativamente curto. Os especuladores perceberam isso rapidamente. No momento, os ativos brasileiros estão caros e o cenário de médio e longo prazo se tornou mais incerto. As oportunidades mais especulativas estão nos EUA e na Europa. Isto já era uma tendência, a qual se aprofundará a partir de agora.

China : por ora, esquecida

Há sinais de que a sustentação da atividade econômica da China nos níveis atuais - de 8% a 10% de crescimento anual - é incompatível com o cenário mundial e com as crises creditícias ao redor do globo. Resta saber o quão afetado será o - pouco transparente - setor financeiro do país comunista. Além dos problemas relacionados à atividade econômica, o setor financeiro da China é um destes mistérios que ninguém está muito disposto a desvendar.

Crises : sem respostas teóricas e práticas

Vejamos : crise do México em 1995, crise asiática em 1997, crise russa em 1998, bolha especulativa de 1999/2000 nos EUA, crise cambial do Brasil em 1998/2000 e 2002, crise Argentina ao longo da década dos 90 e início dos anos 2000, colapso do sistema financeiro norte-americano em 2008 e insolvência soberana dos países meridionais da Europa. Pergunta-se : a era financeira que vivemos não merece indicar a obsolescência dos sistemas de regulação no mundo global ? As respostas a esta pergunta por parte dos governos não são apenas incipiente, beiram a irresponsabilidade.

Radar NA REAL

Não estamos alterando as tendências estruturais dos mercados acompanhados por este radar as quais já vinham sendo alteradas nas últimas edições deste informativo. Todavia, alertamos para o fato de que o aumento da volatilidade veio para ficar pelo menos durante o resto deste ano. O cenário que parecia ser saudável sofreu um revés de natureza estrutural e não apenas conjuntural. No caso do Brasil, há o agravante de que teremos uma transição política que é mais delicada que parece.

7/5/10  

TENDÊNCIA

SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA alta alta
- Pós-Fixados NA alta alta
Câmbio ²
- EURO 1,2870 baixa baixa
- REAL 1,7868 estável/baixa baixa
Mercado Acionário
- Ibovespa 62.870,88 baixa estável/baixa
- S&P 500 1.110,88 alta alta
- NASDAQ 2.265,64 alta alta

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

Banda larga ou charanga eleitoral ?

Após uma longa gestação, saiu de uma cesariana improvisada a proposta do governo de universalização do acesso à internet de banda larga no Brasil. Apesar do tempo de gravidez - está na mira do governo desde os tempos de José Dirceu na Casa Civil - e de ter tido uma enfiada de padrastos e madrinhas, saiu apenas um esboço, incompleto. A tal ponto que Lula, que adora tais eventos midiáticos, não emprestou seu prestígio à festa de lançamento semana passada em Brasília.

Telebrás reativada

De certo mesmo, há a notícia da reativação da Telebrás, com aportes de 3,2 bilhões de reais em quatro anos, mais a intenção de multiplicar por cerca de 2,4 vezes – de 12 milhões para 28 milhões até 2014 o número de casas com banda larga no país. Não há metas específicas nem prazos a serem cumpridos nas diversas etapas do processo, não há indicações da origem dos recursos a serem usados - entre investimentos e recursos fiscais calcula-se o total em 13 bilhões de reais.

Dúvidas e mais dúvidas

Não se explicou como serão resolvidas as dúvidas jurídicas pertinentes levantadas por especialistas a respeito da nova Telebrás e de suas atribuições. Nem o decreto presidencial dando vida à empresa ficou pronto. Isto pelo menos depois de umas trinta entrevistas de Rogério Santana, escolhido para presidir a Telebrás Plus, nos últimos meses, sempre com detalhes do que seria o Plano Nacional de Banda Larga. Há informações de que o pacote poderá sair por R$ 15 reais para uma velocidade de 1 mega. Seria sensacional. O problema está em saber como este patamar será alcançado. Haverá certamente redução de impostos, caso contrário o milagre fica impossível. Acontece que o peso tributário maior nas telecomunicações, na média algo como 30% de uma carga média em torno de 40%, vem do ICMS. O ICMS é o principal imposto dos Estados, parte depois repassada aos municípios. Governadores e prefeitos foram consultados sobre a disposição liberarem esta receita, sem compensações ?

Capitalização da Telebrás e metas

A capitalização da Telebrás foi jogada para futuros governos. Este ano ela receberá pouco mais de 250 milhões de reais dos 3,2 bilhões previstos. Porém, já está pronta para montar sua diretoria. Inicialmente, o projeto era "encher" o Brasil inteiro de banda larga no menor prazo possível. Este ano mesmo o Brasil já estaria bem espetado de antenas. Depois, definiu-se que para 2010 seriam atendidas 300 cidades com projetos pilotos, palavras de Rogério Santana. Agora, serão contemplados este ano 15 capitais e mais o DF. O Brasil ainda não tem de fato um PNBL - Plano Nacional de Banda Larga. Mas desde a semana passada tem um PNBE - Plano Nacional de Banda Eleitoral.

Grávidos de si mesmos

Quem assistiu com os olhares menos turvados a festa de pré-lançamento da candidatura de Geraldo Alckmin ao governo de SP, evento do PSBD com amparo do DEM e do PPS, que se transformou num evento pró-Serra, sentiu certo cheiro de excesso de confiança nas searas oposicionistas Federais. Parece que os ventos favoráveis que têm soprado na campanha tucana somados às agruras internas e externas que a principal adversária vem enfrentado, subiram prematuramente à cabeça do tucanato e cia. Tucano já tem fama de não ser muito humilde... e eleitor não gosta de soberba.

Fatos para a mídia

O PSDB e seus aliados terão de fazer um esforço maior esta semana para criar novos fatos positivos, de repercussão, para a candidatura Serra. Apesar das dificuldades que a campanha da ex-ministra Dilma vem enfrentando em vários Estados para completar suas alianças e em que pese a convivência com um PMDB cada vez mais exigente, o grande evento da semana será da candidata petista : o horário eleitoral do PT quinta-feira, todo ele montado em torno dela. É quase certo que algum instituto sairá em campo depois da aparição da ex-ministra no rádio e na televisão e os resultados, talvez no fim de semana, poderão refletir esta exposição dela. E como a atual fase da campanha tem se caracterizado por uma guerra de pesquisas... 

Marketing de Serra cheio de dúvidas

O pessoal de marketing ligado a Serra ainda não está convicto sobre as linhas de campanha para lançar e manter o candidato em crescimento. A popularidade de Lula impõe redobrados cuidados na mensagem a ser emitida. É preciso mirar cirurgicamente em Dilma, mas essa não é tarefa fácil no campo da comunicação.

Moeda de troca

Quem estranha os arroubos de independência de partidos, outrora cães de guarda fiéis do governo, não está atento a alguns detalhes :

1. Há ciúmes demais com a prioridade total dada ao PMDB. Ciúmes até no PT.

2. O governo está sem um dos seus principais "trocos", aquilo que amalgamou a coalizão governista por muito tempo – os cargos Federais. Agora eles valem pouco com Lula. E com Dilma ainda não chegaram e são já muito cobiçados por PMDB e PT, com riscos de sobrar pouca coisa para o restante.

3. A única moeda de troca disponível imediatamente são as emendas parlamentares. Porém, há o complicador dos gastos públicos.

Lula faz campanha para...

...Lula. Políticos de faro mais acurado estão cada vez mais convictos de que o presidente está menos preocupado com Dilma do que com ele mesmo, seu futuro e sua imagem. E há fatos que não negam esta interpretação. Em Recife, por exemplo, diante de insinuações de que sua candidata está estagnada, Lula lembrou que isto vai mudar e que Dilma não cresceu mais nas campanhas porque "eu ainda não subi ao palanque com ela para pedir votos". Mais significativa ainda foi a resposta da própria Dilma a uma pergunta da equipe da revista IstoÉ que a entrevistou :

"P - A Sra. cederia a possibilidade de uma reeleição para o presidente Lula, no caso de ele querer se candidatar em 2014 ?
 R - Ele já me disse para não responder a essa pergunta."

Neste ritmo, os comunicadores da ex-ministra vão ter se de desdobrar para convencer parte do eleitorado de que ela não é apenas uma espécie de boneca de ventríloquo de Lula e que o candidato de fato é ela e não ele.

Um exemplo mercurial

A propósito do caso Tuma, há muita gente lembrando-se do complicado presidente Itamar Franco. Diante de uma suspeita levantada contra o então ministro chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves, seu amigo e conterrâneo, o presidente afastou-o sem vacilar do cargo. Feitas as investigações e comprovado que as suspeitas eram infundadas, Hargreaves voltou ao governo. Qualquer falta de semelhança entre este episódio e o que agora toca o secretário de Lula, não é mera coincidência. É diferença de padrão e de conduta.

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.