Sexta-feira, 18 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 5 de abril de 2005

João Paulo II e o desenvolvimento

Francisco Petros*


João Paulo II e o desenvolvimento

"Não seria verdadeiramente digno do homem um tipo de desenvolvimento que não respeitasse e não promovesse os direitos humanos, pessoais e sociais, econômicos e políticos, incluindo os direitos das nações e dos povos".

(João Paulo II, na Encíclica Sollicitudo rei socialis)


A morte de João Paulo II, o polonês Karol Wojtila, certamente realçará a sua obra como líder máximo da Igreja Católica, a qual foi conduzida sob a égide de três marcos gerais: (1) uma doutrina absolutamente sintonizada com a atual era de intensa globalização dos processos políticos, sociais e econômicos, (2) uma orientação religiosa marcada pelos princípios tradicionais da Igreja Católica, modernização na difusão de tais princípios, especialmente no campo da comunicação social e (3) um contínuo, sincero e conciliador diálogo com as outras religiões, sempre almejando a superação de divergências históricas e incompreensões originadas por questões de Fé. A despeito das eventuais críticas negativas ao seu exercício da Cátedra Romana, há de se reconhecer que o seu pontificado transcendeu o catolicismo e deixou um significativo e positivo legado para a humanidade no final do século passado e no início do novo milênio. Não foram poucos os atos que confirmam que João Paulo II mudou o sentido do Papado.

Nesta coluna gostaria de chamar à atenção dos nossos leitores para alguns dos aspectos relacionados ao pensamento social de Sua Santidade no que diz respeito às suas concepções gerais. Faço-o de forma breve, conforme permite esse espaço.

O Pontífice católico não foi um formulador de novas concepções econômicas ou sociais, mas sem dúvida deixa uma extensa obra (encíclicas, cartas apostólicas e homilias) sobre os desafios imensos nos quais está mergulhado o mundo atual. Suas reflexões, senão inéditas, foram construídas em absoluta sintonia com o nosso tempo e expressadas com incomum coragem pessoal e intelectual.

Dentre os aspectos que poderiam ser salientados na vasta obra de Karol Wojtila, gostaria de destacar a sua visão sobre o desenvolvimento e ao significado do progresso.

Um primeiro aspecto que pode ser lembrado diz respeito à noção muitas vezes difundida de que o desenvolvimento é um fenômeno que possa ser isolado no que tange ao funcionamento das sociedades e na (con)vivência do seres humanos. Karol Wojtila sempre rejeitou a idéia de que a investigação científica e os seus efeitos resultam numa espécie de “progresso automático” para o gênero humano. Para ele, é falsa a premissa de que o desenvolvimento econômico, fruto do progresso das ciências, das técnicas e da dinâmica social, levará de forma inexorável a um “estado da arte” e à “perfeição” do funcionamento da economia, mesmo num distante horizonte temporal. Neste particular, Wojtila sempre lembrou que no século XX, o de maior desenvolvimento econômico de toda a história, foram registradas as mais sangrentas guerras e revoluções, sendo que duas delas foram mundiais. Como sabemos, as mazelas da guerra marcaram profundamente a pessoa e o pensamento de Wojtila. Na Polônia, ele pôde ver a invasão nazista, a inaceitável matança nos campos de extermínio, a dominação do império soviético e as profundas dificuldades para a estabilidade do Estado polonês e a perseguição religiosa empreendida sobre a Igreja para a qual dedicou a sua vida.

Segundo João Paulo II, o objetivo central do desenvolvimento econômico deveria estar voltado para a “felicidade do homem”. Para ele, reconhecer os inúmeros benefícios do desenvolvimento não coloca de lado o objetivo maior do homem que é o exercício pleno e “feliz” da sua característica mais importante: a Liberdade. Com efeito, o desenvolvimento econômico, se de um lado não pode ser limitado por uma incessante busca pela melhoria dos processos que tornam a vida melhor, de outro tem de ser limitado por uma intenção moral que carreia o desenvolvimento para o Bem e para a Liberdade. Neste ponto encontramos uma clara coincidência com as primeiras concepções da moderna economia, estabelecidas na obra de Adam Smith no século XVIII. Smith era um especialista em Moral, e em sua obra pode-se encontrar referências à importância da ética e dos princípios morais para o funcionamento das economias e para o estabelecimento dos contratos.

Para o Papa, a ausência de uma intenção moral no desenvolvimento econômico é que, em última instância, provoca a inaceitável “convivência” de dois mundos: o superdesenvolvido e o subdesenvolvido, sendo que neste último registra-se um grau elevadíssimo de miséria. No mundo superdesenvolvido impera o consumismo, não apenas um fenômeno caracterizado pela rápida substituição de bens e serviços por outros mais avançados, mas também há um imenso desperdício de recursos que poderiam ser aproveitados de maneira mais sensata para o estabelecimento da intenção moral do desenvolvimento ao redor do mundo. A ilimitada insatisfação dos consumidores dos países desenvolvidos, não é, com efeito, apenas um fenômeno cultural e psico-social. Ganha contornos de profunda indiferença com as desigualdades entre as economias. Num quadro como este, registra Wojtila, se torna impossível que o Ser Humano possa se realizar plenamente. O estado de extrema pobreza da maioria da humanidade e a impossibilidade de se formular um novo paradigma para o conceito de desenvolvimento que engendre a verdadeira “felicidade” são resultados das estruturas miseráveis das nações subdesenvolvidas e das relações dentro e entre os “dois mundos”. Para João Paulo II, o “mundo visível” é composto por uma tragédia social que não pode ser aceita passivamente e que corrompe a essência do mundo invisível do homem, a sua alma interior que sempre está em busca da Liberdade.

Deste pensamento social decorre a constatação de que o desenvolvimento na pode se resumir ao direito indiscriminado à propriedade e à posse dos bens. Wojtila, rejeita a idéia iluminista da individualidade absoluta. Para ele, a Justiça não deve apenas ser expressa nas leis, normas e regras. É preciso que a Justiça seja promovida através dos processos políticos e sociais com o objetivo de se atingir o verdadeiro desenvolvimento econômico e humano. Neste particular, o princípio cristão e de tantas outras religiões que considera os homens irmanados é a razão que justifica a promoção incessante da Justiça, valor indissociável da Liberdade.

Nestes tempos em que são evidentes as fortes contradições provocadas pelo desenvolvimento econômico, o pensamento social de Sua Santidade João Paulo II, merece reflexão. Refiro-me não apenas a uma reflexão geral ou específica sobre as suas palavras e escritos, mas, sobretudo à prática efetiva de políticas, programas e projetos que mudem a perigosa realidade do planeta. Sobram-nos evidências de que, situações como a atual, levam a humanidade às tragédias das guerras, às ditaduras, às nefastas disputas comerciais que alijam os países pobres do processo econômico, ao terrorismo, ao fundamentalismo religioso e político, à destruição do meio ambiente e tantos outros problemas.

João Paulo II tem lugar de honra na história recente não apenas como líder supremo da Igreja Católica. É preciso vê-lo enquanto figura proeminente e apreciar o seu pensamento sem os preconceitos e a banalização das imagens que tornam, tantas vezes, reflexões tão importantes em meros clichês.

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petros@migalhas.com.br


* Economista e pós-graduado em Finanças. Foi Vice-Presidente e Presidente (1999-2002) da APIMEC – Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais do Mercado de Capitais (São Paulo).







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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.