Quarta-feira, 23 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Política & Economia NA REAL n° 119

Dilma, o novo governo e a quadratura do círculo - I

As pesquisas continuam dando vantagem suficiente para Dilma Rousseff para vencer no primeiro turno. Tirar cinco ou seis milhões de votos da candidata oficial nos cinco dias que faltam para eleição é algo muito próximo do milagre. Isso embora a perda de cinco pontos na vantagem da escolhida de Lula sobre os adversários tenha criados esperanças na oposição e certo temor no governo. Assim, é provável, bem provável, que o Brasil amanheça segunda-feira com sua primeira mulher eleita presidente da República. Parte da sociedade, especialmente aqueles que têm a ganhar ou a perder mais diretamente com a forma que são conduzidos, direcionados os negócios do Estado, já se dão ao esporte de especular a respeito de quem será quem no futuro governo Dilma e que rumos ele tomará. Não há indicações precisas, pois a par de Dilma passar boa parte do tempo enevoada pelo marketing e pela presença avassaladora do presidente Lula, quando falou mais abertamente, deu sinais contraditórios.

Dilma, o novo governo e a quadratura do círculo - II

Um discurso para cada público foi a tônica oficial. Empresários acreditam que a reforma trabalhista virá, destravando as regras de contratação e dispensas de empregados e reduzindo os custos fiscais da mão-de-obra. As centrais sindicais estão convictas de que estas questões serão exacerbadas, do ponto de vista deles. E não houve programa de governo para ser cobrado oficialmente, apenas rascunhos e promessas. O governo terá de se formar no dia a dia. Sob fortes pressões do que a sociedade acreditou que Dilma faria e as ambições políticas e de outro teor dos parceiros de jornada – Lula, PT, PMDB, aliados menores, centrais sindicais... A tendência de Dilma, até para não começar com atritos, é tentar contentar a todos. Será como encontrar a quadratura do círculo.

O grande perdedor

Lula – ele e quase mais nada – confirmada Dilma presidente, terá ganho a eleição presidencial. E a oposição perdeu para ela mesma, desde que passou oito anos sem saber se opor e perdida em sua fogueira de vaidades. Para se recompor, terá primeiro de tomar um banho de humildade.

Contabilidade

Não é preciso esperar os últimos dias de campanha, que prometem ainda bom aquecimento, para algumas constatações :

1. Foi, de um modo geral, a campanha mais rica do país em todos os tempos. Não devemos descartar futuras histórias de caixa dois pipocando.

2. Foi a campanha mais pobre em ideias, discussões consistentes e debates de programas de nossa vida política.

3. Foi a campanha mais agressiva, mas radicalizada que já tivemos, embora não tenha alcançado algumas baixarias como a de 1989.

4. Foi a campanha em que os plantonistas de poder – no âmbito Federal e no âmbito dos Estados – mais envolveram as máquinas públicas em favor de seus candidatos.

5. Foi a eleição que menos atraiu a atenção dos eleitores.

Realidade ou estratégia ?

Depois de semanas de ataque cerrado à "mídia golpista", Lula baixou o tom. Essas idas e vindas dele em relação à imprensa são periódicas. Um dia Lula chegou até a dizer que não lia jornais para não ter azia. O que teria levado o presidente a conter sua escalada ? Há dúvidas, mas a melhor aposta é a de que o confronto chegara a um ponto que não estava favorecendo a candidatura de Dilma. A dúvida é se é uma retomada do bom senso ou apenas um recuso estratégico. Nem Lula, nem o partido dele, escondem que seus conceitos de liberdade de imprensa e liberdade de expressão são os mesmos vigentes no Brasil e nas mais avançadas democracias do mundo.

De outras fontes

Não somente dos sonhos autoritários de parcelas do universo político-burocrático se alimenta a ameaça à liberdade de imprensa. Também do poder responsável pela preservação da Constituição e das leis, o monstro também solta labaredas tenebrosas. Por obra e graça do Judiciário em Brasília o jornal O Estado de S. Paulo está sob censura há 424 dias, completados hoje, por conta de estranhas histórias da conexão oficial Maranhão - Capital da República. Por diligência da Justiça de Tocantins, 84 órgãos de imprensa estão proibidos desde ontem de publicar notícias sobre as extravagâncias do governo estadual. Nos dois casos, protege-se uma gama de suspeitos de corrupção.

O medo dos dois documentos

Na última hora – a lei foi aprovada há dois anos e regulamentada há tempos pelo TSE – o PT entrou no STF com uma ADIn contra a obrigação de o eleitor apresentar dois documentos – o título de eleitor e outro com foto – na hora de votar, sob pena de exercer esse direito. Há temor de que muitos eleitores se esqueçam dessa exigência e não possam botar seu voto na urna. O que poderia aumentar significativamente o índice de não votantes no país. Tradicionalmente, ele já é alto, em torno de 20%. No eleitorado de hoje, cerca de 27 milhões de votos. O PT parece desconfiar que o eleitor que mais se dispõe a votar em Dilma (seus índices entre as classes D e E e de baixa escolaridade são estratosféricos) é o que mais estaria a não votar por esquecimento ou falta de um dos dois documentos. Pode ser. Porém, não seria uma demonstração de preconceito de quem se diz tão ligado ao popular ? Em tempo : a exigência é dessas coisas que somente nossa tradição burocrática, cartorial, explica.

Estelionatos eleitorais

Embora o ministro Guido Mantega anuncie – e de vez em quando até adote – medidas para conter a excessiva valorização do Real, a verdade é que o dólar continua patinando frente à moeda brasileira. O governo parece não querer fazer onda em período eleitoral. Faz lembrar FHC em 1998. Na ocasião muitos especialistas e empresários alertavam para o Real valorizado e para os problemas que isto trazia para a economia, as contas externas e a competitividade das indústrias nacionais. Em busca da reeleição, FHC ignorou as advertências. Depois das eleições, para evitar uma crise, teve de soltar a moeda. Começou neste momento a perda da confiança da sociedade. Havia sido reeleito em primeiro turno. Saiu do governo com popularidade regrada. Foi, de acordo com seus adversários, o segundo "estelionato eleitoral" da história da política brasileira pós-ditadura militar. O primeiro foi de José Sarney escondendo o fracasso de Cruzado em 1986. Deu no governo mais impopular de nossa Nova República.

Sem subterfúgios

O STF se apequenou na questão dos "fichas sujas". E ainda terá de assistir ao escárnio de Joaquim Roriz talvez chegar ao governo do DF por uma interposta laranja – a própria mulher. Como o processo de Roriz se extingue, os ministros não terão como julgar antes das eleições se a lei vale agora ou somente a partir de 2011. Depois das eleições, como cassar eleitos pela vontade popular ? Há no ar um impasse político sério. No Congresso, já há propostas para mudar as regras de fidelidade partidária impostas pelo STF. Não será surpresa - já se fala nos partidos - que venha também uma proposta para invalidar cassações pós-eleição. Afinal, a lei "ficha limpa" foi aprovada com má vontade e para não valer este ano por deputados e senadores. E, afinal, cinco ministros do STF disseram que em certas circunstâncias a lei pode retroagir.

Fazendo escola

Na esteira de Roriz, outros complicados na Justiça, como Cássio Cunha Lima, Jader Barbalho e Paulo Rocha, pode também indicar laranjas para seus lugares.

E os votos ?

Que será feito dos votos dos "fichas sujas" das eleições proporcionais se eles forem cassados ? Se forem anulados, poderão alterar as bancadas dos partidos na Câmara e nas Assembleias, alterando o que o eleitor expressou nas urnas, votando no candidato de tal ou qual legenda. Se não forem anulados, teremos parlamentares beneficiados pelos "fichas sujas", maculando o espírito da lei. Não será pouca coisa. Pela última contagem oficial, são 228 candidatos de 25 partidos com candidaturas impugnadas.

Coisas de outro mundo

Sindicato de Jornalistas (o de SP) dando guarida a manifestações contra a imprensa. OAB/SP defendendo a censura a uma obra de arte. O Brasil é mesmo um país surrealista.

Ações da Petrobras e desenvolvimento humano

De fato, foi um sucesso. De público e de palanque. Porém, há questões a observar :

1. Muitos princípios da boa governança corporativa foram simplesmente para a lata de lixo, sob o olhar complacente de muita gente boa, como a CVM e BMF/BOVESPA.

2. Vendeu-se o futuro para consumir no presente.

3. O governo vai pegar algo entre R$ 20 e 30 bilhões do dinheiro da capitalização para pagar despesas correntes e fingir que faz um superávit primário de qualidade quando é pura lambança contábil.

4. O acionista minoritário foi desrespeitado ao extremo, como nunca antes...

Há muita coisa a ser esclarecida, a começar pela engenharia financeira entre Tesouro, BNDES, fundo de pensão das estatais. Guimarães Rosa ensina que o diabo mora nos detalhes. Apesar de tais e outros senões, tudo oficialmente cheira a mil maravilhas. Foi o maior lançamento da história do capitalismo, a BOVESPA já é a segunda maior bolsa do mundo, a Petrobras está prestes a se tornar a quarta maior empresa do planeta. Num país, cujo IDH - Índice de Desenvolvimento Humano é o 75º do mundo. E ainda há gente rindo à toa.

Sustentação do crescimento é vital

A sustentação do crescimento econômico ainda é o ponto-chave para economia brasileira. Muito embora o país tenha superado o pessimismo que imperava em relação ao tema, a taxa de investimento público e privado continua relativamente baixa para que tenhamos convicções sobre o nível de crescimento que pode ser tolerado sem que existam processos de elevação da inflação. O mercado estima um crescimento para o ano que vem ao redor de 4,5% o que representará uma desaceleração significativa em relação a este ano quando o PIB deve crescer acima dos 7%. O PAC é importante neste sentido e, enquanto plano de investimento em infra-estrutura, necessário ao país. O problema é que este carece da prometida velocidade, fruto de problemas gerenciais, e de um maior estímulo à parceria com o setor privado. O próximo governo terá que administrar este processo com muito cuidado. O risco em relação ao tema é muito maior que a sua aparência.

A "herança maldita" de Lula

Não são poucos os vazamentos da cúpula da campanha da petista dando conta de um "ajuste fiscal" logo no início da gestão de Dilma. Bem, este assunto está muito longe de ser consenso entre os ideólogos da candidata e, até mesmo, da própria, conforme já reportamos nesta coluna nas últimas semanas. Porém, é possível que este ajuste não seja apenas necessário. Talvez seja "exigido" pelo mercado para que o Brasil permaneça como queridinho dos investidores internacionais. Obviamente, o país é soberano e pode navegar em águas mais turbulentas, mas o que parece é que os investidores estão menos condescendentes com os indicadores brasileiros. Testarão a política econômica de Dilma logo no início de sua gestão. Se ela ganhar, é claro.

O Brasil vive uma "bolha" ? - I

Os principais centros financeiros mundiais estão vivendo um período de revisão de projeções para o próximo ano. Os analistas estão quase que repetindo os mesmos diagnósticos em relação aquilo que prognosticaram para 2010. Os mercados emergentes persistirão como os mais promissores enquanto as economias centrais persistirão em ritmo lento. Esta coluna conversou com alguns analistas de importantes instituições internacionais. Há preocupações crescentes com o Brasil, apesar de pouca coisa acabar sendo escrita – os grandes negócios que têm sido feito com as empresas brasileiras moderam opiniões mais contundentes. A deterioração das contas públicas, a baixa taxa de investimento, o déficit externo (crescente e baixa competitividade das exportações de manufaturados), a corrupção e a fragmentação política, são alguns dos aspectos que ocupam as mentes dos analistas.

O Brasil vive uma "bolha" ? - II

Quando se olha o preço dos ativos brasileiros em reais a valorização foi estupenda ao longo dos últimos anos e, principalmente, depois da recessão mundial do período 2008/09. Apesar desta valorização, em termos relativos tais ativos não parecem caros. No caso do mercado de ações o índice preço da ação/lucro por ação (P/L), um dos mais utilizados no mercado, gravita ao redor de 12x, o mesmo patamar dos EUA. Teoricamente o crescimento dos lucros por aqui será maior que no caso dos EUA. Por esta lógica, vale a pena recomendar ações brasileiras, apesar destas não serem a "barganha" de há alguns anos. O problema, dizem estes analistas, é que grande parte das empresas brasileiras é de produtoras de commodities que tem pouco conteúdo tecnológico e são dependentes do desempenho da economia mundial. Assim, o baixo risco aparente do mercado não é tão baixo assim. Quando se coloca este aspecto "micro" sob os holofotes dos "macros" (conforme consta na nota anterior) é que o medo de que o Brasil esteja numa "bolha" aparece.

Radar NA REAL

24/9/10

TENDÊNCIA

SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA estável alta
- Pós-Fixados NA estável alta
Câmbio ²
- EURO 1,3478 queda estável
- REAL 1,7084 estável estável/baixa
Mercado Acionário
- Ibovespa 68.196,47 estável/alta estável/baixa
- S&P 500 1.145,95 estável/alta estável
- NASDAQ 2.380,40 estável/alta estável

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.