Quinta-feira, 19 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Política & Economia NA REAL n° 120

Um país dividido

Qualquer eleição permite que se faça uma gama enorme de análises dos resultados. Nesta eleição, não foi diferente. Uma das mais notáveis diz respeito à divisão de votos entre Estados ricos e pobres. Do lado de Dilma, sua vitória foi nos nove Estados nordestinos – ganhou em 18 Estados. Enquanto isto, os eleitores de Serra se concentram nas classes mais elevadas e nos Estados mais ricos. Tal divisão terá efeito relevante nos próximos anos no Congresso e nas pressões políticas de regiões mais pobres e demandantes de projetos de desenvolvimento. Assim, a despeito de quem seja o presidente, os projetos presidenciais estarão pressionados por agendas crescentemente inclusivas do ponto de vista social e fiscal. A composição do Congresso – 72% dos parlamentares são governistas – ampliará o poder do PMDB como "fiel da balança", seja quem for o eleito. Exatamente o partido sobre o qual pouco se conhece em relação as suas proposições políticas, sociais e econômicas. Está aberto o caminho para o fisiologismo.

Pouco a acrescentar

Do ponto de vista programático, o segundo turno não deve trazer nenhuma mudança. Tudo deve ficar na superfície. Os dois candidatos deverão fixar suas críticas em aspectos mais aparentes da personalidade de cada um, bem como nas "bandeiras" partidárias. Tudo sem detalhamento e sem maiores explicações de como governarão. Conversas de bastidores na campanha tucana dão conta que "agora é tirar a máscara de Lula do rosto de Dilma". Isto significa que a luta será mais pessoal que política do ponto de vista tucano. Já os petistas tentarão grudar a imagem de Serra à de FHC, uma estratégia que retira votos, segundo os petistas. As estrelas da propaganda eleitoral continuarão a ser os marqueteiros. O resto é detalhe.

Quem é a direita no país ?

O DEM, sucessor direto do PDS que deu sustentação à fase final do regime militar é o grande derrotado do momento. Seja do ponto de vista desta eleição, quando o partido perdeu 14 de suas 56 cadeiras, seja na última década, quando o partido perdeu 63 de sua 105 cadeiras, num total de 513. Enfim, o partido não é mais a representação da histórica direita brasileira. Há notória dificuldade dos partidos brasileiros se identificarem como "de direita" ou "liberais" (no sentido clássico da palavra). O que ocorre é que a antiga direita está espalhada em diversos partidos, com maior concentração no PMDB e no PSDB. Mesmo para aqueles que não acreditam mais na terminologia direita/esquerda, temas como a presença do Estado na economia, privatizações e reformas trabalhista e tributária ainda carregam fortes componentes ideológicos. Todavia, a defesa das ideias liberais hoje está a cargo de "facções" ou parcelas dos partidos, já que do ponto de vista orgânico os programas políticos não são nada consistentes. Resta saber se algum partido ocupará formalmente o espaço deixado pelo DEM.

A grande razão

Há pequenas e grandes explicações para o fato de Dilma, favorita absoluta (mesmo descontando-se as vacilações dos institutos de pesquisa) ter escorregado para o segundo turno, quando tinha tudo para levar no primeiro. Entre elas, o caso do sigilo fiscal, as estripulias da família Erenice e até as vacilações da candidata oficial na questão do aborto. Cada uma dessas coisas, no último mês, tirou pontos da candidata. Mas a questão crucial foi outra, definida em dois vocábulos – arrogância e humilhação. A prepotência exibida pelo presidente Lula quando sua predileta ganhou fôlego, o ar superior de quem sabe tudo, o sorriso superior dos vitoriosos, somados à agressividade com que passou a tratar concorrentes e imprensa, assustaram. Completou este quadro a ameaça de extirpar os adversários, humilhá-los. O brasileiro é cordato, cordial (num estilo, aqui, diferente do definido por Sérgio Buarque) e costuma optar ou simpatizar com a vítima. Certo que se Dilma tivesse aparecido mais como ela mesma e menos como um apêndice de Lula, nada disso teria tido influência decisiva. Porém, como criatura não se desgrudou do criador, foi engolfada pelos sustos que ele causou.

Um exemplo

Caso mais típico da reação do eleitor com as ameaças de Lula deu-se em SC. Foi lá que Lula ameaçou extirpar o DEM da vida política nacional. Pois bem, naquela ocasião Raimundo Colombo, o candidato do partido, liderava a pesquisa local, mas não levava no primeiro turno. Pós-ameaça foi crescendo e ganhou no primeiro turno.

Chá de sumiço

Desde domingo pela manhã, quando passou a admitir que poderia haver segundo turno, o sempre eleitoralmente loquaz e onipresente Lula, recolheu-se. Passou a manifestar-se apenas por meio de porta-vozes oficiais e oficiosos. Para estes, traça estratégias e retempera as forças para o segundo turno. Para quem conhece Lula, ele curte frustrações e mágoas.

Um grande equívoco

Na contabilidade negativa do governo nesta eleição está também o fato de não ter levado a sério, ter subestimado a candidatura Marina Silva, ter até tentado em alguns momentos humilhá-la. Marina, como alguns previram, inclusive esta coluna, num texto lá atrás sobre o fator Marina, virou um pequeno fenômeno, com possibilidades de crescer se for bem gerido. Hoje, Dilma, uma das principais responsáveis pela saída de Marina do ministério do Meio Ambiente de Lula, tece loas à ex-companheira. No privado, porém, o que se diz dela, do PV e dos grupos sociais que a apoiaram não é nada publicável.

Mágoas

Lula não deveria estar insatisfeito. Afinal, fora o segundo turno, teve umas vitória em regra. Eliminou até alguns dos adversários mais jurados por ele, como os senadores Tasso Jereissatti, Arthur Virgílio e Marco Maciel. Mas como ele se pôs como principal missão este ano no governo eleger Dilma, deu um frio na barriga. Embora Dilma saia como franca favorita (independente do que digam os institutos de pesquisa).

Reinvenção

Por falar em institutos de pesquisas, eles erraram mais do que acertaram este ano, alguns mais que os outros. Vão ter de rever metodologias, métodos e motivações. Não dá para institutos trabalharem para governos, candidatos, partidos e ao mesmo tempo se pretenderem neutros. Não dá também para entender como entidades sustentadas por dinheiro público – CNT, CNI, com imposto sindical – patrocinem pesquisas eleitorais. Não é do escopo de suas atividades.

O dilema da oposição : o que fazer ?

Se quiser ter alguma chance no segundo turno, a oposição terá de descobrir primeiro onde e como Lula, Dilma e parceiros falharam. Afinal, o governo foi para o segundo turno mais por sua obra e graça do que pelas virtudes da oposição. Depois, terá de ser mais incisiva, mais agressiva, mais propositiva, com linguagem menos empolada. Sem perder a ternura, porém.

E agora, Serra ?

Aloysio Nunes provou, na sua campanha, que Fernando Henrique não tira votos, pode até acrescentá-los.

E agora, Aécio ?

O ex-governador de Minas, eleito apoteoticamente senador, não tem mais a desculpa de que precisava ficar restrito regionalmente para garantir seu poder no Estado. Está livre para voar com Serra. Alckmin, seu principal concorrente na futura liderança nacional tucana, vai voar.

Injunções eleitorais

A decisão do ministro da Fazenda, Guido Mantega, uma dia após o primeiro turno, de anunciar a duplicação do IOF na entrada de capital estrangeiro no país é a maior prova de quanto o cálculo das urnas conta nas considerações de ordem econômica no momento. Cabe perguntar : o que poderá vir depois de 31 de outubro.

Para temer

O governo fez maioria na Câmara e no Senado suficiente para aprovar, sem sufoco, qualquer projeto de seu interesse, até reformas constitucionais, ignorando a oposição.

Para não temer

Se a oposição, o que hoje se afigura quase impossível, vencer a eleição presidencial, não há o que temer : em 15 dias ele terá maioria no Congresso.

Explicação

Por que a cara de total constrangimento de Michel Temer e Guido Mantega no palanque em Brasília na noite de domingo quando Dilma apareceu para falar do segundo turno ? Aliás o que fazia lá o ministro da Fazenda se não fosse para a festa da vitória ?

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.