Quinta-feira, 14 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 31 de maio de 2011

Política & Economia NA REAL n° 154

A crise, mitos e consequências

A crise de "governabilidade política" de Brasília que galgou os jornais na semana passada, e que está paralisando um bom naco do governo Federal, é antiga, antecede ao caso Palocci e a derrota da presidente Dilma na votação do Código Florestal. Os dois casos só fizeram expor o descontentamento da base partidária e parlamentar do governo, com a condução dada pelo Planalto – tanto do ministro quanto da presidente – das questões partidárias e legislativas. A insatisfação batia na cara de qualquer um que pisasse apenas por algumas horas em Brasília. Descontentamento de A a Z, das legendas mais insignificantes às mais significativas – não apenas o PMDB como também o PT e o PSB.

Origens da crise

Dilma começou o governo tentando impor seu estilo e sua vontade – não dar bola para a política (dos políticos), não atender às reivindicações fisiológicas por empregos e segurando a enxurrada de verbas. Enfim, tentou segurar-se em sua decantada competência gerencial e no molejo político de Palocci. Viu-se – e este foi o primeiro mito que se desfez, que o molejo político de Palocci era só fantasia. Além disso, "competência gerencial" não faz verão no Congresso quando faltam outros alimentos essenciais no universo político-eleitoral. A crise estava no ar, só não tinha data marcada para acontecer.

A volta do criador

Por isso, foi preciso sacar, antes da hora e ao que transparece dos ventos palacianos, de forma não desejada, o maior trunfo da presidente : seu padrinho e antecessor. As consequências da intervenção de Lula no processo político ainda serão medidas. Mas não serão boas para Dilma. Lula passa a ser o desaguadouro das insatisfações. Assim, não é de estranhar que, após a apoteótica passagem de 48 horas do ex-presidente por Brasília, na qual, como disse um parlamentar governista, ele parecia "mais feliz que pinto no lixo", o Palácio do Planalto tenha espalhado por seus porta-vozes informais que Dilma não ficou satisfeita com a história toda. Não ficou ? Não foi o que se viu nesses dois dias em que Lula foi mais "o cara" do que nunca e ela manteve-se em obsequioso retiro. Para apagar esta impressão, Dilma terá de virar uma "política", desvestindo o avental de gerente e reformulando por inteiro seu esquema de coordenação parlamentar e partidário.

Outros mitos decaídos

Não bate com os fatos a interpretação do presidente Lula de que Palocci não teve tempo de dar mais atenção aos deputados e senadores porque estava muito atarefado com o trabalho para dentro do governo na Casa Civil. Pelo contrário, o ministro teve suas tarefas aliviadas – perdeu, por exemplo, o controle do PAC e do programa "Minha Casa, Minha Vida", para poder dar tempo integral às tarefas da coordenação política. É para quem acredita em Papai Noel a tese, também de Lula, de que está na oposição a responsabilidade pela crise. Eles, que não se seguram de pé, não estão na origem do problema nem em seus desdobramentos. Faltaram foram alicerces à casa que foi construída para sustentar quatro anos de Dilma.

Um probleminha e tanto

De todos os pepinos que Lula deixou para Dilma administrar, o mais grave foi a impressão de que, sem barganhas fisiológicas, o governo não sobrevive à algaravia de sua base política no Congresso e a disputa por espaços, com vistas especialmente a 2014, entre PT, PSB e PMDB e, ainda, à fogueira de vaidades e desejos petistas.

No vácuo

Quem cresceu politicamente nesta história toda foi o secretário-geral da Presidência, Gilberto de Carvalho, homem de estrita confiança de Lula. É o coordenador político extraoficial.

Casamento quase indissolúvel

Não se aposte, por mais que a crise esteja no ar ainda e as mágoas que ficaram (vide os arrufos Palocci-Michel Temer e as queixas de Dilma em relação ao PMDB), em um rompimento da aliança governista, o PMDB e o PT estão condenados a andar coladinhos ainda por um bom tempo, por mais que um desconfie do outro e do ódio mútuo. Portanto, o ambiente de crise vai estar ainda por bons meses no ar, ainda mais depois que o PMDB viu que tem de fato "a força" e o PT mostrou-se, no episódio, dividido e com certa tibieza.

Tucanos de bico afiado

Celebrou-se um casamento de ocasião na convenção nacional do PSDB. Não foi desta vez que o partido definiu seus rumos para 2012 e 2014. Segue com três presidenciáveis no ar – Aécio, Serra e Alckmin – três diletos "inimigos cordiais", nenhum disposto a ceder espaço para o outro, mas condenados a frequentar os mesmos banquetes. O PSDB segue totalmente unido em sua desunião, uma dádiva para o politicamente desorganizado governo Dilma no momento.

De olho gordo

As agruras políticas da presidente Dilma abriram os olhos do PMDB para as possibilidades de o partido deixar de ser apenas o segundo na aliança presidencial e em futuros embates eleitorais. Até um "nome" o partido já acalenta para qualquer eventualidade. É isto, mais do que o comportamento na votação do Código Florestal, que explica o elevado grau de agastamento de Dilma com seu parceiro de coalizão.

Período graça

A crise política não está deixando o Planalto aproveitar o período da graça que está tendo na economia, com o arrefecimento da inflação mensal e das expectativas negativas do mercado, para avançar com alguma agenda "positiva". Segundo alguns analistas, no segundo semestre, com uma série de dissídios coletivos e porte e pressões por gastos públicos, o ambiente pode se inverter. No front positivo, há a moderação no curto prazo das expectativas para a inflação. Referimo-nos não apenas à pesquisa do BC com os agentes de mercado (pesquisa Focus), mas aos menores efeitos dos preços dos alimentos sobre os indicadores de preços. O problema persiste o mesmo : o governo joga para cima a demanda em função de seus elevados gastos e o setor privado vê demanda para baixo. Isto é fruto da ineficácia da política de controle de gastos da fazenda/planejamento, apesar dos números a serem divulgados (vide nota a seguir).

As contas oficiais em observação

Esta semana o BC deve anunciar o resultado das contas públicas de todo o setor público até abril, com um superávit próximo dos R$ 60 bi, mais de 50% de toda a economia de recursos prevista para todo o ano para amortizar a conta de juros. Há tanta euforia com esse desempenho que o secretário do Tesouro Nacional, Arno Agustin, anunciou que o governo, a partir deste mês, poderá afrouxar o torniquete aplicado no orçamento. Até para aplacar a ira aliada no Congresso. Especialistas (não-oficiais) em contabilidade nacional, no entanto, aconselham alguma cautela. Lembram que boa parte do superávit se deve ao excepcional aumento da receita tributária, mais de 11% até agora em termos reais, ao represamento dos investimentos e o adiamento de outras despesas. No caso dos investimentos - dinheiro novo para o PAC quase ainda não saiu - os recursos para a Copa e Olimpíadas só estão até agora no papel e não podem ser mais adiados. Quanto às despesas adiadas, somente uma correção nas aposentadorias, já transitada no STF, portanto impostergável por muito tempo, pode consumir um bom pedaço do aumento das receitas – e como uma despesa continuada, permanente.

Câmbio em desalinho

Com a confusão política, passaram despercebidas duas declarações oficiais que jogam mais dúvidas na política cambial do governo. Sabe-se que o real valorizado está sendo administrado de modo a auxiliar no combate à inflação, o que deixa a indústria local em profunda agonia. Pois bem : segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o sistema de câmbio flutuante no momento é ineficaz para lidar com a situação. O ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, disse que não vê solução a curto prazo para a valorização do real. O que fazer : tocar um tango argentino, como no poema de Manuel Bandeira, se até o governo se confessa impotente ?

Outra dor de cabeça à vista

Em plena crise política o governo verá nascer, esta semana ainda, uma frente em defesa da PEC que reajusta os salários dos policiais civis e militares e do corpo de bombeiros de todo o país, equiparando-os aos de seus similares do Distrito Federal. É assunto explosivo, pela categoria que beneficia. No ano passado causou sérios problemas para o então presidente da Câmara, Michel Temer. Por pouco não houve uma invasão da Casa Legislativa. Essas forças estão mobilizadas, cobrando compromissos assumidos anteriormente pelos partidos e mostrando holerites de fato irrisórios num serviço mais que essencial. Os donos dos cofres estaduais, que pagam diretamente a conta, e os dos cofres Federais, que terão de dividir a nova despesa, não querem nem ouvir falar desse assunto agora. Calcula-se que pode chegar a R$ 60 bi mensais o ajuste. Com o governo fraco politicamente como está, é bomba de alto teor explosivo para ser desmontada.

Autismo palaciano ?

É inacreditável que o Planalto não saiba que está pronta para votação no Senado a PEC, cujo autor é o senador José Sarney, com emenda do senador Aécio Neves, que restringe o poder do Executivo na edição de Medidas Provisórias.

Compromisso com a derrota

Se o PT pretende mesmo perder mais uma vez a disputa pela prefeitura de SP está certo em seguir a sugestão do presidente Lula de apostar no "novo" : a candidatura do ministro da Educação, Fernando Haddad. Haddad terá de passar a campanha explicando pelo menos três desastres :

1. As confusões do Enem.

2. Os livros que ensina que as crianças podem pescar.

3. E os desacertos da cartilha anti-homofobia.

E olha que até a eleição o MEC ainda tem muito tempo para "aprontar" outras.

A política externa do Brasil

Dilma começou sua gestão fazendo gestões contra o Irã no que refere aos direitos humanos e fez a sua mais importante visita internacional à China, país no qual o termo "direitos humanos" soa como uma ficção não científica. No âmbito do Mercosul, os problemas são enormes e as contradições econômicas evidenciam que não há ação coordenada entre os seus membros, sobretudo em relação à Argentina. A visita de Obama ao país trouxe poucos e "cinematográficos" resultados. Estas são apenas algumas evidências de que a política externa brasileira carece de objetivos estratégicos. Ainda mais agora quando se descobre que a China trabalha contra as ambições brasileiras de ter um assento no Conselho de Segurança da ONU. Lula, uma figura emblemática, obscurecia a ausência de uma política externa de longo prazo. Dilma, figura acanhada e "gerencial" pôs à tona as contradições no campo diplomático.

México em ascensão

O México já foi o queridinho dos investidores nos mercados emergentes na década de 90. Depois, foi superado pela Índia, China e Brasil. O país era uma enorme promessa nas análises exageradas de Wall Street e da City londrina. Os pobres de lá continuam pobres e os ricos no mesmo lugar de antes. Agora, começam a surgir novos relatórios a elogiar a política anti-inflacionária do BC mexicano. O dono da bola é o seu presidente Agustin Carstens que controlou as expectativas de inflação e, ao dominar a fera, tornou real suas ambições de ser o nº 1 do FMI.

A onça vai beber água em Atenas

Nesta semana, o FMI e oficiais da União Européia desembarcarão em Atenas propugnando novas medidas de austeridade para que o país possa retificar sua condição de solvente. Uma tarefa e tanto. Afinal, se estas medidas forem seguidas o país permanecerá estagnado e com uma taxa de desemprego que pode alcançar 30% de sua mão de obra ativa. Pois bem : o que muda a economia é a política e os gregos parecem pouco inclinados a dar suporte para o Partido Socialista realizar os planos dos investidores. A coisa toda deve acabar em algum tipo de reestruturação da dívida, seja ela consentida ou unilateral.

Candidato Obama

A julgar pelo conjunto de dados econômicos de atividade e emprego divulgados nas últimas semanas, o senhor Barack Obama há de ser um candidato que terá poucos resultados a mostrar a seu eleitorado no que tange à economia. A demanda persiste fraca, o crédito débil e a turma das finanças especulando doidamente com a expectativa de que a inflação subirá diante de tanto déficit público. As bolsas dos EUA estão patinando por conta disso. Todavia, o verão no hemisfério norte, período de férias, vai dar um refresco para o presidente nascido no Havaí.

Obama e o terrorismo

Esqueçam o Obama candidato do passado, viva o Obama candidato de agora ! A aprovação ao final da semana passada da continuidade das medidas antiterror denominadas de Patriot Act pelo Congresso dos EUA e docemente assinada por Obama é mais um sinal de que o democrata não veio para mudar muito. Apenas faz mudanças cosméticas na política antiterror implementada por George W. Bush. O governo dos EUA vai continuar podendo bisbilhotar nas contas de cartões de crédito dos cidadãos e revistando de forma constrangedora os viajantes nos aeroportos do país.

Radar NA REAL
 

27/5/11   TENDÊNCIA
SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA alta alta
- Pós-Fixados NA alta alta
Câmbio ²
- EURO 1,4277 alta alta
- REAL 1,6022 estável/queda estável/queda
Mercado Acionário
- Ibovespa 64.294,91 baixa estável/alta
- S&P 500 1.325,69 estável/alta alta
- NASDAQ 2.782,92 estável/alta alta

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.