Quinta-feira, 21 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Política & Economia NA REAL n° 177

Europa : a dualidade ampla, geral e irrestrita

Não há analista que não reconheça a gravidade da crise europeia, mas o conteúdo desta tem sido interpretada com enorme amplidão o que dificulta, ao não versado em economia, entender suas variáveis e consequências. A cobertura da mídia dá enorme ênfase à crise da Grécia, país pequeno e muito menos importante na zona do euro. Todavia, a rápida deterioração dos fundamentos deste país gerou consequências que se espalharam por todo o Velho Continente e colocaram a moeda unificada sob risco. Eis o primeiro e simbólico teste do modelo político-econômico-social da Europa : um desastre em termos de coordenação em função da política paroquial de quase todos os países que estão sob o euro, especialmente da França e da Alemanha. É da contradição entre a "união" da ideia de uma Europa e a realidade mesquinha e paroquial de cada país que resulta o maior problema de um continente que pretendia ser a gruta iluminada do processo civilizatório do século XXI. Triste engano.

G-20 : uma reunião vergonhosa

Pode-se resumir a ausência de soluções da reunião das 20 maiores economias mundiais em Cannes com muitas palavras. De nossa parte preferimos "vergonha". A cidade escolhida para sediar não poderia ser mais apropriada : parecia uma reunião de artistas a praticar o "realismo fantástico" do cinema. Vejamos : Nicolas Sarkozy, o anfitrião francês, queria capitalizar a imagem de grande líder europeu às custas de decisões mal construídas. O abatido Obama cobrava resultados que minimamente não alcança do outro lado do Atlântico. Angela Merkel, com seu rosto marcado, ameaçava a pequena Grécia de uma espécie de excomunhão caso não aceitasse retirar de pauta um referedum de última hora alegado pelo premiê Papandreou da Grécia. Berlusconi desembarcava na Riviera Francesa sem saber se voltava firme no cargo. Já Zapatero, que deve perder as eleições de dezembro, nada tinha para negociar. Irlandeses e portugueses eram questionados a razão de seus títulos soberanos pagarem mais juros que a Grécia. A China olhava tudo isto com água na boca. E o Brasil sem propostas em função da falta de proposta dos próprios europeus. A conclusão é simples, mesmo que desastrosa : o maior problema para a solução da crise é política. Não há lideranças críveis para elaborar planos e soluções.

A Grécia e seus "parceiros"

O cenário grego é trágico. Todavia, o pequeno país balcânico é a ponta de um iceberg já desvendado : Itália, Espanha, Portugal e Irlanda estão igualmente em maus lençóis e é de cada um deles ou de seu conjunto que virão novas e mais graves turbulências, se nada for feito. Por seu lado, a Grécia tenta reforçar a sua política interna aos trancos e barrancos : a proposta de um referendum não é tão descabida quando se vê um país com ¼ de sua força de trabalho desempregada, o mesmo nível dos EUA quando da depressão pós-29 e, ao mesmo tempo, Alemanha e França pedem mais "ajustes". De toda forma, ou por meio de eleições, ou de um governo de coalizão, os gregos vão buscar a solução política que falta aos outros países. Uma geração de jovens será afetada pela falta de esperança. Não dá para falar em cenário melhor, mas a cessação de pressões "na boca do caixa" já seria um fator positivo. Isto dependerá da solução política interna, mas também dependerá da capacidade de seus "parceiros" em entender a natureza da crise e agir politicamente em conjunto.

O "mercadismo" intacto

Não foram poucos os anos de avanço dos "tecno-banqueiros" na economia mundial. Trata-se de uma "classe social" que passou a influir decisivamente na condução de todos os assuntos relevantes às economias nacionais e ao mercado internacional. De seus interesses é que nasceram os projetos "liberalizantes", que permitiram ao cabo de poucos anos a propagação de modelos teóricos, que funcionavam e uma prática que engendrava crises de todos os lados : desde os anos 90 até o presente, mais de duas dezenas de crises afetaram a chamada "economia real". E o que se viu foi a passividade dos reguladores, em geral, e dos BCs, em particular. A crise pós-29 resultou numa guerra mundial e, ao final dela, em uma bem elaborada tentativa de coordenação de política econômica a partir de Bretton Woods, reunião que criou o FMI, o BIRD, o BIS e outros organismos de cooperação. A crise atual merece uma revisão substantiva do funcionamento do mercado de capital e financeiro ao redor do mundo. Todavia, ainda não foi construída uma fórmula política de fazê-lo. Mesmo porque banqueiros e financistas estão a controlar a antessala dos principais decision makers mundiais. O exemplo maior é Barack Obama, triste personagem democrata dos EUA que não consegue articular nenhuma política consistente em busca de soluções. É o caso de sentir saudades intensas de Franklin D. Roosevelt.

Um calendário político ?

De tudo que ocorreu pelos lados do Velho Continente, por ocasião do "meio sucesso" (definição de Dilma) da reunião do G-20 em Cannes, foi um fato paralelo : a inesperada decisão do novo presidente do BC Europeu, o italiano Mario Draghi, de reduzir a taxa de juros por lá. Por isso e por outras coisas, a interpretação de algumas autoridades brasileiras é de que saiu de campo a rigidez dos ajustes fiscais para dar lugar a políticas mais "sóbrias", de olho também no crescimento e no emprego. Igualzinho ao que o Brasil vem fazendo. Mesmo que a Grécia tenha levado uma prensa da dupla Merkel-Sarkozy e a França tenha anunciado ontem uma política de ajuste nas contas públicas, com aumento de tributos e cortes nas aposentadorias. O Brasil quer aprofundar sua estratégia, com o sonho de voltar a crescer até 5% no ano que vem. Há quem aposte no aumento de 14% do salário mínimo, tido como um problema para os críticos, para ativar o consumo. Há também os gastos com a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Sem contar os gastos do ano político-eleitoral. As fichas já estão na mesa e a roleta começa rolar. A dose de otimismo em Brasília está elevada.

Ortodoxia ou heterodoxia ?

Ainda vai dar muito o que falar a proposta do senador Lindbergh Faria (PT/RJ), aprovada por unanimidade na Comissão de Assuntos Econômicos acrescentando duas outras obrigações à tradicional função do BC de proteger a integridade da moeda : deverá também garantir o crescimento da economia e do emprego com a política monetária. Já é um pouco do que o BC está fazendo com Dilma, embora sem confessar abertamente. É a alegria dos heterodoxos (ou desenvolvimentistas) e o horror dos ortodoxos (ou monetaristas). Alega-se que o Fed já tem tal mandato.O governo ainda não disse se é a favor ou contra.

Breve revisão de nosso cenário

Como enunciamos na semana passada, estamos num dificílimo período de transição. A reunião do G-20 e as decepções com os caminhos da Europa são retratos fiéis do atual momento. De toda a forma, persistimos na ideia de que não é bom negócio apostar no pior. (Vide a coluna da semana passada na qual elaboramos algumas de nossas razões que justificam esta posição - clique aqui). O ponto mais importante no curto prazo e, tão logo a Grécia se estabilize minimamente, é verificar se a Espanha, Itália, Portugal e Irlanda vão ter crises tão agudas quanto à da Grécia. O melhor sintoma que pode vir neste momento é a substituição das lideranças políticas na Itália e na Espanha. Somente a política pode mudar a economia, agora e sempre. Caso a crise se torne aguda é provável que os vários segmentos dos mercados se tornem novamente tensos, voláteis e deprimidos. Neste caso, revisaremos nossos pontos de vista. O pior ainda estará por vir. Por enquanto, não é nisso que acreditamos.

Radar NA REAL

4/11/11   TENDÊNCIA
SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA queda estável
- Pós-Fixados NA queda estável
Câmbio ²
- EURO 1,3959 estável alta
- REAL 1,6942 baixa estável/baixa
Mercado Acionário
- Ibovespa 59.727,08 estável baixa
- S&P 500 1.253,23 estável estável
- NASDAQ 2.686,15 estável estável

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

Para quebrar o termômetro

Informa-se que Lula, mesmo sem poder falar muito por recomendações médicas, ficou irado com os dados do PNUD sobre o IDH brasileiro - que teria perdido 13 posições em relação à medida anterior, quando medido também pela desigualdade social – e teria cobrado uma reação enérgica do governo Dilma. Diz que os números do Brasil adotados pelo organismo da ONU estão defasados. Dados mais recentes passados pelo governo brasileiro não teriam sido considerados. Pode ser até que sim e que uma revisão faça o Brasil subir. Todavia, parece mais uma coisa de quebrar o termômetro para disfarçar a febre. Pode um país, no qual somente 47,5% de todos os seus lares têm acesso a redes de esgoto sanitário, arvorar-se em campeão do desenvolvimento humano ? Briga-se com os números, com os fatos, nunca.

Se fosse assim

De um leitor assíduo desta coluna, a respeito da nota da semana passada sobre a agonia quase crônica da oposição :

"Se com os oposicionistas em doce recesso, o governo já perdeu cinco ministros por suspeitas de ´malfeitorias´, imagine-se o que ocorreria se PSDB, DEM e PPS tivessem um décimo da disposição de briga de Lula e do PT quando do outro lado eles infernizavam a vida dos adversários."

Será assim ?

Não dá para saber, até agora, se o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, seguirá a sina dos seus outros oito indigitados colegas que perderam seus cargos em poucos dias depois de reportagens na imprensa ou se conseguirá passar incólume da fritura que se instala em Brasília. Há a denúncia, apoio formal com cobrança oficial de explicações, novas revelações até a degola. Mas não é importante saber se ele se safa desta. Há algum tempo já é, de fato, como cinco ou seis companheiros de Esplanada : um ex-ministro, um zumbi à espera de uma carta de demissão. E essa turma vai para o estaleiro, em janeiro ou fevereiro, juntamente com alguns candidatos a prefeito, por absoluta falta de aptidão gerencial, não por possíveis desvios funcionais.

Mudou a explicação

Desde a saída de Wagner Rossi do ministério da Agricultura, governo e partidos dos ministros que perderam os cargos desistiram definitivamente de culpar a imprensa (golpista ?) e a oposição pelas denúncias responsáveis pelas degolas. Já se conformaram com as intrigas internas e os atingidos esperam apenas para dar o troco.

Pule de dez

Não há (aliás, havia ?) nenhuma dúvida, depois do abalroamento de Marta Suplicy, que o candidato petista à prefeitura de SP será o ministro Fernando Haddad. Sem prévias. O que se pergunta agora é quantos diretórios estaduais e municipais do PT nas grandes cidades pelo país afora resistirão aos apelos de Lula. Se houver algum, será apenas para confirmar o ditado : manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Resistirá ?

Empolgado, o PMDB tem dito que em SP não há essa coisa de aliança incondicional no primeiro turno. Gabriel Chalita é o candidato peemedebista e pronto. Será ? Somente se for para garantir o petista Haddad no segundo turno. Se tirar votos do ministro da Educação... O PMDB tem muito a perder no plano Federal, a começar pelo olho gordo de alguns aliados na vice-presidência em 2014.

Tudo pelo social

Governo vai pressionar o Senado a aprovar o projeto, já passado na Câmara, autorizando o uso dos recursos do FGTS para financiar obras da Copa do Mundo. É mais patrimônio dos trabalhadores jogados em negócios de retorno duvidoso – e bem duvidoso. Não basta o que se faz com o FAT ?

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.