Segunda-feira, 18 de março de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 17 de agosto de 2004

O mau império contra o Império do Mal

Francisco Petros*


O mau império contra o Império do Mal


Dentre os diversos aspectos que têm afetado negativamente o desempenho dos mercados internacionais, a existência de relevantes e abrangentes riscos geopolíticos é dos mais importantes. Os efeitos destes riscos são claramente perceptíveis na evolução dos preços do petróleo, nas cotações das commodities e dos principais mercados acionários, especialmente o norte-americano.

A expressão civis Romanus sum (“sou cidadão romano”) foi utilizada por aqueles que exprimiam o orgulho de possuir a cidadania romana durante o vasto império construído por quase toda a Europa, norte da África e Oriente próximo e tinha um significante que extrapolava em muito o seu significado. Na essência, expressava a existência da Pax Romana, capaz de se sobrepor à extraordinária capacidade militar do império romano. A Pax Romana era, sobretudo, a crença de que o processo civilizatório de Roma - o seu humanismo político e cultural – era capaz de se impor perante os povos e os integrarem no contexto do Império. Implicitamente, as sociedades submetidas ao Poder Romano, percebiam no sistema romano uma rara oportunidade de transformação intestina das diversas sociedades locais com vistas à participação no modo econômico e político de Roma. Assim, criou-se um sentido de unidade em meio a um largo espectro de diversidades dos povos. Como sabemos, é a unidade fator essencial aos impérios. O fracasso dos impérios ocorre na inexistência desta unidade e na geração de fortes contradições dentro destes. Ao se perder o sentido da unidade, o império está sujeito desde a contestação contínua dos povos submetidos a ele (inclusive a militar) até a barbárie, a expressão maior da anti-civilização e do anti-humanismo (na acepção helênica do conceito).

Os acontecimentos de 11 de setembro foram, em tempos recentes, a expressão maior desta contestação bárbara frente a um Império cuja Pax não é percebida. A América, potência militar incontestável, persiste sem um projeto que permita o progresso dos povos e a adesão aos melhores valores de sua sociedade. Sequer entende a diversidade da humanidade e projeta-se através de uma falsa consciência de que é possível redesenhar o mundo a partir de Washington. Simplesmente, não há uma Pax Americana. Sequer existe uma burocracia estatal nos EUA capaz de implementar os seus projetos de forma multilateral. Caiu-se no unilateralismo, elemento perigoso para quem tem o domínio militar, mas que precisa de algo mais para ter o domínio político. A América precisaria ceder e entender que não adianta submeter. É preciso integrar e atingir pontos comuns, abdicando de interesses imediatos, para pavimentar caminhos que levem ao progresso sócio-econômico-político às nações que inexoravelmente são dependentes do império norte-americano.

O estudo “Ranking the Rich: The 2004 Commitment Development Index”, divulgado pelo Center of Global Development nos trouxe notícias pouco alentadoras sobre o relacionamento dos EUA com o mundo. Este estudo cataloga o ranking dos países ricos que mais lutam contra a pobreza do globo. É elaborado levando-se em consideração o papel de cada nação no comércio mundial, na imigração, no investimento transnacional, no papel de pacificação dos povos, na ajuda filantrópica internacional e nas políticas de proteção ao meio ambiente. Os EUA ficaram no 20º lugar dentre as 21 nações relacionadas. Neste estudo, a posição norte-americana ficou prejudicada de vez que apenas se considera o “papel de pacificador” no caso de ações multilaterais. Sabidamente este não tem sido a forma de agir do governo do Presidente George W. Bush. Também nos aspectos de imigração, são consideradas apenas as “imigrações brutas” (sem repatriações) o que beneficia países como a Suíça que têm processos imigratórios temporários que prevêem repatriação obrigatória depois de um período determinado. Também as doações privadas são desconsideradas. Mesmo “corrigindo” o ranking, os EUA melhoram a sua posição para o 17º lugar, muito atrás de países como o Canadá e da Suécia. A pergunta é óbvia: é razoável que um Império esteja tão mal colocado num ranking como este? Não será este um sinal da origem da raiva, do ódio e da não-aceitação dos valores americanos?

Nos últimos dias têm-se produzido muitos e significativos exemplos de que as políticas norte-americanas necessitam ser repensadas para que o seu Império não seja cada dia mais odiado mundo afora. Cito alguns: (1) Hugo Chávez ganhou o plebiscito na Venezuela com um forte discurso anti-americano (depois do apoio de Bush ao golpe de Estado em 2002); (2) O Iraque em meio as suas enormes divisões está implementando uma guerra contra a “ocupação” americana e não uma “libertação” de Saddam Hussein; (3) a equipe norte-americana foi fortemente vaiada no desfile das Olimpíadas de Atenas. As equipes mais aplaudidas foram a da Autoridade Palestina, o Iraque, o Afeganistão e as Coréias do Sul e do Norte (que desfilaram conjuntamente). Significativo não?

Bush, enquanto prega uma luta religiosa contra o Império do Mal, parece que perde pontos comandando mal o seu império. Com efeitos políticos, sociais e econômicos indeléveis.

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petros@migalhas.com.br

* Francisco Petros é economista formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, pós-graduado em finanças (MBA) pelo Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais (1ª Turma-1987). Em 1988, ingressou na Brasilpar onde atuou por dez anos nas áreas de corporate finance e administração de recursos (esta foi a primeira empresa independente de gestão de recursos). Em seguida, foi diretor-executivo do Grupo Sul América na área de investimentos. Em 1998, fundou a NIX ASSET MANAGEMENT da qual é sócio-diretor. É membro do Conselho Consultivo do Ethical Fund, fundo de investimento administrado pelo ABN-AMRO. Foi diretor (1992), Vice-Presidente e Presidente (1999-2002) e membro do Conselho Consultivo e do Comitê de Ética (atual) da APIMEC (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais - São Paulo). É Certified Financial Planner (CFP®) pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF) e Analista de Investimento com CNPI (Certificação Nacional de Profissional de Investimento). É colunista da Revista Carta Capital, do Jornal Valor Econômico e consultor da Rede Bandeirantes de Rádio (BAND), além de contribuir esporadicamente para diversas publicações especializadas em mercado de capitais, economia e finanças. Em 2004 foi escolhido o “Profissional de Investimentos do Ano” pelo voto direto dos associados da APIMEC em função da sua contribuição para o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro.


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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.