Terça-feira, 25 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Política & Economia NA REAL n° 35

 

O Brasil já está afetado

Por mais que as autoridades estejam tentando minimizar, sublimar ou esconder, os efeitos da crise externa sobre o país há de se acentuar nos próximos meses. A temporada de aumento do desemprego está aberta, a indústria e o comércio vendem menos e o setor externo, mesmo estimulado por um Real mais desvalorizado, encontra restrições de mercado (recessão mundial) e de crédito. O que ocorrer lá fora vai afetar aqui dentro. Ponto. A magnitude do impacto é imprevisível, mas pode-se aferir a partir dos últimos números de atividade econômica que os efeitos serão maiores que o inicialmente estimado. As respostas do governo em termos de políticas micro e macro-econômicas têm sido pontuais. Não há um plano mais abrangente e articulado. Há um amontoado de medidas. Até agora, o grande apoio do governo foi para as empresas. O governo apoia tudo. De fusão de bancos até crédito para certos setores. Para o trabalhador que perde o seu emprego, pouca ajuda. É possível entender : o partido do presidente não tem compromissos com os trabalhadores. Está mais que evidente.

A sucessão na cabeça

Parte do governo, a começar no principal endereço da Praça dos Três Poderes está mais com a cabeça na sucessão presidencial do que nos efeitos da "marolinha" na economia brasileira. Nenhum passo será dado sem que entre na equação o efeito da medida sobre o ambiente político seja devidamente avaliado. Por isso, tanta cerimônia em passar o facão no Orçamento aprovado pelo Congresso (comprovadamente inflado). Somente um corte para valer nas despesas de custeio permitirão manter os investimentos públicos sem comprometer a política fiscal. Nesse ponto mora o perigo do Fundo Soberano do Brasil : como está, é um cheque para gastos ilimitados, fora do Orçamento, ou seja, fora de controle do Congresso.

A serviço de Dilma

Discretamente, com habilidade, o Planalto convenceu o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, a desembarcar o PDT, partido do qual é presidente licenciado da candidatura de Aldo Rebelo (PC do B), do bloquinho de esquerda, à presidência da Câmara. O PDT larga os parceiros e vai de Michel Temer. Foi um lance para evitar um conflito com o PMDB na Câmara, mas que mirou muito mais 2010 : esvaziar uma possível candidatura do bloquinho de esquerda (Ciro Gomes está na fila) à sucessão de Lula. Ciro terá de esperar uma vaga de vice de Dilma (a prioridade, para Lula, é do PMDB) ou um fracasso de Dilma. Ou, ainda, um - improvável, porém não impossível - racha de Aécio no PSDB.

O mineiro movimenta suas fichas

Aécio não está disposto a vender fácil o lugar de candidato tucano à sucessão de Lula para José Serra. Depois defender a realização de prévias no PSDB, Aécio anunciou que correrá o Brasil pregando sua proposta, discutindo alianças regionais dos tucanos com outros partidos. Ele quer sentir o pulso da população e o que ela quer para o pós-Lula. Os tucanos paulistas ficaram com a plumagem eriçada.

Mercado financeiro : foco no curto prazo

Conforme recomendamos na semana passada, não estamos pessimistas em relação ao desempenho do mercado financeiro no curto prazo. Estamos num período de formação de expectativas em relação à estréia de Barack Obama no próximo dia 20. Vem um pacotaço de medidas para tentar aliviar a recessão que campeia a América. Até lá, as expectativas serão favoráveis. Depois do dia 20, tudo dependerá do que efetivamente for feito. O desemprego cresce (v. nota baixo). A crise é imensa. O cenário é deplorável. Na política, a hora é de heróis e, por enquanto, eles não existem. Mantemos a posição de neutralidade em relação às perspectivas de médio (entre 6 e 12 meses) e longo prazo (acima de 12 meses). Todavia, o viés ficou mais negativo depois dos números de atividade econômica dos EUA e da Europa na semana passada.

EUA : números de desemprego vão piorar

O desemprego atingiu 7,2% da força de trabalho dos EUA. No ano passado 2,5 milhões de pessoas perderam seus postos de trabalho. A pior situação desde 1945. O mais notável de tudo isso é que ninguém acredita que este é o fundo do poço. Todas evidências indicam que o mergulho na recessão será ainda maior. Não sabemos se estamos numa "grande depressão", ou estamos nas suas cercanias. O Congresso americano parece sensível à situação, mas a rapidez da ação governamental e a envergadura das políticas terão de ser gigantescas. Este é o ponto a ser observado.

Lembra-se da China ?

Os economistas mundo afora pregavam que o principal fator para o cenário benigno que imperou até meados do ano passado era a China. O país comunista justificava quase todas as coisas boas que rondavam o mundo. Agora, há sinais visíveis de que a China começa a desacelerar mais fortemente. Na semana passada, foi anunciado o saldo da balança comercial do país : em dezembro, as exportações caíram 2,8% em relação ao mesmo mês do ano anterior e as importações decresceram 21,3% (isso mesmo !). Vamos fazer uma corrente de oração para que os economistas não comecem a achar que as coisas ruins do mundo se devem somente a China. Por aqueles lados, é provável que as coisas continuem a piorar muito mais.

Fila na Esplanada dos Ministérios

É grande a aglomeração de "companheiros" nos escaninhos brasilienses à espera de uma compensação por seu desempenho eleitoral ou pelo sacrifício que fizeram em prol do partido : Fernando Pimentel (ex-prefeito de BH), João Paulo (ex-prefeito de Recife), Marta Suplicy (derrotada em SP). Lula não tem lugar para todos e nem parece que está distribuindo prêmios de consolação e, menos ainda, deseja levar para o ministério gente que ele sabe que daqui a um ano vai sair para disputar um outro mandato. Além do mais, o presidente sabe que, se abrir o flanco, será um pandemônio na base aliada. Lula terá de exercitar sua habilidade de negar sem magoar.

A exceção I

Apesar dessa disposição, Lula talvez tenha de abrir um espaço para acomodar os interesses do PT e do PMDB na disputa pela presidência do Senado. Todos dizem que não querem nada, mas um ministério e uma ou duas diretorias de estatais acalmariam o ambiente.

A exceção II

Atende pelo nome de Antonio Palocci a outra exceção. Se o ex-ministro não for indiciado pelo STF no processo pela quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, terá um bom assento na Esplanada à sua disposição. É o primeiro passo para torná-lo o candidato governo à sucessão de Serra - Marta e Mercadante perderam a precedência. Palocci é tido como bom concorrente para derrotar o indicado de Serra e Kassab. PS - Em Brasília não se acredita que Aécio consiga vencer Serra dentro do PSDB. Aliás, torce-se para isso, na esperança que o governador mineiro, agastado, frature o tucanato. Todas as intrigas possíveis visando tal objetivo estarão no ar a partir de agora.

BNDES : transparência

Está na hora do BNDES e de seus fiscais (TCU e Congresso, por exemplo) se preocuparem em dar maior transparência sobre as atividades da instituição de fomento. É preciso saber em detalhes onde vai o dinheiro da instituição e quais os riscos que está a assumir. A bem do setor público o assunto merece atenção.

A discussão apenas começou

Está apenas no seu primeiro round o debate, iniciado na semana passada, entre o BC e o mercado financeiro sobre os juros básicos (a taxa Selic) e os spreads bancários no Brasil. Há também a questão dos juros reais (a taxa básica menos a inflação) que, segundo Henrique Meirelles são no momento os menores em muitos e muitos anos no país. Como nem o Banco do Brasil nem a CEF cobram juros muito diferentes dos bancos privados nacionais e estrangeiros, o governo poderia explicar o que acontece para o spread ser tão elevado. Note-se que o governo não fez o menor esforço para aprovar no Congresso a criação do "cadastro positivo", tido e havido entre os analistas como essencial para que a taxa de risco cobrada nos financiamentos no país seja reduzida. Tem razão Meirelles quando afirma : "vamos falar sério".

Pré-sal : acabou-se o que era doce

Com o barril do petróleo abaixo de US$ 50 (atualmente abaixo de US$ 40) no mercado internacional, não há a menor chance de os projetos de exploração de petróleo na camada do pré-sal se tornarem economicamente viáveis. Aguarda-se, com expectativa, a divulgação do plano estratégico da empresa para o período 2009-2013, que deveria ter saído em dezembro. A empresa está revendo suas fontes de recursos, desde que teve de procurar a CEF e o BB para suprir suas necessidades diante das dificuldades de captação externa. Pelo menos duas das quatro refinarias, previstas no plano anterior, poderão ser postergadas. Crise política à vista : as duas candidatas ao congelamento são as do Maranhão (José Sarney) e do Ceará (Ciro Gomes).

Mudanças no Citibank e uma pergunta

Pouco a pouco, o Citibank - que já foi um dia o maior credor da dívida externa brasileira - está tentando sair do buraco. Ao final do ano passado eram fortíssimas as especulações de que iria quebrar. O ex-secretário do Tesouro dos EUA Robert Rubin está se aposentando, depois de ganhar milhões de dólares e, segundo notícias na imprensa dos EUA, não ter sido efetivo para evitar o quase colapso do Citi. Há rumores de que o Chairman Sir Win Bischoff também vai sair. O mais importante é que o Citibank deve se desfazer de sua participação na corretora Smith Barney e, talvez, no seu banco mexicano, o Banamex. A pergunta que fica é : será que as operações brasileiras do Citi serão vendidas também ?

Emissões de Ações no mundo

Depois de uma longa temporada de volumosas emissões de capital no mercado financeiro internacional a recessão interrompeu este processo. Nos últimos anos, quase todas as emissões eram sucesso e as promessas dos gestores das empresas emitentes eram fartas com o objetivo de estimular a demanda pelos papéis. O Brasil foi parte deste processo. Há notícias de que as emissões de ações serão retomadas com maior intensidade nos próximos meses. Com o mercado de crédito instável e as empresas demandando recursos, a solução passa por captar capital próprio. Até mesmo para renegociar dívidas. Depois da fase "paraíso" do mercado de underwriting de ações (IPOs) vem agora o purgatório. Para o investidor a recomendação é : cuidado ! Muitos micos podem estar à solta !

BB vais às compras

Pelo menos o Grupo Votorantim não pode mais se queixar dos impostos que paga ! Afinal, estes impostos já foram usados para reforçar o caixa do Banco do Brasil e, agora, o Banco do Brasil comprou o banco do maior grupo industrial do Brasil. Onde estão os liberais do país ? O que será acharia Roberto Campos desta operação ? O governo do Partido dos Trabalhadores é muito generoso com os capitalistas brasileiros. Está sempre atento para ajudá-los.

Privatal I - BB-Votorantim : mais transparência, por favor !

Nesse negócio é preciso mais transparência. E já ! A nação, os brasileiros, o Congresso Nacional precisam ser informados das condições nas quais o BB está comprando o BV, o que, numa análise objetiva, e falando com todas as letras, nada mais é do que uma ajuda ao grupo Votorantim em dificuldades. Ao invés de dar R$ 4,2 bilhões (via BB) pelo Votorantim (cujo patrimônio é de R$ 6,45 bilhões), comprar 50% do banco da família Ermírio de Moraes, e compartilhar sua gestão, melhor a ajudar o banco a buscar uma solução (via banca privada). Essa compra não parece uma saída aceitável e nem republicana, porque, por enquanto, pelo que se tem, trata-se de uma história mal contada.

Esta opinião, grifada, não é dos autores desta coluna nem de nenhum oposicionista ao governo federal. É da lavra do ex-ministro José Dirceu, ainda influente nas esferas federais e no PT, em seu blog. Em tempo : "privatal" é uma empresa de "economia mista" sui generis, coisa que, como a jabuticaba, só existem no Brasil : o Estado põe o dinheiro, mas não controla, não manda e se houver prejuízos, ele, ou melhor, o contribuinte, banca.

Privatal II - a Broi está no ar

A partir da conclusão da operação, no apagar das luzes do dia 8 passado, a composição do capital social da Telemar Participações, holding que controla a Oi, será formada pelos grupos Andrade Gutierrez e La Fonte, com 19,34% cada um ; pela Fundação Atlântico, fundo de pensão da Oi, com 11,5% ; pelo BNDESPar, com 16,86% ; e pelos fundos de pensão Previ (12,96%), Petros (10%) e Funcef (10%), todos de empresas estatais. Grande parte do acerto que permitiu o negócio foi bancado com empréstimos do BNDES e do BB. A administração, porém, será dos grupos privados. Os riscos, no entanto... Estariam o MPF e o TCU atentos a todos os detalhes do negócio ? eles que são tão zelosos em alguns outros casos. A consolidação definitiva da BrOi ainda depende da aprovação do Cade. Mas o Conselho, em decisão preliminar, já mostrou que não criará grandes embaraços ao negócio, como não criou com a Ambev. Nossos conceitos de concentração econômica e ameaça à concorrência são elásticos.

Lula e a globalização

Finalmente está claro que Lula e seu governo aderiram de vez à globalização. O presidente que não gosta de ler notícias, está tão convicto em relação ao assunto que fez mudanças sem consultar o povo, mexeu em símbolos há muito construídos pela nação e tudo isso por decreto ! Trata-se da nova união gráfica da Língua Portuguesa. Finalmente, teremos uma língua escrita da mesma forma em Portugal, Timor Leste, Angola, Moçambique e por aí vai. A língua foi globalizada. Não está mais presa às bordas do Brasil. Globalizaram a língua. Tudo isto é reconfortante, não é mesmo ?

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.