Sábado, 21 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Política & Economia NA REAL n° 82

PIB : melhor que parece, pior que o esperado

A maioria dos analistas econômicos apostava num crescimento de 2% no PIB do terceiro trimestre do ano. Ele foi, no entanto, de 1,3%. Em tese, uma decepção. Todavia, há razões para comemorar. O maior crescimento foi o industrial e isto é bom na medida em que ali é que se localizam os principais problemas de desemprego. A outra notícia positiva foi o crescimento dos investimentos (+ 6,5%), o que possibilitará maior equalização entre oferta e demanda agregada no futuro. Assim, a evolução do PIB pode não estar refletindo as expectativas, sobretudo do governo. Mas o ritmo é sadio e confirma a elevada probabilidade de um crescimento entre 5% e 6% em 2010. O maior risco continua sendo o ritmo alucinante do crescimento dos gastos públicos.

Serra : ser ou não ser ?

A lógica política indicaria a esta altura dos acontecimentos, ainda mais depois do mensalão candango do DEM, que a oposição, mais especificamente o PSDB, definiria logo seu candidato à presidência. Aliás, chegou-se a cogitar que a "coisa" não passaria do início de janeiro. E até por pressões de Aécio. Pode ser que sim, pode ser que não, bem ao estilo tucano. Se depender de Serra, volta-se a situação anterior : definição somente muito próxima da data limite de desincompatibilização, no início de abril. Serra voltou a ser assombrado (se em algum momento deixou de ser) por uma hamletiana dúvida. Em conversa com o comando de um grande grupo empresarial (simpático a ele), deixou clara sua indefinição entre ficar em SP (onde teria uma reeleição garantida, como acredita), ou disputar Brasília. Serra, entenderam muito bem os que o ouviram, calcula que uma derrota encerraria de vez sua carreira política.

As razões de Serra

Não é difícil entender o que está atormentando o governador paulista :

1. A popularidade de Lula.
2. A disposição de Lula de jogar todas as suas fichas e todo o governo em Dilma.
3. Os efeitos eleitorais dos programas sociais do governo, que a oposição não sabe como neutralizar.

Ninguém se ilude com os baixos índices (para o tempo e a qualidade de sua exposição pública) de Dilma. Ela vai crescer. Quem pode atrapalhar é o PMDB e, como sempre, o PT.

Ciúmes eleitorais

O PSB, do governador de PE, Eduardo Campos, sempre um dos mais cordatos aliados de Lula, voltou a insistir na candidatura de Ciro Gomes à presidência. Campos foi o porta voz desta nova postura, quando tudo parecia acertado para Ciro concorrer em SP, apoiado pelo PT. Contudo, não é para valer, em princípio. O PSB está enciumado demais com o privilégio dado ao PMDB na aliança. Quer compensações, o próprio Campos enfrenta divergências com o PT. Além do mais, o partido ainda sonha em ganhar a posição de vice de Dilma, num impasse com o PMDB.

Força ao PMDB

Lula deu alento ao PMDB com a declaração a respeito da lista tríplice. O partido, com as reações bem programadas do fim de semana, aumentou seu cacife e o valor dos seus seis minutos no rádio e na televisão. Em compensação o presidente conseguiu botar em campo a candidatura à vice de Henrique Meirelles. O presidente do BC é um reserva que estava até fora do banco, mas que pode ser imprescindível para acalmar os empresários, caso a desconfiança mais ou menos generalizada hoje entre eles sobre as convicções, digamos, "mercadistas" de Dilma cresçam muito. O mercado não vota, mas financia e faz barulho. Vide a "Carta aos Brasileiros" que Lula teve de escrever em 2002. A contragosto dele e do PT. A história ainda registrará que esta foi aceita por Lula porque ele acreditou que não seria cumprida. As circunstâncias políticas de então forçaram a fidelidade. As nadas sutis alterações que estão sendo gradativamente postas na política econômica indicam esta interpretação.

Meirelles e o calendário das urnas

No mundo econômico privado, quem sabe das coisas da política tanto quanto sabe das peripécias das finanças, incluiu em seus cálculos, para tentar adivinhar quando o BC poderá começar a mexer – para cima – na taxa de juros, uma variável do calendário político : a data em que Henrique Meirelles deverá deixar o BC para mergulhar em uma candidatura em 2010. E como Meirelles tem até o dia 3/4/10 para sair, não será na primeira reunião do Copom que o BC mexerá na política monetária. Mesmo se houver imperiosa necessidade. Meirelles precisa conquistar votos.

O valor dos partidos

Pesquisa do Instituto Vox Populi, não divulgada oficialmente, porém revelada em seu blog pelo jornalista Fernando Rodrigues da Folha de S.Paulo, dá a dimensão exata do prestígio dos partidos políticos no Brasil : apenas 3% dos entrevistados disseram que escolhem seus candidatos por sua filiação partidária. Eles valem pelo tempo na televisão, pela máquina partidária, pela máquina pública que controlam e pela capacidade arrecadatória. Isso no período eleitoral. Depois, pelos votos que podem ter no Congresso.

Um poder mais alto

Fala-se na crescente influência de Franklin Martins junto ao presidente Lula. Zé Dirceu não perdeu o passo, embora tenha perdido a majestade do cargo. Dilma de fato é ouvida. Há outros interlocutores de Lula. Porém, ninguém, hoje (e sempre) é tal influente como o secretário da presidência, Gilberto de Carvalho. Com seu jeito de pacato e cordato ex-seminarista, é palavra muito forte. E nem sempre piedosa.

Quem faz a política

O governo concentrou toda a sua estratégia para manter a economia nacional "bombando" no ano da graça eleitoral de 2010, em quatro áreas : na Petrobras, no BNDES, na dupla BB-CEF e nos fundos de pensão das empresas estatais. O cofre de nenhum dos três depende do orçamento da União e nem está ao alcance da maioria dos órgãos fiscalizadores das contas públicas.

Mudança de política

Difícil ainda de dizer se para o bem ou para o mal, mas o novo "pacote de bondades", anunciado quarta-feira passada pelo ministro Guido Mantega, mostra claramente uma inflexão de quase 90° na política econômica que o presidente Lula vinha adotando desde meados do ano passado.

O velho hospital

Entre as medidas do novo "pacote do bem" de Mantega, quase despercebida, uma que chega a ser estarrecedora : uma linha de crédito para o BNDES financiar (não se sabe como) empresas em dificuldades. É a volta do antigo hospital empresarial do Estado brasileiro.

BNDES do B

O empresário Eugênio Staub, um dos primeiros de sua classe a aderir a candidatura Lula, tentou, durante anos, apoio do BNDES para reerguer a Gradiente. Não conseguiu, ao que se dizia porque sua proximidade com o presidente poderia tornar a operação, aos olhos de uma imprensa e de uma opinião pública pouco compreensiva, um escândalo. Argumento sem procedência depois do jorro de dinheiro do BNDES e do BB, para financiar a compra da Brasil Telecom pela Oi dos empresários amigos Sérgio Andrade e Carlos Jereissati. Agora, a Gradiente de Staub anuncia, ainda sem grandes detalhamentos, um plano de recuperação sem a participação do BNDES, ou seja, sem a ajuda do Estado. Porém, não deve ser bem assim. Não está o bancão, em seu lugar estarão os fundos de pensão das estatais. Entidades que não são propriamente governamentais, mas que só fazem o que seu dono (leia-se o governo) mandar .

Cidade dos deuses

De um especialista na capital da República, no seu universo político e administrativo : "Brasília não pode ser classificada como a cidade de corrupção, pois isto há por todo lado. Brasília é mesmo a cidade da traição : todo mundo trai todo mundo, o dia todo."

Está muito feio

O STF apegou-se aos pormenores processuais para não decidir sobre a suspensão da censura prévia ao jornal O Estado de S. Paulo em favor do clã Sarney. Esqueceu-se da sua obrigação de velar pelo direito constitucional irrevogável numa democracia que é o direito dos cidadãos de serem informados. Em menos de um mês o STF cometeu duas excrescências : este caso do Estadão e a decisão sobre o terrorista italiano Cesare Battisti. Já não se fazem STFs como antigamente.

Silêncio dos inocentes

Foi discreta demais, para a revolução interna que está provocando, a troca do diretor jurídico do BB, Joaquim Cerqueira César, ocorrida há duas semanas. Quem quiser entender um pouco mais, pode pesquisar em algumas perdas de prazo na advocacia do BB em ações que interessavam os funcionários e em alguns negócios bancários de interesse superior que estão paralisados ou simplesmente não saíram.

Radar NA REAL

Dubai pagou um importante vencimento de dívida nesta segunda-feira. Os US$ 10 bilhões foram refinanciados. Este é um sinal que permite duas interpretações : o mundo já tinha incorporado o problema nas suas avaliações e o fato de que ainda há muitos "cadáveres" que podem surgir por aí. De toda a forma, acreditamos que o final de ano deve ser tranquilo e positivo. 2010 deve ser mais próspero no mundo e, particularmente, no Brasil. Os preços dos ativos já incluem esta possibilidade. Todavia, com as taxas de juros negativas em relação à inflação na maioria dos países, há pouca probabilidade de uma queda brusca e contínua nos preços dos ativos. Pelo lado do Brasil, a taxa de juros básica não deve subir tão rápido depois do anúncio do PIB do terceiro trimestre do ano, mas a bolsa de valores não deve variar muito : nem para cima e nem para baixo.

11/12/09

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- Pré-fixados

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- S&P 500

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baixa/estável

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- NASDAQ

2.190,86

baixa/estável

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(1) – Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais)
(2) – Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.