Segunda-feira, 25 de março de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 3

quarta-feira, 11 de maio de 2005




A PEDRA NO MEIO DA LAGOA

Os horizontes eleitorais de 2006 estão sendo escancarados com muita volúpia. Os discursos começam a entrar na esfera da polarização. Fernando Henrique ataca de todos os lados, na esteira da mobilização tucana. César Maia ocupa os espaços centrais dos tempos do PFL na mídia partidária. Garotinho avança corpos à frente de outros pré-candidatos do PMDB, até porque tem se colocado em posição de ataque ao governo federal. E Lula já não esconde que entrou no palanque, ao atacar, nos últimos dias, o governo anterior. Mas o que há de novo neste cenário cheio de grandes interrogações? A pedra jogada no meio da lagoa. A classe média está indignada contra Lula. A gota d’água foi a referência ao “traseiro” do brasileiro que se acomoda no bar tomando chope, em vez de reclamar os juros altos no banco. Como pobre quase não vai a banco, Lula atingiu em cheio a classe média. Foi a classe média que deu um voto pesado a Lula na campanha passada. O petista, que sempre foi acolhido pelas massas periféricas, conseguiu chegar ao coração de grandes contingentes do centro da sociedade. Pois bem: esses contingentes estão se desgarrando. Exibem, na ponta da língua, a indignação. O arrependimento é grande. Nas últimas semanas, com a seqüência de besteiras governamentais – inclusive a tal Cartilha para corrigir a linguagem popular – as críticas subiram de tom. Atenção: quando a classe média grita no meio da lagoa, o eco acaba chegando nas margens. Já não se considera Lula um candidato imbatível.

À PROCURA DE UM DISCURSO

Lula ganhou a campanha com o mote “a esperança venceu o medo”. A esperança embutia o acervo de mudanças. O que mudou? Se algo mudou, foi um detalhe aqui, um pormenor ali, uma coisita acolá. A matéria econômica continua sendo elaborada com a argamassa da ortodoxia, escudada em juros altos e controle enérgico da inflação. A matéria social carece de substância. Fome zero ganhou um zero de reconhecimento social. O Programa Primeiro Emprego ficou apenas na promessa. Não tem recursos. O Bolsa Família parece herança da situação anterior. O campo da gestão governamental está esburacado. A articulação política do governo Lula é uma lástima. Qual será, então, o discurso de Lula? Se for o discurso da estabilidade, não fará impacto. Se for uma “revolução social”, vai ter que dizer a razão pela qual ela ainda não foi feita. Vai ser uma pedreira o candidato Lula encontrar o fio da meada para resgatar um bom discurso. Mas e os tucanos? Também terão problemas. Se o núcleo do discurso abrigar a questão da estabilidade, a situação continuará zero a zero, porque o PT também baterá nesta tecla. Se a questão resvalar para a escalada dos juros, os governistas também encontrarão dados para justificar a escalada tributária no governo anterior. O que poderá dizer o PFL? Pelo que se observa, vai bater na gestão, mostrando a qualidade do governo César Maia. O PMDB, por sua vez, terá um discurso mais nacionalista. Dificuldade: o que é ser nacionalista, dentro de um mundo globalizado? Resumo da ópera: a procura de um discurso será crucial para os partidos e presidenciáveis de 2006.

ALDO ESTÁ QUASE SAINDO

O ministro Aldo Rabelo não tem mais condições de permanecer no Governo. A não ser que deseje ser cozinhado até os ossos. Não tem prestígio na máquina governamental. Não é apreciado pelos petistas. Não tem mais a confiança dos partidos aliados, porque, constata-se, “falta tinta em sua caneta”. Trata-se de um homem preparado, educado, cortês nos gestos e palavras. Tive a oportunidade de conhecer seu pensamento mais a fundo, recentemente, e fiquei impressionado com o conhecimento que exibe a respeito dos problemas brasileiros. Confesso, mesmo, que tinha certo preconceito em relação ao ministro por sua filiação ao PC do B, partido que herdou uma visão mais fechada do comunismo. Aldo Rabelo está acima da média do Ministério quanto ao calibre técnico e ético. Ocorre que a política brasileira nem sempre caminha no terreno da racionalidade e dos princípios morais e éticos. Aldo sairá para dar abrigo a um quadro petista, podendo ser o deputado João Paulo Cunha, de Osasco, ex-presidente da Câmara, com imagem positiva junto aos pares, ou mesmo o ministro José Dirceu. Este, porém, apesar do poder, criou inimizades. Atrita com muita gente. Fica melhor no perfil de coordenador geral da campanha de Lula.

ROSEANA SARNEY NO MINISTÉRIO

Se há um perfil na República que tem verdadeira “adoração” pela liturgia do poder é o Senador José Sarney, ex-presidente da República. Nos últimos tempos, saiu do pedestal onde procurou abrigo – para se preservar das coisas da pequena política – e passou a freqüentar os balcões do fisiologismo. Era, até pouco tempo, interlocutor privilegiado de Lula. Agia como conselheiro. Lula prometeu um Ministério para Roseana, como forma de compensar o esforço de Sarney, que, junto com o ex-adversário Renan Calheiros, tem ajudado o presidente a conquistar uma fatia do PMDB. Na esteira da crise aberta com a barganha de Severino Cavalcanti, o presidente decidiu suspender a reforma ministerial, contentando-se em mexer em apenas duas pedras do tabuleiro. Roseana, quase ministra e também quase saindo do PFL, teve que se contentar com a espera. Vai ser contemplada. Sob pena de Sarney começar a destilar um veneno muito bem guardado. Mas a força de Roseana já não será a mesma. Conseguirá, mesmo assim, juntar forças para ser candidatar ao governo do Maranhão e derrotar o hoje ultra-inimigo, governador José Reinaldo. Portanto, o Ministério para Roseana não está descartado. Lula quer isso, mas tem dificuldade para demitir amigos. E Roseana deverá ir para a vaga de um amigo.

PERFIL PARA SÃO PAULO

Experiente, asséptico, honesto, passado limpo, vida decente. Um empresário com certa vivência política. Ou um político com certa experiência na vida empresarial. Ou ainda um político de posições firmes, destemidas. Um líder do campo associativo também é aceito. Capaz de dizer coisa com coisa. Capaz de comandar uma mobilização contra os juros altos e a escalada tributária. Capaz de falar a linguagem das classes médias, sem abandonar os apelos para as massas. Maduro, não muito jovem, nem muito velho. Esses são traços do perfil para governar São Paulo que pesquisas qualitativas começam a apurar. Traços negados: identificado com a velha política, matreiro, sem escrúpulos, nome envolvido em escândalos. Que conheça tão bem a capital como o Interior do Estado.

PRÉVIAS NO PMDB

O PMDB abrirá, no segundo semestre, o sistema de prévias. Uma pesquisa aferirá junto às bases a conveniência de uma candidatura própria à presidência da República. Os governadores do PMDB têm influência forte nas bases. Por isso mesmo, a tendência das bases é pela aceitação das decisões tomadas pelos governadores. Hoje, dos seis governadores, a maioria é pela candidatura própria. Tudo vai depender da situação de Lula. Se estiver bem nas pesquisas, os partidos aliados fecharão com o PT. Caso contrário, a alternativa é a candidatura própria.

CONGRESSISTAS EM BAIXA

A imagem dos congressistas está no fundo do poço. Pesquisas feitas nos últimos dias dão conta da gravidade. A maré baixa apareceu com a onda severina. Se as coisas continuarem como estão, 2006 será o ano recorde de votos nulos.

UMA COISA É UMA COISA...

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, como disse, há tempos, José Genoino. Aloizio Mercadante confia que fará decolar sua campanha, em 2006, a partir dos 10 milhões de votos conseguidos na eleição de senador. Ninguém atravessa um rio no mesmo lugar, diz o ditado. Não é que o filósofo Genoino cunhou a frase que acaba com a confiança de Mercadante?

MARÉ DE DENÚNCIAS

Se Marta Suplicy conseguir se safar da maré de denúncias, feitas por tucanos e pelo Ministério Público, vai sobrar acusação na mídia eleitoral de 2006. Claro, se ela for candidata. A conferir.
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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.