Domingo, 15 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 6

quarta-feira, 1º de junho de 2005



ESSA COISA DE PESQUISA

Resultado de pesquisa não se discute. Essa é a premissa aceita por muitos políticos e consultores. Até porque pesquisa é uma fotografia de um instante. Até ai tudo bem. O que é discutível é pesquisa encomendada para efeitos de reforço de imagem de uma instituição. No Brasil, esse tipo de pesquisa prolifera em momentos pré-eleitorais. Dito isto, vamos à ultima pesquisa Sensus/CNT. Na verdade, a CNT passou a ser mais conhecida porque divulga periodicamente pesquisas de cunho eleitoral. A última atestou queda da imagem do governo e do próprio presidente Lula. Queda insignificante, beirando os 3%, no quesito avaliação positiva. E mostra que Lula vence todos os possíveis candidatos, no primeiro turno, levando a campanha para o segundo turno, se o candidato fosse José Serra, prefeito de São Paulo. Trata-se de uma moldura plena de enganos e sofismas. Ninguém ganha por antecedência. As circunstâncias de hoje não serão as de amanhã. Os candidatos não estão posicionados. A rigor, só há um candidato até o momento: Lula. E Lula não pode perder para Lula. Trabalhar com hipótese é um exercício de ficção. Que, no Brasil, virou negócio. Pesquisa em campanha eleitoral, quando as coisas estão bem postas, aí sim, vale. O eleitor só poderá julgar quando vê os perfis nos ambientes de disputa. Então, para que vale a pesquisa hoje? Para dar visibilidade aos patrocinadores. E para mostrar o desempenho do governo. E, claro, para dar dinheiro aos Institutos de Pesquisa.

NA ÁREA DOS TUCANOS

Por que José Serra teve tanta exposição no Programa Nacional do PSDB, esta semana? Seria lógico que os espaços fossem mais espaçosos para Geraldo Alckmin, Aécio Neves e o próprio Fernando Henrique. O ex-presidente nem apareceu. Leitura óbvia: Serra não é carta fora do baralho. Poderá deixar a Prefeitura e concorrer à presidência da República, caso seja o melhor posicionado em junho de 2006. Aécio não apareceu em São Paulo. Foi combinado? Pelo visto, não. Foi mesmo deixado de fora. Mas apareceu no Rio de Janeiro, por exemplo, e no resto do país. Leitura: mineiros e paulistas já começam a brigar por espaço na chapa. FHC se preserva. Seria um tertius. Que entraria no campo em última hipótese, ou seja, se Lula estiver muito fraco. Alckmin começa a engrossar a fala, com um discurso mais duro contra o governo federal. Quer desfazer a imagem de picolé de chuchu, que, aliás, aceita de bom grado. Chuchu, convenhamos, é uma cucurbitácea muito sem graça.

O TAMANHO E A FORÇA DE UMA CPI

Aí vem mais uma CPI. Só que poderá não dar em nada, pois a maioria governista de seus membros ameaça sufocar a minoria oposicionista. De qualquer maneira, servirá para jogar lenha na fogueira pré-eleitoral que começa a ser acesa. Agora, se alguém desejar saber qual será seu tamanho e seu peso, basta seguir esta regrinha especialmente preparada para os nossos leitores. Uma CPI tem funções explícitas, a partir da função de apurar fatos ilegais determinados. Execra ou enaltece perfis. Às vezes, chega a esfolar, como no caso Ibsen Pinheiro, quase assassinado. Foi depois absolvido. Ex-presidente da Câmara, hoje é um modesto vereador em Porto Alegre. Pois bem. Há funções não tão explícitas. Funciona como mecanismo para pressão e contrapressão. Parlamentares ganham imensa visibilidade, a partir dos presidentes e relatores das CPIs. O peso de uma CPI depende da grandeza e importância dos perfis envolvidos e das conseqüências sobre a vida social e política. Um impeachment, por exemplo, é a conseqüência máxima que se pode esperar de uma CPI. No caso dos Correios, essa possibilidade é zero. Há, ainda, fatores de atração e chamamento, ou seja, a liturgia de uma CPI. Divida-se tudo isso pelo tempo em que ela se desenvolve – no máximo 120 dias – e mais o momento político (muito tenso, tenso, calmo, harmônico etc) para se chegar ao resultado. Com essa explicação, pode-se chegar a uma relativa posição sobre a CPI dos Correios.

PEQUENA GRAMÁTICA DE UMA CPI


Funções explícitas – FE


- investigação de fatos / desvios / corrupção

- moralização da vida pública – relação incestuosa entre poder privado e poder público

- racionalização de estruturas

- execração / enaltecimento de perfis


Funções latentes – FL

- visibilidade na mídia

- pressão – abertura de espaços na administração pública

- contrapressão – anteparo contra pressões / ajustamento de imagem de parlamentares

- proteção/passaporte para o céu ou para o inferno


Valor/Peso de uma CPI – V

- proeminência do tema investigado

- proximidade da vida dos cidadãos

- conseqüências sobre a vida social/política

- raridade das denúncias

- conflito de interesses

- drama / comédia (amante, namorada etc)


Fatores de atração – FT

- elementos componentes – importância do parlamentar; alto clero, médio e baixo clero

- formas de apresentação / divulgação de resultados – exclusividade, corredores do Congresso, sala da Comissão, informações vazadas

- documentos sigilosos / curiosidade – fitas, bilhetes, cartas


Equação de uma CPI:


CPI = FE + FL + V + FT

T + M

Tempo + Momento Político / Social – T + M

ALENCAR TAMBÉM DE OLHO GRANDE

O vice-presidente da República tem sido um dos mais ácidos críticos da política econômica do governo do qual faz parte. Como ministro da Defesa do Brasil, está entre a cruz e a caldeirinha. Não tem recursos para atender aos reclamos das tropas de todas as armas e nem mesmo para aumentar os salários dos militares. É odiado pelas esposas dos militares que, vez ou outra, saem em passeata em Brasília. Pois bem: Alencar está também de olho grande na Presidência. Minas Gerais é o terceiro reduto eleitoral do Brasil, depois de São Paulo e Rio de Janeiro. Ele sairia com o prestígio mineiro. Mas isso vai depender da equação na cabeça de Lula: trocar o PL pelo PMDB como parceiro de chapa. Saindo como candidato do PL, Alencar faria uma campanha bonita: empresarial, profissional e rica. Sem usar o chapéu mendigando trocos de empresas.

SUPLICY E O MARKETING DA INGENUIDADE

O senador Eduardo Suplicy pode ser tudo, menos ingênuo. O fato de ter endossado, com sua assinatura, o pedido da CPI dos Correios foi uma bela jogada de marketing. Isola-se dentro do PT como ícone da moralidade e da grandeza cívica. E não fecha as portas do partido. Porque o PT não teria coragem de tira-lo da disputa para o Senado, em 2006, logo ele que é o único petista em São Paulo em condições de vencer o pleito. Vítima do PT, poderia sair candidato por outra sigla, mesmo que garanta não ter a disposição de abandonar seu partido. Terá até outubro para deixar a coisa rolar. Até lá, driblará as pressões e raivas. Inocente, jeito de anjo Gabriel com certa aparência de São Jorge lutando contra o dragão da maldade, Suplicy não é bobo. O marketing da pureza, convenhamos, não é mais inteligente que o marketing da sem-vergonhice?

MAIS BOMBAS

Comenta-se que virão mais bombas no campo de lutas das estatais. Como o PT não soube administrar a partilha, grupos que se consideram injustiçados estão armando as espoletas de novas bombas. É aguardar para ver onde explodirão.



PRESIDÊNCIA E RELATORIA PARA GOVERNISTAS

Se os governistas ficarem com a presidência e relatoria da CPI dos Correios, irão enfrentar a Corregedoria da Opinião Pública. Que fará muito estardalhaço. Com a lupa da imprensa.


MINISTROS QUASE SAINDO

Há indícios de que há ministros em tom de despedida do governo. Esperam apenas um aceno presidencial.
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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.