Sábado, 19 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 419

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O Brasil dividido ?

O Brasil saiu das urnas rachado ao meio. O racha, ao contrário do que muitos pensam, não mostra um país separado por regiões – Nordeste contra o Sudeste – mas por votos. É só olhar a aritmética eleitoral. Dilma conseguiu uma montanha de votos no Nordeste - mais de 12 milhões de votos de maioria, ou seja, 71% dos votos. Apenas 29% foram para Aécio.

Minas, o ponto nevrálgico

No país, Aécio perdeu por três pontos. O que aponta para seu Estado, MG, onde Dilma venceu por quase cinco pontos (4,82%), cerca de 550 mil votos. Se Aécio tivesse lá metade dos pontos de vantagem que obteve em SP, venceria. No maior colégio eleitoral (SP), Aécio ganhou de 64,31% a 35,62%, uma diferença de 28,62%. Como se recorda, os tucanos prometiam uma vitória em Minas com uma vantagem de mais de três milhões de votos.

Divisão mal feita

Se o país fosse dividido em dois, por regiões, como alguns radicais chegaram a propor nas redes sociais, não seria o Nordeste contra o resto. Ao Nordeste, seriam somados os Estados de Minas e RJ, onde a presidente obteve 58% dos votos válidos contra 42% da votação dada a Aécio.

Dilma, pior em 15 Estados

Em comparação com o 2º turno da eleição presidencial de 2010, quando venceu pela primeira vez, a presidente Dilma Rousseff piorou seu desempenho em 15 Estados e no DF. Nos demais 11 Estados, ela teve votação porcentual superior à registrada há quatro anos. Os maiores avanços ocorreram em SE e no AC, onde a votação da presidenta aumentou 25%. Logo a seguir aparecem RR (24%) e RN (18%). Todos nas regiões Norte e Nordeste. No outro extremo, as maiores quedas proporcionais ocorreram em DF (-28%), SP (-22%), AM (-20%) e SC (-18%).

Melhor desempenho

Na região Nordeste, maior reduto de Dilma, ela conseguiu melhorar seu desempenho em seis dos nove Estados da região. Além de SE e RN, houve aumento expressivo de sua parcela de votação em AL (16%) e no PI (12%). Onde houve piora, a queda foi pequena : 1% ou menos na BA, no CE e no MA, e 7% em PE, onde ganhou a campanha, para surpresa de muita gente que esperava vitória de Aécio, depois de receber o apoio da família de Eduardo Campos.

Voto material x voto valorativo

O que este consultor enxerga é uma grande divisão na tipologia eleitoral. Enxergo duas grandes modalidades de voto : o voto material, que abriga as coisas concretas – as bolsas, as casas, a luz, as escolas, hospitais – e o voto valorativo, que explica a influencia dos valores – ética, moral, honestidade, dignidade, respeito, combate à corrupção em todas as áreas, etc. Pois bem, o voto material é o voto mais identificado com Dilma e o voto valorativo foi dado em maior profusão a Aécio. Não significa dizer que Dilma não recebeu votos valorativos. Ela os recebeu, mas em menor quantidade que Aécio. A recíproca é verdadeira.

Regiões dependentes do Estado

Daí a explicação que mostra as regiões mais dependentes do Estado votando maçicamente em Dilma. Em MG, por exemplo, a região Norte do Estado se assemelha ao Nordeste. Já o sul desenvolvido encheu mais as urnas de Aécio. Levantei esta hipótese do voto valorativo x voto material no sábado, meia noite, no Painel da Globo News. Instigado por William Waack que tipo de voto seria majoritário, respondi na lata : o voto material. Foi o que deu.

Diálogo, palavra chave

Ainda bem que a presidente Dilma cravou a palavra correta, em seu primeiro discurso depois de eleita, para definir sua missão nos tempos tensos que virão : diálogo. O Brasil que saiu das urnas, após assistir a mais virulenta campanha desde os idos de 1989, está rachado ao meio. A profunda divisão que se formou no seio de grupos, setores e regiões, poderia, até, ser considerada sinal de avanço político, pelo entendimento de que o escopo democrático se inspira na disputa entre contrários, se chegássemos ao final do pleito com o peito estufado de animação cívica e não com arsenais cheios de ódio e desejo de vingança.

Juntar os cacos

À presidente caberá a missão de juntar os pedaços partidos do corpo político nacional. Vai comandar um país conflagrado, fracionado em duas grandes bandas, separado por gigantesco apartheid, que lhe vai exigir extraordinário esforço para recompor a união da comunidade política, destemperada ao correr da campanha eleitoral pelo molho da discórdia. A agressividade da linguagem usada pelos candidatos deixará feridas abertas por um bom tempo, eis que os eixos centrais da política foram entortados : adversários passaram a ser inimigos ; o combate às ideias cedeu lugar ao embate pessoal ; a carga expressiva da competição eleitoral saiu da régua do respeito para descambar no tiroteio chulo. Não será fácil reconstruir a mesa da comunhão nacional, unir os sonhos da coletividade.

Apagar o 'nós e eles'

A cisão social vem sendo, há tempos, alimentada por recorrente discurso com foco na luta de classes, fenômeno que abandonou as ruas e foi apagado do discurso político desde a queda do Muro de Berlim. Por essas bandas, no entanto, a insistência de um partido e suas principais lideranças em manter vivo o alfabeto da separação – "nós e eles", "elite branca contra os miseráveis", "ricos e pobres", "Nordeste contra Sudeste" – contribuiu sobremaneira para expandir os atritos na esfera social, formando bolsões de animosidade entre grupos partidários, exércitos militantes e entidades com feição política, como centrais sindicais.

Forte classe média

O abecedário separatista não vingou por algumas razões, entre as quais pelo fato de estar defasado no tempo e no espaço – principalmente neste nosso espaço habitado por forte classe média - e ainda porque as fontes primárias da pregação foram envolvidas, de forma direta ou indireta, pela intensa fumaça de escândalos, desde os antigos, como o mensalão, e mais recentes, como o affaire da Petrobras. O discurso acabou perdendo credibilidade ao bater em ouvidos descrentes, fazendo eco apenas em grupos limitados.

Pontes de equilíbrio

Ante esse quadro, emerge uma tarefa monumental a ser desempenhada pela presidente reeleita : apaziguar a Nação repartida em raiva e mágoa. O caminho a seguir é longo, exigindo complexa engenharia na construção de pontes – perfis respeitados, críveis, sérios, preparados. Sua missão : aplainar o terreno esburacado e abrir canais de acesso nas áreas política, social e institucional. Urge levantar o pressuposto de que os programas de governo em qualquer esfera temática, para serem bem recebidos pela sociedade, hão de exigir uma comunidade pacificada, harmônica, identificada com grandes causas.

Barreiras

Na frente política, a engenharia de pontes, liderada por renomados articuladores, deverá ter uma dificuldade a mais : enfrentar os obstáculos gerados por um arco partidário mais amplo. Na Câmara, tomarão assento 28 partidos, a maior parcela constituída de siglas médias e pequenas, que certamente desejarão participar da administração. Maior fragmentação partidária vai requerer maior atenção na composição de interesses. O dilema se escancara. No momento em que se clama por instrumentos para tirar a política do poço da decadência moral – esforço que exigirá um mutirão pela reforma política – o novo governo terá de compor com mais partidos sedentos de poder. Um desafio e tanto. Junto aos grandes partidos a tarefa de harmonização também não será fácil.

Sociedade organizada

Papel importante terão também as entidades de intermediação social, pois o poder político encontrará nelas o contraponto para exigir mudanças. Em suma, aos vitoriosos caberá o exercício de tomar o pulso da comunidade política e evitar verbos palanqueiros que instiguem a animosidade e a formação de ilhas de discriminação no arquipélago social. Aos derrotados, impõe-se o dever democrático de aceitar os resultados e, da mesma forma que os vitoriosos, fechar o dicionário separatista.

Pátria amada

Nunca foi tão necessário um pacto pela harmonia social, conduzido com bom senso e emoldurado pelo ideário que ampara o conceito de Pátria, assim expresso pelo magistral escritor argentino, José Ingenieros : "os países são expressões geográficas e os Estados são formas de equilíbrio político. Uma Pátria é muito mais que isso : é o sincronismo de espíritos e corações, comunhão de esperanças, homogênea disposição para o sacrifício, aspiração à grandeza". Se o próximo governante estiver imbuído desse sentimento, veremos cenários menos turbulentos. Desse modo, o Brasil poderá virar uma página muito dolorida e substituir o espelho retrovisor pelas luzes do amanhã.

Temer, o articulador

O vice-presidente Michel Temer terá papel preponderante na engenharia da articulação política. Presidiu a Câmara Federal por três vezes, líder do PMDB por duas vezes, conhece bem as casas congressuais. Já teve uma primeira conversa com a presidente sobre a articulação política. Será um dos vértices dessa engenharia de pontes com o Congresso e a sociedade. Ademais, o PMDB se fortalece por ter feito o maior número de governadores, sete.

A bem da verdade

Pinço de minha agenda, a mensagem :" P.S. Às 13h25 do dia 23 de maio de 2014, aqui em meu escritório, o candidato a deputado, Galeno, garantiu a este incrédulo consultor que o próximo governador do RN será Robinson Faria, vencendo o candidato Henrique Alves". Pois bem, hoje, 28 de outubro, às 13h25, o deputado estadual eleito Galeno Torquato, o segundo mais votado do Estado, lembrou-me o episódio. Foi a eleição mais retumbante na esfera dos Estados, eis que Henrique Alves, presidente da Câmara dos Deputados, tinha o apoio da maior fortaleza política já construída no RN : uma coligação de 18 partidos, 130 dos 167 prefeitos, 21 dos 24 deputados estaduais, seis dos oito deputados Federais, três atuais senadores e sete ex-governadores vivos. Moral da história : o candidato precisa combinar o jogo com o povo. Relato o caso por sua relevância para a história eleitoral brasileira.

Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.