Sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 481

quarta-feira, 2 de março de 2016

Abro a coluna com historinha das Minas Gerais.

Burrice e engenharia

Era uma vez... Viajando pelo interior de Minas, o arquiteto Marcos Vasconcelos encontrou um grupo de trabalhadores abrindo uma estrada :

– Esta estrada vai até onde ?

– Muito longe, muito longe, doutor. Atravessa o vale, retorce na beirada da serra, quebra pela esquerda, retoma pela direita, desemboca em frente, e vai indo, vai indo, até chegar a Ponte Nova, passando pelos baixios e cabeceiras.

– Vocês têm engenheiro, arquiteto, teodolito, instrumentos de medição ?

– Num tem não, doutor. Nós tem um burro, que nós manda ir andando, andando. Por onde ele for, aí é o melhor caminho. Nós vai picando, picando.

– E quando não tem burro ?

– Aí não tem jeito, doutor ; nós chama um engenheiro mesmo.

O arquiteto seguiu adiante filosofando sobre as artes da burrice e da engenharia.

Sinal verde ? Perigo à vista

Marcelo Odebrecht, o comandante, teria dado sinal verde para que executivos presos do Grupo Odebrecht possam fazer delação premiada. Nunca um sinal pode ser tão perigoso como esse do filho de Emílio. Se a turma abrir o bico, cai uma boa parcela de grandes protagonistas da República. Razões : 1. A par de oficiais, deve aparecer dinheiro por baixo do pano ; 2. Foram feitas doações a diversos partidos, não apenas ao PT ; 3. A alta grana paga a João Santana, aqui e alhures, sairá da zona do mistério ; 4. As revelações deixarão Dilma, Lula e adjacências no centro do mais terrível furacão ; 5. Delações premiadas de alto impacto acelerarão decisões na política e na Justiça.

E ele, Marcelo ?

Imaginem, agora, se o próprio Marcelo decidir entrar no rol de delatores. Diz-se que ele não toparia delatar. Não tem índole para suportar a situação. Mas a perspectiva de continuar por tempo indefinido na cadeia, as pressões da família, a influência do pai, uma eventual condenação pesada, podem agir como indutores de uma decisão no campo da delação premiada. O caso merece atenção.

Duverger

Maurice Duverger, o renomado estudioso francês dos sistemas políticos, diagnosticando nosso país : "o Brasil só será uma grande potência no dia em que for uma grande democracia. E só será uma grande democracia no dia em que tiver partidos e um sistema partidário forte e estruturado".

Saída de Cardozo

José Eduardo Cardozo é um dos ministros mais próximos, senão o mais, da presidente Dilma. Não é de hoje a vontade de sair do Ministério da Justiça. Sempre foi considerado por Lula um ministro sem pulso para controlar a PF. Ele, por sua vez, defende uma PF republicana, acima das injunções políticas. Que seja independente para agir, fiscalizar e cumprir ordens da Justiça. Mas o cerco à Lula está se fechando. Ante a possibilidade de um evento mais impactante na direção do ex-presidente, ele pediu o boné. Mas a presidente quer que ele esteja próximo. Vai para a Advocacia-Geral da União.

As pressões

A saída de Zé Eduardo escancara a divisão no PT. O campo majoritário (Construindo um Novo Brasil), que abriga Lula e José Dirceu, Rui Falcão, nunca fez uma boa avaliação de Cardozo, que pertence à ala Mensagem ao Partido, liderada pelo ex-ministro e ex-governador do RS, Tarso Genro. Há um bom tempo, o PT vem sendo bombardeado pelo seu envolvimento no mensalão e no petrolão. A ala majoritária é a mais atingida. Outras alas querem resgatar o ideário partidário das origens.

A crise brasileira

O conjunto de crises por que passa tem uma razão : a esfera privada (oikos, em grego) invadindo a esfera pública (koinon). Ou seja, a fome particular devorando o cardápio popular. A gestão pública merece uma grande cirurgia.

O novo ministro

Pensem, agora, no pepino que espera o novo ministro, Wellington César, indicado pelo poderoso chefe da Casa Civil, Jaques Wagner. Se algo mais grave vier a ocorrer a Lula – prisão – recairá sobre ele a acusação que petistas faziam a Zé Eduardo : não está controlando a PF. Ora, nesses dias de grande tensão e atenção social, será tarefa difícil – para não dizer impossível – fazer qualquer controle sobre as investigações em curso. A operação Lava Jato ganhou vida própria. Funciona no piloto-automático, comandado pelo juiz Sérgio Moro. O ex-procurador adjunto do governo baiano, portanto, já, já, entrará na zona do tiroteio. A conferir.

E Dilma, como fica ?

E como ficará a presidente Dilma com as ações mais impactantes sob o mando de Moro e execução da PF ? Cada vez mais afastada de Lula, como se diz, ou trancada em seu silêncio ?

Cunha em torno de cunha

Hoje, quarta, o STF deverá opinar sobre o pedido do procurador-Geral, Rodrigo Janot, para que o presidente da Câmara seja afastado e perca o mandato. A perspectiva é a de que a Corte acolha em parte o pedido. Ou seja, abrirá o processo de investigação. Cunha é perito na interpretação das normas. Fará tudo para empurrar para as calendas a investigação e o julgamento de seu caso. Conta com um advogado dos melhores do país, Marcelo Nobre.

Impeachment ?

A corrente do impeachment havia refluído, como este consultor, por diversas vezes, analisou nesta coluna. Hoje, volta a crescer. A maré vazante cede lugar à maré enchente. A prisão e os depoimentos – não de todo convincentes – de João Santana e a mulher, Mônica Moura, puxam o impeachment novamente para o centro do debate político. Se novas informações aparecerem nos próximos dias, a comprovar a hipótese de propina paga a Santana, o assunto voltará com força ao Congresso.

TSE

Já a análise da questão das contas no TSE caminhará por um longo corredor. Que jogaria o caso para 2017. Ademais, este consultor acredita que, no Tribunal Superior Eleitoral, é bem provável que ocorra uma separação de contas. Razão : as tesourarias e as contas da presidente e do vice foram separadas. Cada qual teve sua contabilidade. Doações de tamanhos e origens diferentes.

Lula vai à guerra

Luiz Inácio avisa : acabou a fase "Lulinha, Paz e Amor". Parece disposto a entrar na arena de lutas com todo o arsenal que poderá dispor. Principalmente a arma da virulência verbal. Mas a pergunta é : o verbo solto e ácido do ex-presidente será capaz de defendê-lo diante das verbas que se apresentam no seu entorno ? Pode ser. Lula tem ainda muito cartucho para gastar. Caiu na imagem, caiu na intenção de voto. Mas, segundo o Ibope, apesar de intenso tiroteio a que é submetido, dispõe, ainda, de 19% de pessoas que fecham com ele para o que der e vier.

Os nós do Brasil

"O Brasil é feito por nós. Está na hora de desatá-los". Se o Parlamento Nacional precisa de um conselho, este, da verve do Barão de Itararé, seguramente se apresenta como adequado.

A vitória de Doria

João Doria ganhou bem as prévias do PSDB em São Paulo : 43,15% contra 32,89% para Andrea Matarazzo e 22,31% para Ricardo Tripoli. João fez a lição de casa. Correu as regiões, mobilizou a militância. Não adianta agora alegar que ganhou porque teve a alavanca econômica. O fato é que o apoio do governador Geraldo Alckmin ajudou muito. Não há motivo para se pedir silêncio ou abstenção de Alckmin. Afinal, o senador José Serra, o ex-presidente FHC e o ex-governador Alberto Goldman apoiaram abertamente – fazendo campanha – para Andrea. Enquanto Zé Aníbal, presidente do Instituto Teotônio Vilela, do PSDB, e o deputado Bruno Covas apoiaram Tripoli. As brigas no dia das prévias mostram o racha partidário.

O nó górdio

Se os "nós" do Brasil forem difíceis de desatar, por que não se inspirar em Alexandre ? O ousado Alexandre Magno ouviu o prognóstico do oráculo : quem conseguir desatar o nó que atava o jugo à lança de Górdio, rei da Frigia, dominará a Ásia. O guerreiro não pensou duas vezes : pegou a espada e, de uma vez só, cortou-o. Há "nós" que carecem força, rapidez e destreza.

Favorito

Este consultor acredita que João Doria tende a atrair em maior volume os votos atribuídos a Tripoli. Deverá ser o candidato tucano à prefeitura de São Paulo.

Matarazzo no PSD

Não será surpresa para este escriba se Andrea Matarazzo acabar deixando o PSDB para ingressar no PSD de Gilberto Kassab. Afinal, foi secretário do Kassab quando este dirigia a metrópole. O convite teria sido feito. Andrea pediu um tempo para pensar.

Oposições sem rumo

As pesquisas indicam. As oposições continuam patinando. Aécio Neves, por exemplo, deveria subir alguns pontos no vácuo que Lula deixa no espaço eleitoral. Lula caiu, mas nem Aécio nem Marina cresceram. O mineiro pontua pela casa dos 23% e Marina anda na casa dos 17%. Qual o discurso das oposições ? Tomar o poder pelo poder ? Mas onde está o projeto para o país ? Quem tem projeto mais claro, hoje, é o PMDB com o seu discutido documento "Uma Ponte para o Futuro".

Trump é barra

Ter Donald Trump como candidato republicano à presidência da Nação mais poderosa do planeta é um atentado ao bom senso. O cara promete, se eleito, fazer um muro separando os EUA do México. Ideia de nazista. Como se explica um fenômeno como este ? Raiva, indignação, protesto contra os políticos tradicionais. É isso que os americanos estão sinalizando. No Brasil, parcela importante da sociedade está dando as costas à política.

Hillary

Ainda bem que os americanos disporão de outra alternativa : a senadora Hillary Clinton. Que deve ser a candidata dos democratas.

Voto obrigatório

É falaciosa a tese de que a obrigatoriedade do voto fortalece a instituição política. Fosse assim, os EUA ou os países europeus, considerados territórios que cultivam com vigor as sementes da democracia, adotariam o voto compulsório. O fato de se ter, em algumas eleições americanas, participação de menos de 50% do eleitorado não significa que a democracia ali seja mais frágil que a de nações onde a votação alcança dados expressivos. Como observa Paulo Henrique Soares em seu estudo sobre a diferença entre os sistemas de voto, na Grã-Bretanha, que adota o sufrágio facultativo, a participação eleitoral pode chegar a 70% nos pleitos para a Câmara dos Comuns, enquanto na França a votação para renovação da Assembleia Nacional alcança cerca de 80% dos eleitores. Portanto, não é o voto por obrigação que melhorará os padrões políticos.

O Turismo e o Direito

O Sindetur-SP (Sindicato das Empresas de Turismo no Estado de São Paulo) promoverá hoje dois grandes eventos para convidados e seus associados no Hotel Pullman Ibirapuera. O primeiro às 18h, com o 29º Fórum dos Empresários de Turismo : os palestrantes da noite - o desembargador Tasso Duarte de Melo e o juiz Paulo Jorge Scartezzini Guimarães – discorrerão sobre as cautelas e recomendações para as agências de viagens reduzirem o risco de seu negócio.

Manual para agentes

Ainda no hotel, mas às 19h30, será lançado o livro "Manual Jurídico para Agências de Turismo", escrito por um dos maiores especialistas em Direito do Turismo País, Joandre Ferraz, em parceria com Patrícia Leal Ferraz Bove, Josebel Ferraz Tambellini e Christiane Ferraz Tambellini. O Sindetur-SP patrocina esse livro, uma importante ferramenta de trabalho para os agentes de viagens.

Fecho a coluna com outra historinha das Minas Gerais.

Matreirice

O mineiro comprou um pedaço de terra no cerrado, um cascalhão duro, seco, terrível. Passou 20 anos arando, irrigando, plantando. Um dia, estava tudo lindo, o capim alto, verde, o feijão viçoso, uma beleza, o mineiro chamou o padre para rezar uma missa em ação de graças. O padre fez o sermão :

– Vejam, meus irmãos, o que Deus e o homem podem fazer juntos.

Lá de trás o mineiro deu uma baforada no cigarro de palha :

– Senhor padre, o senhor precisava era ter visto isso aqui quando Deus estava sozinho.

Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.