Quarta-feira, 24 de julho de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 150

quarta-feira, 2 de julho de 2008

PRIMEIRAS SOMBRAS

O presidente Luiz Inácio deve começar a se preocupar. A última pesquisa Ibope lhe dá o conforto de uma boa aprovação ao governo (58%) e à sua figura pessoal (72%). Mas exibe as primeiras sombras. 65% dos brasileiros acham que a inflação vai subir, enquanto a desaprovação ao combate à inflação subiu dez pontos, de março para cá, chegando a 53%. A galera das gerais, com muito tirocínio, começa a ver alimentos disparados e menos dinheiro para suprir a cozinha. Mais aperto, menos apoio a Lula. Se a coisa piorar, ele vai ter de fazer "milagres" para eleger seus candidatos preferidos.

ELEGER POSTE ?

Há quem defenda a idéia de que Lula, do alto de sua imagem, é capaz de eleger até um poste. Bulhufas. Pode, em alguns casos, reforçar uma tendência e aumentar a convicção do eleitor que já tem preferências eleitorais. Por exemplo, em São Paulo, ele subirá ao palanque de Marta. Não tirará um voto de quem, por exemplo, já escolheu Alckmin ou Kassab como candidatos. Dependendo das circunstâncias e do clima ambiental, por ocasião do mutirão que fará com Marta pelas ruas, pode ser que o presidente contribua para acirrar a polarização entre o petismo e as oposições. Em política, não há infalibilidade. Nem onipotência. É bom anotar.

O DISCURSO

A campanha eleitoral deste ano colocará o discurso no centro das atenções. O eleitor está cansado de baboseiras. Sente-se enganado por candidatos. Assiste a um festival de denúncias e escândalos. Verá mais desfile de promessas pelo rádio e pela TV. O que fará ? Tem duas alternativas : continuar ouvindo os discursos ou desligar o aparelho. Se continuar a ouvir o discurso, deverá aguçar a atenção. Colocará na cachola o que for mais crível, jogando no lixo o que não merecer credibilidade. Limpará o verbo dos advérbios e expurgará os adjetivos. Quanto aos substantivos, selecionará aqueles que disserem mais respeito ao seu dia-a-dia, na esteira de mais conforto, mais segurança, mais felicidade. Isso será possível em propostas para uma metrópole complexa como São Paulo, a maior do país ?

O DEM E OS TUCANOS

Nos cinco colégios eleitorais mais importantes do país, o DEM se afastou, pelo menos formalmente, dos tucanos. A promessa é a de que, mais adiante, esses colégios estarão reunidos em torno de um candidato das duas legendas, José Serra.

KASSAB E SERRA

José Serra explicita apoio ao prefeito Gilberto Kassab nos atos públicos que juntam os dois na periferia de São Paulo. Não poderia ser de outro modo. Afinal, formam uma dupla que foi eleita para a municipalidade. O prefeito, com razão, usará a imagem de Serra como escudo. Geraldo Alckmin, isolado, vai ter de suar para arrumar discurso convincente. Deverá se esforçar para ser o principal aríete contra Marta do PT. Mas Kassab, com discurso mais próximo ao eleitor - a partir da demonstração dos êxitos da gestão - poderá tirar o lugar do tucano e ser o opositor de Marta, no segundo turno. A conferir.

AINDA BEM

Ainda bem que o juiz federal substituto Danilo Almasi Vieira dos Santos revogou a decisão que impedia o Grupo Estado a divulgar fatos relativos ao Conselho Regional de Medicina. Mais uma vez, lembro, o Judiciário é, por excelência, o poder que não pode ser maculado. Os juízes, porém, devem se esforçar para compreender melhor a dimensão jornalística. Ninguém quer, evidentemente, um Judiciário manietado, submetido a pressões. Mas a sociedade clama por um corpo de juízes capaz de respirar o espírito do tempo. Idem para os quadros do Ministério Público.

SUBTERRÂNEOS DA ALSTOM

A cada dia, surgem evidências de que a empresa francesa Alstom fazia negócios escusos. Agora é um engenheiro francês, Jean Pierre Courtadon, contratado pela empresa para fazer assistência técnica e comercial, que confirma a ação suspeita do empresário Claudio Mendes de negociar propina entre a multinacional e políticos.

SINAL DE ALERTA

A economia mundial recebe, agora, o sinal de alerta dos Bancos Centrais. A soma de desaceleração econômica com inflação aponta para o caos. Os BCs dão a dica : países emergentes, aumentem os juros para segurar a peteca e desvalorizem suas moedas para deter a onda inflacionária. E, em alguns países, a farra da gastança continua.

CORAGEM

Esse prefeito Gilberto Kassab é mesmo corajoso. Não é que proibiu caminhões de transitar entre 5h e 21h no centro expandindo da capital paulista ? Pela lei da física, os congestionamentos devem diminuir.

MARTA COM POUCA DENGUE

No programa de Marta Suplicy para a prefeitura de São Paulo, omitem-se 1.500 casos de dengue ocorridos na gestão da petista. Constam lá apenas 10 casos ocorridos no último ano da gestão. A cosmética chegou antes do tempo eleitoral.

PROJETO DESASTRADO

A senadora Serys Slhessarenko (PT/MT) apresentou um projeto exigindo que a publicidade de produtos dê destaque ao valor da prestação mensal a ser desembolsada pelo consumidor, o que implicaria destacar encargos financeiros, taxa de juros, número de prestações, montante total do preço a prazo e à vista. O senador Valter Pereira (PMDB/MS) deverá dar parecer contrário, argumentando que o excesso de informações exigido pela lei elevaria em muito o custo da publicidade, inviabilizando-o.

A LEI DA PROPAGANDA

Ora, a lei da propaganda é a objetividade. Objetividade requer atenção ao foco que o vendedor quer destacar : qualidade do produto, eficiência, tecnologia etc. Envolve-se a propaganda em elementos emotivos. Procura induzir o consumidor ao ato da compra. A inserção de uma torrente de informações de cunho técnico na mensagem desnatura a lei da propaganda, infringindo aspectos centrais. Deve-se, nesse sentido, fazer uma diferença entre informação jornalística e propaganda. O jornalismo, sim, abriga informações variadas, plurais. Detalhes. A propaganda, ao contrário, ampara-se em retórica persuasiva. Exigir que a propaganda na TV ou no rádio tenha todos os dados solicitados no projeto da senadora, significa desvirtuar o senso comum. O resultado de um anúncio publicitário com esse feitio poderia gerar efeito contrário ao objetivo : ou seja, afastar o consumidor do ato da compra.

SERÁ O BENEDITO ?

Quem manda a historinha é Álvaro Lopes. Às vésperas da escolha do interventor de Minas Gerais, em 1934, Benedito Valadares se encontrou no Rio de Janeiro com José Maria Alkmin :

- Se você for o escolhido, me convida para secretário ?

- Você está louco, Benedito ? Respondeu um divertido Alkmin.

Dias depois, Getúlio Vargas anunciaria a escolha de Valadares, que logo recebeu um telegrama : "Parabéns. Retiro a expressão. Ass. Zé Maria". Zé Maria Alkmin acabou nomeado secretário do Interior.

PUXÃO DE ORELHAS

Lula deu mais um puxão de orelhas nos dirigentes do PT. Ao lado de Aécio Neves, na comemoração dos 30 anos da Helibras, o presidente mais uma vez confirmou seu apoio à aliança informal entre PT e PSDB, fechados em torno do candidato Marcio Lacerda para a prefeitura de Belo Horizonte. Para Lula, a aliança é "plenamente satisfatória, viável e importante". Declaração que entra por um ouvido de Ricardo Berzoini, presidente do PT, e sai por outro.

A RAZÃO ?

E por que os dirigentes petistas não dão bola à opinião do presidente da República ? Porque se acham no direito de organizar a estratégia de 2010. Que implica em queimar Aécio Neves; fazer o maior número de prefeitos petistas de toda a história do país; afastar quaisquer outros pretendentes e deixar o campo livre para um petista como candidato, Dilma Rousseff, por exemplo. No PT, a inspiração do Gonzagão dá o mote : "dois pra mim, um pra tu, três pra mim".

DURA LEX, SED LEX

Que a chamada Lei Seca vai diminuir o número de acidentes, ah, isso vai. Agora, imaginemos a situação. Ninguém poderá mais sair de um coquetel - comemoração, homenagem, eventos etc - dirigindo. A não ser que se arrisque a ser pesadamente multado. Ninguém poderá pegar o volante de um carro, depois de sair de um almoço em restaurante, regado a bebida. A categoria dos motoristas profissionais será expandida. E se uma alta autoridade, após confraternização familiar e algumas taças de champanhe, numa casa noturna em uma noite de sábado, sair dirigindo seu carro ? Flagrado, será um deus-nos-acuda. Dura Lex, sed Lex. A lei é dura, mas é lei. Será que a lei pega ? Tenho minhas dúvidas.

TRATAMENTO DIFERENCIADO

As dúvidas levam em conta a interpretação divergente que as autoridades policiais fazem a respeito da lei 11.705. A lei é dura, mas a lei, no Brasil, é mais flexível. De frouxidão a frouxidão, a lei poderá entrar lenta e gradualmente no gigantesco espaço da burla. Dado para reflexão : de cada 10 motoristas, três pegam no volante embriagados.

ASSIM NÃO DÁ

As novas tarifas de pedágio são escorchantes. Da capital paulista para a Baixada Santista, o preço é de R$ 17. Três vezes por semana, R$ 51. Não é uma boa idéia.

CONSELHO AOS JUÍZES E PROMOTORES

Esta Coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos aos políticos, governantes e líderes nacionais. Na edição passada, o espaço foi destinado às autoridades monetárias. Hoje, volta sua atenção aos juízes de primeira instância e aos promotores:

  • Julguem de acordo com suas consciências e na esteira da interpretação rígida da lei. O Judiciário é, por excelência, um Poder Imaculado. O Brasil precisa que seus promotores e juízes estejam na vanguarda do mutirão ético.

  • Esforcem-se por entender de maneira mais lata o escopo da imprensa e da propaganda. Estudar e compreender de maneira mais acurada os eixos dessas duas disciplinas da comunicação não é algo menor.

  • Há aspectos mais importantes que merecem cuidados maiores do Ministério Público e do Judiciário : os recursos de campanha, abusos do poder econômico, candidatos de ficha suja etc.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.