Sábado, 7 de dezembro de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 166

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A FÁBULA DO FOGO

Comecemos a coluna com a fábula do fogo. O fogo, ofendido porque a água, na panela, é colocada acima dele (sendo que ele se considera um "elemento superior") começa a erguer cada vez mais alto as suas chamas, até provocar a ebulição da água que, transbordando da panela, o extingue. Senhoras e senhores, tenham cuidado com o conceito que fazem de si próprios. Quem se considera forte pode cair ao primeiro movimento do vento. Ou se evaporar diante de uma pequenina brasa que se transforma em chama e que começa a se erguer em espirais até consumir os corpos que encontram pela frente.

E, como fecho, Ode à Dignidade....

DIGNIDADE

"Ser digno significa não pedir o que se merece : nem aceitar o imerecido. Enquanto os servis sobem, por entre as malhas do favoritismo, os austeros ascendem pela escadaria das suas virtudes. Ou então, por nenhuma. A dignidade estimula toda perfeição do homem; a vaidade esporeia qualquer êxito da sombra. O digno escreveu um lema em seu brazão : o que tem por preço uma partícula de honra, é caro" (In O HOMEM MEDIOCRE, José Ingenieros).

BOTANDO O CARRO NA RUA

O governador José Serra começa a botar o carro na rua. Sábado passado, circulou faceiro entre os 1.200 convidados ao casamento da filha do senador Tasso Jereissati, em Fortaleza. Na bela mansão, na praia do Futuro, deixando de lado o comportamento arredio, Serra cumprimentava um e outro, ganhando de alguns o mais que antecipado título de "presidente". O governador paulista fez um tento ao aceitar o convite de Tasso, que, segundo se sabe, não lhe é muito simpático. E Aécio Neves, mais ligado a Tasso, cometeu o desatino de não comparecer ao evento, sob a desculpa de "outro casamento". Um a zero para Serra.

A ESTOCADA DE NEVES

Ao criticar o governo Lula por "colocar a ética abaixo do tapete", o governador Aécio Neves tentou estabelecer uma primeira divisória entre ele e o petismo. Aécio quer aparecer também como candidato de oposição. Pois até o momento, sua imagem é a de amigo de Lula, podendo até vir a ser candidato de um partido da base governista, no caso o PMDB, apoiado pelo presidente. Com sua ácida crítica, Neves quis exibir um chega-prá-lá. Percebeu que José Serra ganha terreno com o perfil de oposicionista. Ocorre que o PT mineiro já o chama de "traidor", por ter forçado a aliança "informal" com o partido em torno do vitorioso Márcio Lacerda, do PSB. Aécio Neves está à procura de um eixo.

COMO DEVE SER O LÍDER

O líder não é apenas um servidor do povo que renuncia a qualquer privilégio, mas também deve privar-se dos prazeres para consagrar suas energias ao projeto político. Carlos Matus, sociólogo e planejador chileno, ensina que o estilo de liderança pode ser assim caracterizado : credibilidade da palavra apoiada no exemplo pessoal do líder; baixa valorização, pela chefia, da rivalidade individual; baixo valor à ameaça do outro; proibição da violência e do engano; abolição do conceito de inimigo; alto valor do projeto; alto valor do consenso e da cooperação; predomínio da força dos valores humanos e das grandes maiorias; e o líder é o primeiro dentre os iguais, só prega o que pratica. Quem veste esse figurino : Barack Obama, George Bush, Nicolas Sarkozy, Angela Merkel ? Hugo Chávez, Simon Bolívar ?

DILMA, CORDATA E SORRIDENTE

Quem conhece a ministra Dilma Rousseff visualiza o perfil de uma senhora durona e autoritária. Gosta de mandar e de cobrar as missões de seus subordinados. Dizem que nas reuniões periódicas de avaliação do PAC - Plano de Aceleração do Crescimento - as equipes tremem de medo, esperando puxões de orelha da poderosa ministra-chefe da Casa Civil. Mas a política é a matriz do conceito de flexibilidade. A cada dia, Dilma assume a postura de pré-candidata de Lula a presidenteda República. Por isso, a estética rousseffiana mudou : a ministra mostra-se cordata e sorridente, depois de fazer o exercício de subidas de palanques no último pleito.

LIBERDADE E BEM-ESTAR

Maquiavel conta a história de um rico romano que deu comida aos pobres durante uma epidemia de fome e que foi por isso executado por seus concidadãos. Estes argumentaram que ele pretendia fazer seguidores para se tornar um tirano. Tal reação ilustra a tensão entre moral e política e mostra que os romanos se preocupavam mais com a liberdade do que com o bem-estar social.

PT À PROCURA DE RUMO

O PT fez um balanço e concluiu : a cada pleito, afasta-se mais da classe média dos grandes centros urbanos. De partido essencialmente urbano, o PT começa a ganhar contornos de sigla ancorada no conservadorismo dos fundões do país. Perde espaço nas grandes capitais do Sudeste e do Sul. Por quê ? Porque o PT considera-se um ente superior a tudo e a todos, pairando acima dos mortais. E, na hora do "vamos ver", os mortais distinguem uma sigla tão atolada na lama da descrença como outros partidos. E os mortais das classes médias, que não se refugiam nos abrigos das Bolsas Família, correm do PT como o diabo foge da cruz. Essa descoberta assusta o partido, mobilizando sua cúpula a procurar um novo rumo.

RECEITA SINDICALIZADA ?

A troca de dirigentes nas estruturas estaduais da Receita - principalmente nos Estados mais fortes - lembra os velhos tempos da ditadura. Nos anos de chumbo, não havia critério técnico para nomeação, mas patrocínio político. Na área das relações do trabalho, sabe-se, a República Sindicalista é quem dá as cartas. Pois bem, o país começa a ver uma República Sindicalista-Fiscalista também dando as cartas na Receita Federal. Trata-se de um grupo encastelado na fortaleza sindical do setor. Onde estamos, o que somos, para onde vamos ?

MAOMÉ FOI À MONTANHA

Maomé levou o povo a acreditar que poderia atrair uma montanha. E que, do cume, faria preces a favor dos observantes da sua lei. O povo reuniu-se; Maomé chamou pela montanha, várias vezes; e como a montanha ficasse quieta, não se deu por vencido, mas disse : "Se a montanha não quer vir ter com Maomé, Maomé irá ter com a montanha". Bacon, o filósofo inglês, arremata com a lição. Homens, que prometeram grandes prodígios e falharam sem nenhuma vergonha (eis aí a perfeição da audácia), passam por cima de tudo, dão meia-volta, e realizam o seu feito.

QUALIDADE DA TERCEIRIZAÇÃO

Moradores do bairro Lauzanne - Vila Amélia, capital paulista - reclamam que foram prejudicados pela destruição de contas feita por entregadoras da distribuidora de eletricidade (Eletropaulo). A destruição teria ocorrido em um bar da rua Afonso Tomé Moura. Os consumidores da região pagarão as contas acumuladas com multas. Atenção, tomadores de serviços : cuidado com os prestadores. A seleção de prestação de serviços pelo menor preço poderá sair caro. Examinem a qualidade das empresas de Terceirização.

SEIS CAPITAIS QUEBRADAS

Cinco dos 26 prefeitos de capitais que assumirão em 1º de janeiro encontrarão os cofres vazios. São os prefeitos de Belo Horizonte, Cuiabá, Florianópolis, Maceió e Salvador. Essas capitais não teriam recursos para saldar suas dívidas com vencimentos no período de 12 meses posteriores às informações prestadas à Secretaria do Tesouro Nacional.

77% DE APROVAÇÃO

Após as eleições, a tendência de um candidato é entrar em leve processo de declínio. Criam-se muitas expectativas na campanha e as promessas geralmente carecem de tempo para ser implantadas. No caso do prefeito Gilberto Kassab, o que pesquisas encomendadas pelo DEM têm demonstrado é um crescimento. Hoje, sua aprovação está em 77%, índice que bate um recorde em se tratando da maior metrópole do país.

PL 4302/98

O Projeto de Lei 4.302/98, que trata da Terceirização de Serviços e do Trabalho Temporário, quebra resistências a cada dia. Apesar de notas técnicas contrárias a ele, por parte de Centrais Sindicais, que desejam manter inalterada a fotografia getulista das relações de trabalho, o projeto ganha apoios na Câmara dos Deputados. O presidente Arlindo Chinaglia poderá colocá-lo em votação, após a aprovação do PL na Comissão de Constituição e Justiça. O problema é a pauta congestionada por Medidas Provisórias.

A DISPUTA NA CÂMARA

Michel Temer acena com a bandeira de resgate da imagem do Legislativo. Professor de Direito Constitucional, presidente do maior partido brasileiro, Michel quer conferir um sentido de grandeza à missão de comandar a Câmara dos Deputados. Ciro Nogueira, do PP do Piauí, discípulo de Severino Cavalcanti, acena com a mão franciscana, cujo simbolismo é : toma lá, dá cá. Nogueira costuma dar presentes aos parlamentares. Com esse lastro, quer disputar o comando da Câmara com Temer. Eis a cara do Brasil. Uma face olhando para o futuro. Outra, encarando a foto bolorenta do passado.

TARSO VAI OU FICA ?

Há um grupo que deseja a saída de Tarso Genro do Ministério da Justiça. Alguns querem vê-lo no Supremo Tribunal Federal, para onde também deseja ir o advogado-geral da União, José Antonio Dias Toffoli, que, juntamente com Tarso, está no meio do furacão gerado pelos ventos da anistia e da tortura. Tarso é um dos nomes mais fortes para disputar, em 2010, o governo do Rio Grande do Sul, como candidato do PT. O presidente Luiz Inácio não é muito afeito a mudanças. Por enquanto, deixará as coisas como estão.

GILMAR, FALANTE E CALADO

O presidente do STF, Gilmar Mendes, está muito falante. Dá entrevistas para todos os que o indagam e em todo lugar. O presidente da Corte mais alta do país deveria prezar mais o silêncio. Que condiz com a grandeza do cargo.

MARTA NÃO SE CONFORMA

Um dos piores defeitos de políticos é não aceitar ou não saber administrar a derrota. Marta Suplicy insiste em querer ganhar de Gilberto Kassab no tapetão. Levou uma surra - cerca de 1,3 milhão de votos de maioria de Kassab - e quer tirar essa estupenda vitória com recursos no TSE. É o caso de aconselhar a ex-ministra a relaxar e a procurar nova vereda para sua vida política. Com todo o respeito.

A CARONA DA MORTE

A morte não tem hora marcada para chegar. Nem para sair. E muito menos seleciona circunstância. No Rio Grande do Sul, a esposa desolada acompanha o cortejo no banco ao lado do motorista no carro da funerária, que colide com outro veículo de passeio. O caixão atinge a cabeça da mulher, que morre ao lado do defunto marido.

CONSELHOS AOS PREFEITOS ELEITOS

Esta Coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos aos políticos, governantes e líderes nacionais. Na edição passada, o espaço foi destinado ao ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi. Hoje, volta sua atenção aos prefeitos eleitos:

1. Ante a crise que começa a estreitar o fluxo financeiro dos setores produtivos e da administração pública, urge cortar gastos supérfluos ou que podem esperar e rever prioridades.

2. O momento aconselha a enxugar estruturas, fundir setores e áreas e integrar sistemas.

3. Dentre as prioridades, as margens da sociedade devem ter prevalência sobre os espaços centrais. Programas sociais serão mais importantes que ações cosméticas de embelezamento urbano.

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.