Domingo, 17 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

Porandubas Políticas

por Gaudêncio Torquato

Porandubas nº 189

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Raposice política

Churchill fazia um discurso mordaz quando um aparteador, saltando do lugar para protestar, só conseguiu emitir sons abafados. Churchill observou :

- Vossa Excelência não devia deixar crescer uma indignação maior do que a que pode suportar.

- Em outra ocasião, estava sentado, sacudindo a cabeça de maneira tão vigorosa e perturbadora que o orador gritou, afinal,exasperado :

- Quero lembrar ao nobre colega que estou apenas exprimindo minha própria opinião.

Ao que Churchill respondeu :

- E eu quero lembrar ao nobre orador que estou apenas abanando a minha própria cabeça.

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José Maria Alkmin, um dos maiores sábios mineiros, nunca perdia a tirada.

O eleitor chegou aflito :

- Doutor Alkmin, meu filho nasceu, eu estava desprevenido, não tenho dinheiro para pagar o hospital.

A matreira raposa tascou :

- Meu caro, se você que sabe há nove meses, estava desprevenido, calcule eu que soube agora.

Primeira radiografia

As primeiras radiografias eleitorais começam a ser tiradas. PMDB e PT usam, juntos, a máquina fotográfica, radiografando todos os Estados, identificando tendências atuais e futuras, apontando problemas e soluções. Diferentemente do que a mídia massiva tem mostrado, a moldura atual favorece a posição governista. Ou seja, nos 27 Estados da Federação, a aliança do PMDB com a candidata governista teria o apoio em cerca de 20. Tudo isso, porém, poderá mudar. E a mudança tem a ver com os nomes dos candidatos.

As razões governistas

O PMDB é um partido pragmático. Por isso mesmo, a tendência de fazer aliança com a candidata de Lula ganha disparado. As razões são óbvias : o partido está incrustado nas malhas da administração federal. Tem cinco Ministérios e muitos cargos nos Estados. Há dificuldades ? Sim. Por exemplo, o PMDB quer fazer parte do núcleo duro, ou seja, participar de forma ativa do cotidiano das decisões tomadas no Palácio do Planalto. Lula abriu sinal verde para isso. Mas esse sinal não abre facilmente. Tem sempre uma luzinha amarela piscando. Se o PMDB ganhasse o Ministério da Articulação Institucional, as coisas ficariam mais fáceis para fechamento de uma aliança.

Mas...

No meio de tudo, há sempre um porém. E o porém se chama Dilma Rousseff. Se ela conseguir romper todos os obstáculos – a partir da administração dos problemas pessoais – não apenas ganhará o apoio do PMDB, mas terá amplas condições – como esta Coluna já adiantou – de levar a melhor. Basta somar os aspectos positivos. Façamos este exercício.

Cenário positivo

Vejam só. 1) Lula construiu o gigantesco cobertor para abrigar as margens sociais. Trata-se do Bolsa Família, que atende, hoje, 46 milhões de brasileiros, principalmente os estratos carentes do Nordeste e Norte do país. 2) Lula chega aos contingentes médios – classe média baixa – com redução de IPI para a linha branca, significando geladeiras e fogões novinhos em folha para as cozinhas de milhões de brasileiros. 3) Lula abriu mais a confiança das classes médias – médias/médias – com a redução do IPI para automóveis, motos, etc. 4) Um milhão de casas populares começarão a ser entregues a partir dos meados de 2010. 5) As linhas de crédito se ampliam na área dos pequenos agricultores. 6) A crise torna-se um sinal enfraquecido na paisagem. 7) Setores fragilizados como o agronegócio começam a recuperar suas perdas. 8) O clima de confiança e estabilidade se espraia pela sociedade. E uma pergunta começará a circular no ar : Por que mudar se as coisas estão indo bem ?

Cenário negativo

As coisas acima descritas não chegam a bom termo. A crise se acirra. Os programas fenecem. As casas não aparecem, o PAC empaca, a linha branca ganha tintas vermelhas, o programa Bolsa Família se reduz, as enchentes no Nordeste durarão uma eternidade e ... os tucanos terão um programa de salvação para o Brasil. Nesse caso, a vitória tucana tem condições de entrar na planilha da viabilidade.

Policêntrico

"Em um mundo no qual o centro econômico está mudando de um único ponto geográfico para muitos, cada um deles com características altamente diferentes, e nos quais os recursos são pontualizados em várias economias, o comércio flui em todas as direções e a vantagem competitiva está mudando constantemente, as organizações policêntricas fazem cada vez mais sentido." (Harold L. Sirkin. James W. Hermeling e Arindam Brattacharya)

Cadê o Plano ?

Mas a pergunta não quer calar : cadê o Plano ? Quais as ideias para melhorar a situação do povo ? Qual a proposta para resgatar o poder de fogo da classe média ? O que se vê, no atual cenário, é muita briga e pouca ideia sensata.

Conversações

O PMDB tem uma boa articulação com os tucanos, mas a interlocução com o PT nunca esteve tão aberta e franca. Por parte do PT, um nome tem se destacado na tarefa de abrir caminhos e aparar arestas : Cândido Vaccarezza, o líder do PT na Câmara dos Deputados. Por parte do PMDB, além do presidente licenciado do partido, Michel Temer, que comanda a Câmara, outro nome se destaca : Henrique Alves, líder do PMDB na Câmara.

"Nossa maior força é nossa humildade e ignorância. Afinal, não somos especialistas em tudo." (R. Gopalakrishnan, diretor da Tata Sons)

Gripe suína

O presidente Lula ensina : a gripe suína não é aquele monstro de sete cabeças que ameaçava engolir o mundo. A Organização Mundial da Saúde ensina : a gripe suína tem, sim, poder de contaminação maior do que outros tipos de gripe. Vale a pena acompanhar as leituras da mídia sobre a gripe.

Sobre alarmes

Eduardo Nascimento, líder do setor turístico e presidente da Associação Brasileira de Representantes de Empresas Marítimas, chama a atenção para este dado : a gripe comum mata, por ano, nos Estados Unidos, cerca de 30 mil pessoas. E as 3 mil pessoas que morrem, por ano, no Brasil, vítimas do enxofre de diesel ? Por que tanto alarido agora ?

Maçã ou figo ?

E a história de Adão e Eva ? Um erro de tradução, feito por São Jerônimo no século V é responsável pela crença de que eles foram expulsos do Jardim do Éden por comerem uma maçã. Na verdade, foi por comerem uma "fruta". É possível que a fruta fosse uma maçã, mas é mais provável que fosse um figo. Afinal, eles usaram folhas de figueira para esconder as partes íntimas.

"Mineiro usa sapato de borracha para não dar esmola a cego, que assim não ouve os passos." (Anônimo)

Yeda Crusius

A cada semana, surgem mais denúncias sobre o Caixa 2 no Rio Grande do Sul. Entre 0 a 10, a situação da governadora Yeda Crusius está beirando o 8. Mais dois pontos, atinge a marca fatal com ameaça de afastamento. Há um mês, seu placar marcava 5. Do jeito que as coisas andam (ou desandam), Crusius não aguentará a cruz do calvário.

Tucanos e a lista

O líder dos tucanos na Câmara, deputado José Aníbal, vai reunir a bancada para avaliar a posição do PSDB sobre o voto em lista, um dos itens da reforma política. Zé Aníbal é simpático ao voto distrital. São Paulo, por exemplo, seria dividido em distritos, os quais, a partir de suas densidades eleitorais, comportariam um determinado número de candidatos.

Ciro em São Paulo ?

Só pode ser mesmo coisa sem pé nem cabeça. Nas últimas semanas, uma turma meio abilolada começou a trabalhar com a ideia de lançar Ciro Gomes candidato ao governo de São Paulo. Teria ele, claro, de deixar a terrinha cearense e fazer carreira por aqui. Tudo isso por conta da raiva que Ciro tem de José Serra. Esse paulista de Pindamonhangaba jamais faria essa besteira. E o eleitor paulista sabe que gente de pavio curto é de fácil combustão. Uma tremenda surra acabaria com a carreira do marido de Patrícia Pillar.

Onde está Skaf ?

Cadê Paulo Skaf ? Nunca mais se ouviu nada sobre a candidatura do presidente da FIESP ao governo de São Paulo. Este analista sugere ao pretendente (ou ex-pretendente) que não desista. Se tiver DNA político, vá em frente. Nem que seja para ganhar uns votinhos. A derrota de hoje poderá ser a vitória de amanhã. Na política, nem sempre a menor distância entre dois pontos é uma reta. Pode ser uma curva. Seria interessante ver Paulo Skaf navegando um barco numa tormenta pela primeira vez.

Quércia e Serra

Para subir a serra, ou melhor, para escalar a montanha que espera por José Serra, pré-candidato à presidência da República, em 2010, o presidente do PMDB paulista, Orestes Quércia, vestirá o figurino de candidato a senador. A disputa abriga duas vagas. Nomes, além de Quércia : Guilherme Afif, Aloizio Mercadante, José Aníbal, Romeu Tuma (está em dúvida ?).

Jobim quer barulho

Nelson Jobim quer barulho. O PMDB não tem nenhum diretor na Infraero. Não fez reivindicação nesse sentido. Mas Nelson Jobim, o ministro da Defesa, começa a abrir a boca. Nos bastidores, diz-se que o gaúcho está querendo um motivo para se afastar do governo. Jobim é um dos mais chegados amigos de José Serra. Arruma pretexto para ficar longe de Lula. A conferir.

Emídio, o candidato ?

Emídio de Souza, o prefeito petista de Osasco, começa a ganhar corpo. Sua candidatura ao governo de São Paulo, em 2010, ganha adeptos. Antônio Palocci, porém, tem maior alcance.

Dilma reclusa

Nos últimos dias, a ministra Dilma Rousseff tornou-se reclusa. Sua visibilidade caiu bastante na mídia. Deixa de aceitar convites importantes. Faz bem. A saúde, em primeiro lugar. O resto é o resto.

Lula destemido

Lula continua exibindo autoconfiança. Saiu do carro para conversar com um grupo de manifestantes sem teto em Brasília. Poderia ter sido vaiado. Saiu aplaudido. Este escriba tem sido um crítico contundente do discurso populista de Lula. Mas reconhece : o cara respira política todo o tempo.

Lei de imprensa

A lei de imprensa foi morta pela foice afiada do Supremo Tribunal Federal. Mas algo precisa ser feito para regulamentar o direito de resposta de quem se sentir prejudicado pela mídia. Que, agora, fica ao alcance de qualquer interpretação – alimentada por visões precárias, simplistas, emotivas, subjetivas – de juízes de primeira instância.

RS pede socorro

O Rio Grande do Sul vive situação de emergência. São 192 os municípios atingidos pela estiagem. O laborioso deputado Afonso Hamm, presidente da Comissão de Turismo e Desporto, da Câmara dos Deputados, integra um grupo que procura aliviar o caos que afeta a população, o comércio e o agronegócio. Diz ele que Erechim é um exemplo. O município já adotou o racionamento de água, com o propósito de diminuir em 30% o consumo. "Precisamos de atendimento mais rápido das reivindicações", conclama Hamm.

Enchentes no Nordeste

A natureza dá uma no cravo, outra na ferradura. Parte do Nordeste está nadando nas enchentes. Piauí e Maranhão vivem em estado de calamidade. O planeta parece desequilibrado. Esse fenômeno Nina – esfriamento das águas do Pacífico e esquentamento das águas do Atlântico – nas costas do nosso continente, a cada ano, ganha mais volume. E assim descaminha a humanidade... !

Matreirice mineira

O mineiro comprou um pedaço de terra no cerrado, um cascalhão duro, seco, terrível. Passou 20 anos arando, irrigando, plantando. Um dia, estava tudo lindo, o capim alto, verde, o feijão viçoso, uma beleza, o mineiro chamou o padre para rezar uma missa em ação de graças.

O padre fez o sermão :

-Vejam, meus irmãos, o que Deus e o Homem podem fazer juntos.

Lá de trás o mineiro deu uma baforada no cigarro de palha :

-Senhor padre, o senhor precisava era ter visto isso aqui quando Deus estava sozinho.

Conselho ao ministro Carlos Lupi

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na edição passada, o espaço foi destinado aos congressistas. Hoje, volta sua atenção ao ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi :

1. A discussão sobre terceirização extravasou os limites do bom senso. Urge chegar a bom termo.

2. Bom termo implica a adoção de uma legislação sólida e capaz de atender aos interesses nacionais.

3. O melhor projeto sobre terceirização que tramita na Câmara Federal é o 4.302/98. Por que o debate não começa com ele ? Onde está a CNI ? Onde estão as Centrais Sindicais ? Por que tanta acomodação ?

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Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato (gt@gtmarketing.com.br) é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.