Constituição na Escola

Por que pagamos tributos? A resposta está na Constituição e no seu cotidiano

Tributos viabilizam direitos garantidos pela Constituição, sustentam políticas públicas e fortalecem a cidadania por meio da justiça social e da solidariedade.

8/8/2025

Por que pagamos tributos? Essa pergunta, que muitas vezes surge com certo incômodo, é mais comum do que se imagina. Afinal, o que justifica que parte do que ganhamos seja repassado ao Estado? Para onde vai esse dinheiro? E principalmente: ele realmente retorna para a sociedade? 

Ao se ouvir a palavra “tributo”, é comum pensar em burocracia, contas a pagar ou debates técnicos travados em tribunais e repartições. No entanto, o ponto de partida para compreender o papel deles está justamente na CF/88 - a lei mais importante de nosso ordenamento jurídico e que organiza os direitos, os deveres e os compromissos da nossa sociedade. Quando olhamos com atenção, percebemos que os tributos são mais do que uma obrigação legal - são o motor que movimenta os direitos sociais.

A Constituição de 1988, conhecida como Constituição Cidadã, estabelece um compromisso claro com a justiça social. No seu art. 6º, estão listados direitos fundamentais como educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, segurança, lazer, entre outros. Mas garantir esses direitos exige mais do que vontade política: exige recursos financeiros. E esses recursos vêm, em grande parte, dos tributos que todos nós pagamos. E para que esses direitos saiam do papel e se tornem realidade, é necessário viabilizar políticas públicas que os garantam.

Pagar tributos, portanto, não é apenas cumprir uma regra - é participar da construção de um país mais justo. É por meio da arrecadação que o Estado consegue oferecer escolas públicas, hospitais, programas de assistência e tantas outras políticas essenciais. Quando pensamos assim, o imposto deixa de ser um “peso” e passa a ser uma ferramenta de cidadania.

A Constituição Cidadã também fala dos deveres. O art. 5º assegura direitos individuais, mas também deixa claro que todos têm obrigações perante a coletividade. Os arts. 145 a 149-A, por sua vez, autorizam a União, os Estados, o Distrito Federal e os municípios a instituírem diversos tributos como: impostos, taxas e contribuições. Isso é o que chamamos de competência tributária, um dos pilares da organização federativa brasileira.

Cada ente da federação tem responsabilidades específicas - e isso se reflete nos tributos que cobram. Por exemplo, os municípios são responsáveis pela educação infantil, coleta de lixo e iluminação pública. Os Estados cuidam do ensino médio, da segurança pública e do transporte intermunicipal. Já a União se ocupa de políticas nacionais, como universidades Federais, previdência e programas de transferência de renda. Assim, quando pagamos IPTU, ICMS ou Imposto de Renda, estamos contribuindo com diferentes camadas do Estado.

Mas não basta arrecadar. A CF/88 também estabelece limites e princípios para a tributação. O princípio da legalidade (segundo o qual, ninguém pode ser obrigado a pagar tributo sem lei que o institua), da isonomia (tratar os iguais como iguais e os desiguais na medida da sua desigualdade), da capacidade contributiva (quem pode mais, paga mais) e da vedação ao confisco (o tributo não constitui sanção, ou seja, uma penalidade, de ato ilícito) são garantias que protegem o cidadão e evitam abusos. Ou seja, não é uma cobrança qualquer: é uma cobrança baseada em regras pré-estabelecidas e democráticas.

Outro aspecto fundamental é a transparência. A boa gestão dos recursos públicos é uma exigência constitucional e moral. Se o dinheiro do tributo vem do povo, deve retornar ao povo com serviços de qualidade. É por isso que a fiscalização - feita por órgãos de controle e, também, por cada cidadão - é tão importante. Saber como os tributos são aplicados é um direito de todos e um passo decisivo para o fortalecimento da democracia.

Quando falamos de educação, por exemplo, o pagamento de tributos se transforma em escolas construídas, livros didáticos distribuídos e merenda servida todos os dias. Na saúde, vira hospitais equipados, vacinas aplicadas e médicos contratados. No transporte, vira ruas asfaltadas, ônibus acessíveis e passagens subsidiadas. Cada serviço público tem, por trás, um sistema de financiamento que depende do compromisso fiscal de todos.

É claro que o sistema tributário brasileiro ainda tem muitos desafios - e a reforma tributária é assunto para outro texto por aqui! - ele é complexo, muitas vezes desigual, e precisa de constantes atualizações para se tornar mais justo e eficiente, mas isso não apaga sua importância. Pelo contrário: entender como funciona é o primeiro passo para transformá-lo. Cidadania fiscal também é isso - compreender, participar, propor melhorias.

Por tudo isso, falar de tributos é, na verdade, falar de solidariedade. Quando cada um cumpre sua parte, o coletivo ganha. Quando exigimos transparência e equidade, fortalecemos a democracia. E quando levamos esse debate para escolas, comunidades e rodas de conversa, estamos, na prática, ensinando cidadania.

Pagar imposto pode até não parecer o tema mais empolgante, mas quando percebemos que, graças a ele, uma criança pode ter lápis e caderno, uma mãe pode ser atendida no hospital, ou um bairro pode ganhar iluminação pública, tudo muda. A Constituição garante os direitos, e os tributos os viabilizam. Entender essa relação é essencial para formar cidadãos conscientes - e essa é uma jornada que vale a pena.

Colunistas

Grasieli Regina Rocha Bueno Vice-presidente do Projeto Constituição nas Escolas, advogada do Escritório Lobo de Rizzo Advocacia, formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Júlia Trindade de Sá Advogada formada pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo. Especialista em Direito Administrativo pela FGV Direito SP. Diretora de Conteúdo do Projeto Constituição nas Escolas.

Pedro Henrique Araujo Silva Advogado no Escritório Dinamarco, Beraldo & Bedaque Advocacia. Formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da Universidade de São Paulo. Presidente do Projeto Constituição nas Escolas.

Veja mais no portal
cadastre-se, comente, saiba mais