Estive, outro dia, compulsando, aliás lendo mesmo, um livro chamado “Livrarias,” do espanhol Jorge Carrion, até então desconhecido por mim. Trata-se de um especialista em livros, leitura, livraria. Colabora com inúmeros jornais e revistas do mundo. Sua abordagem atinge não só aqueles temas como tudo que deles decorre, no plano pessoal e objetivo.
O principal efeito que o livro me provocou foi o de escancarar a minha memória para as livrarias antigas de São Paulo. Incluo os sebos, alguns existentes ainda hoje.
Localizada na Praça João Mendes havia a Livraria do Povo, onde eu efetivamente dei início à formação de uma pequena coleção de livros de história, biografias, romances, crônicas. O seu simpático proprietário sempre estava na loja. Atendia, orientava, indicava livros, sempre com grande amabilidade. Sentia-se que ali estava não um comerciante, mas um apaixonado por livros e grande incentivador da leitura. A Livraria do Povo deixou um vácuo impreenchível.
Poucos metros da do Povo havia a Livraria Freitas Bastos, esquina da 15 de novembro, que continha um magnífico acervo de obras nacionais e estrangeiras. Era muito frequentada.
No Largo de São Francisco estava localizada a Livraria Forense que junto com a Revista do Tribunais e com a Livraria Saraiva abasteciam o mercado de obras jurídicas.
Na Forense com a ajuda de uma vendedora minha amiga, a Maria, consegui comprar uma magnífica coleção editada pela Fundação Getúlio Vargas denominada “Dicionário Histórico - Biográfico Brasileiro – 1930-l983”. A minha amiga conseguiu-me um parcelamento no valor da obra que era significativo.
Ainda na região, na rua José Bonifácio, tínhamos a Saraiva cujo proprietário tronou-se um mecenas para os estudantes de direito durante várias décadas. Financiava a compra das obras necessárias ao estudo, possibilitando, especialmente àqueles acadêmicos carentes de recursos, que acompanhassem o curso por meio das obras indicadas pelos professores. Eu não cheguei a conhecê-lo, mas usufrui do sistema do pagamento parcelado das compras.
Ainda nos arredores da Praça João Mendes e Praça da Sé, havia, como ainda hoje há, inúmeros sebos, que nos possibilitam entrar em contacto com obras não mais expostas em livrarias.
Lembro-me que além das casas comerciais, podia-se adquirir livros jurídicos de vendedores que iam aos escritórios oferecendo-nos autores estrangeiros. Adquiriam ou encomendavam e revendiam aos advogados.
Atravessando o Viaduto do Chá estavam outras livrarias de renome. Lembro-me bem da Teixeira, salvo engano na rua Marconi ou Conselheiro Crispiano. Essa me é muito cara, pois foi lá que meu sogro Murilo Castello Branco encadernou cadernos de músicas de minha mãe, que era uma exímia violonista. A encadernação em vermelho, contêm o seu nome, Carmen Lúcia.
A livraria Francesa e a Brasiliense, ambas na Barão de Itapetininga, eram frequentadas por escritores, intelectuais, que se reuniam para tertúlias culturais memoráveis.
Outras havia, mas minha memória falha, ademais eu frequentava mais as localizadas no “centro velho”.
Lembro-me que livros podiam ser adquiridos fora das livrarias. Eram coleções entregues em casa, mediante uma assinatura mensal. O “Clube do Livro” era a mais conhecida. Editava obras de grandes autores nacionais e estrangeiros.
Atualmente existem excelentes livrarias espalhadas pela cidade, nas ruas ou nos shoppings. No entanto, aquelas localizadas no centro da cidade ficaram gravadas na minha memória e no meu sentimento. Tenho um sentimento de gratidão por todos os livreiros e atendentes das livrarias que não só nos atendiam, como orientavam e facilitavam as compras. Sinto saudades da época que as livrarias eram ponto de confraternização e sociabilidade.