Marizalhas

Itamarati, o verdadeiro

Memórias do Itamarati revelam um tempo em que o Direito também era afeto, boemia e encontro — onde debates, amizades e histórias transformavam o rigor jurídico em vida compartilhada.

1/4/2026

Em outro escrito foram mencionadas as livrarias do Centro Velho especialmente aquelas frequentadas pelos estudantes do Largo de São Francisco e por acadêmicos em geral, por advogados e demais atores do cenário judicial.

Claro que o mundo jurídico não se limitava apenas às livrarias, fóruns e escritórios. O Centro 11 de agosto, era local permanente dos franciscanos e os bares da região eram lugares cativos de todos nós. Em épocas mais remotas destacava-se o Franciscano, localizado na rua Libero Badaró. Depois mudou-se para a Consolação, mas teve vida efêmera. Frequentei apenas este quando tive escritório na Nestor Pestana. O da Líbero tornou-se um símbolo não só da boêmia acadêmica como um ponto de encontro de escritores, jornalistas, intelectuais. Mário de Andrade não deixava de lá tomar um chope sempre que vinha a São Paulo.

No Largo do Ouvidor, já na rua José Bonifácio estava o célebre, emblemático e hoje saudoso Itamarati. A pandemia que nos assolou a partir de 2020 o atingiu mortalmente. Foi fechado.

Lembre-se que a doença não se limitou a causar a morte do assustador número de setecentas mil pessoas. Vitimou uma série de atividades e especialmente de localidades que eram objeto de nosso apreço e carinho, retirando-as do mapa de nossos afetos.

Reitero a minha indignação pela atitude daqueles que trataram a crise de saúde que nos atingiu com desdém, pouco caso, transformando-a em alvo de anedotas. A doença teve a cumplicidade da incúria e da desumanidade de autoridades.

O Itamarati possibilitava a transformação do sisudo, formal, engravatado mundo jurídico, em um ambiente alegre, folgazão, boêmio, irreverente daqueles que punham à mostra a felicidade de estar junto a amigos, de compartilhar emoções e sentimentos, enfim revelavam o humanismo que habitava cada um de seus frequentadores.

Certa feita, para citar apenas um episódio, eu estava almoçando com meu pai, cujo apelido era "Macacão," quando voou uma banana em sua direção, vinda de outra mesa. Papai não se irritou, não gritou, nem sequer se levantou, simplesmente a devolveu com a mesma intensidade que recebera a fruta. Ele sabia quem o havia "homenageado" e revidou com a mesma moeda, ou melhor a mesma banana. Tenho certeza que tempos após pregou alguma peça ao seu algoz, em retribuição, mas não acompanhei o desfecho do "duelo".

Em uma determinada mesa, sempre a mesma, localizada à esquerda de quem entrava, reuniam-se diariamente consagrados advogados, dentre os quais destaco Waldir Troncoso Peres o maior orador de júri, que conheci. O destaco, pois tenho perene gratidão por ele. Ensinou-me a entender o crime, ou melhor, a alma do criminoso, suas motivações, angústias, o seu drama que, é claro, variava, mas sempre existia em todos os casos. Foi o advogado criminal que melhor esmiuçou o íntimo dos acusados, possivelmente que melhor estudou o ser humano em geral.

O Itamarati também era palco de embates e comemorações políticas. As discussões giravam em torno de preferências ideológicas, partidárias ou pessoais. Especialmente na época das eleições para a OAB o foco era a advocacia e as chapas concorrentes ao Conselho Seccional.

No dia do pleito o Itamarati passava a ser um reduto eleitoral, não colhia votos, mas, sim, durante todo o dia abrigava confraternização, discórdia, comemoração seguida de inevitáveis e infindáveis discursos.

O discurso final era do presidente eleito. Deveria ele subir em uma mesa e discursar. Pois bem, eu fui eleito em 1986. A minha proverbial falta de agilidade física trouxe-me mais dificuldades do que a própria campanha, para subir primeiro em uma cadeira e depois na mesa. A sorte é que para descer companheiros fortes dela me retiraram nos ombros.

Hoje só nos resta doces lembranças do Itamarati e a obrigação de transmitir aos jovens o que foi esse tempo de amizade e de sociabilidade.        

Colunista

Antonio Cláudio Mariz de Oliveira é advogado.

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