Meio de campo

O futebol, a máquina de moer e a aversão ao risco Brasil

A coluna aborda como a pressão, interesses e má governança derrubam técnicos e ampliam instabilidade, refletindo cultura que afasta investidores do futebol brasileiro.

19/3/2026

O jornalista Paulo Vinícius Coelho (“PVC”) tocou na ferida em seu texto publicado no UOL, no dia 16/3/2026, com o título “a máquina de moer técnicos do Campeonato Brasileiro destrói um por rodada”.1

No parágrafo final, ele afirma que “o problema não é a falta de competência dos treinadores nascidos aqui nem a falta de adaptação dos que vêm de fora. O problema é o analfabetismo sobre o futebol de dirigentes e imprensa. Aquilo a que chamamos de ‘cultura do futebol brasileiro’”.

A ferida em que toca, aparentemente circunscrita ao futebol, ou à sua cultura, vai além, é mais profunda e se revela, na verdade, uma cultura do Brasil, impregnada na sociedade, que a torna quase irreparável - e autofágica (ou autodestruidora).

O país, há muitos anos, vive uma crise institucional, ou de governança, em todos os níveis, públicos ou privados, que obstaculiza o progresso, seja econômico ou social, como se pretende na Bandeira.

Governar se tornou um movimento de guerrilha.

Não se governa quase nada sem guerrilhar. De condomínios de apartamentos à presidência da República, passando pelos clubes de futebol, a dinâmica é pautada pela tensão, pela disputa, pela resistência, pelo ataque e pela ruptura - e pelas destituições, impedimentos e renúncias. E, em tempos atuais, mediante a proliferação (des)informacional; de qualquer informação, verídica ou não.

Rareia o propósito comum, que não seja voltado ao interesse individual (que se torna, então, comunitário ou associativo, pela imposição).  

No Campeonato Brasileiro, técnicos caem, em média, até agora, um a cada rodada, conforme pesquisa do jornalista, por decisões de poder, exaradas por donos de SAFs (que têm muito a perder com decisões erradas) ou presidentes de clubes (que se convertem em “donos” de patrimônio associativo e exercem o poder, com muita frequência, de modo totalitário, sem ou com ineficientes instrumentos de contenção, e que nada perdem, economicamente, com os seus erros). Por falta de cultura, em alguns casos, mas por outros motivos, em muitos deles.

As quedas dos técnicos, com efeito, não têm a ver apenas com resultados, mas com a pressão externa oriunda, geralmente, de grupos de interesse, ou de pressão, identificáveis ou não.

Uma torcida, em perspectiva genérica, é um coletivo, sem personalidade jurídica, sem liderança, sem propósito de dominação, porém, altamente influenciável (e inflamável). A imprensa também o é, eventualmente.

Já a torcida uniformizada, além de personificada juridicamente, organiza-se internamente em órgãos que expressam posições, formadas em função de propósitos definidos pelas suas lideranças (ou controladores).

Veículos de imprensa, por outro lado, quando assumem “bandeiras”, derrubam presidentes (inclusive de clubes), estabilizam substitutos e promovem outras coisas mais.

Esse caldo todo expõe o dirigente, culto ou inculto sob a perspectiva do texto do PVC, que passa a orientar-se menos pelo plano estratégico, e mais pela emergência (e, eventualmente, pelo medo). Mesmo que, para o mudo exterior, afirme e reafirme sua independência. Por se tratar de cargo eletivo, convive com vicissitudes e, no limite, perde o próprio cargo, que será reposto por outro dirigente, que manterá a roda a girar.

Esse mecanismo não funciona no ambiente empresarial (e dos investimentos esportivos). O planejamento, mesmo que realizado a partir de variáveis aleatórias, segue padrões compreensíveis e justificáveis. No modelo não entra irracionalidade, violência ou campanha difamatória.

Assim, a relação da torcida, no Brasil, com o time, de modo geral, contribui, paradoxalmente, para a instabilidade sistêmica. Em campo e fora dele.

Não se nega que poucas aglomerações humanas são mais extasiantes do que a torcida em uma partida de futebol; mas, quando a energia se converte em agressividade, violência, frustração, apropriação ou jogo de interesses, ela subverte a lógica do processo.

A subversão, no futebol, afasta o interesse de fornecedores de capital, sob qualquer forma, por não conseguirem prever, com alguma segurança, as reações dentro do sistema (as negativas, também).

Ou, pior: faz com que tais fornecedores assumam que, em qualquer situação, haverá um descontrole, promovido quando resultados estiverem (inevitavelmente) aquém do planejado, e fujam desses ambientes.

Essa realidade brasileira, definida pelo jornalista PVC como déficit cultural (ou analfabetismo), ajuda a explicar a falta de interesse de relevantes investidores internacionais no esporte nacional.

Outros fatores, é verdade, servem de repelente, como a ausência de liga unificada e a insegurança jurídica vivenciada por controladores ou garantidores de SAFs (expropriados sem fundamentação legal em nome justamente da torcida); a eles, porém, somam-se a exposição provocada por torcidas e as intromissões, muitas vezes violentas, incentivadas (ou não reprimidas) pela sociedade.

Quem se importa, afinal, com as consequências desse elemento cultural? Antes, quem está disposto a promover o necessário debate, provocado pelo jornalista?

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1 Disponível aqui. Acesso em 17/3/2026.

Colunista

Rodrigo R. Monteiro de Castro advogado, professor de Direito Comercial do IBMEC/SP, mestre e doutor em Direito Comercial pela PUC/SP, coautor dos Projetos de Lei que instituem a Sociedade Anônima do Futebol e a Sociedade Anônima Simplificada, e Autor dos Livros "Controle Gerencial", "Regime Jurídico das Reorganizações", "Futebol, Mercado e Estado” e “Futebol e Governança". Foi presidente do IDSA, do MDA e professor de Direito Comercial do Mackenzie. É sócio de Monteiro de Castro, Setoguti Advogados.

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