Meio de campo

A reconstrução do São Paulo – Parte II

Rodrigo R. Monteiro de Castro resgata a série a respeito da crise e da reconstrução do SPFC.

21/10/2026

O primeiro artigo da série foi publicado neste espaço no dia 23 de setembro.

Nele, após breve recapitulação a respeito do conteúdo de textos publicados sobre o São Paulo Futebol Clube (“SPFC”) desde 2017, a respeito da trajetória da crise do clube, afirmou-se que “se o campo de debate permanecer em âmbito político-associativo, pautado por reformas estatutárias, em micro ou macro escala; redução de dívida pelo clube, sem capital externo e uma entidade autônoma; moralização gerencial; redução de folha salarial; e temas conexos, o time estará perdido. Mesmo a história e as glórias do passado serão sombreadas pelos dramas do presente e a hecatombe do futuro”.

Concluiu-se, então, que o “o sistema é bruto e, com o tempo, irá se recompor, em prol de interesses micro-coletivos ou individuais”.

Recebi algumas mensagens de são-paulinos que integram a situação ou a oposição, e de outros que simplesmente torcem (e sofrem), contendo considerações, críticas, elogios e outras coisas mais. Em momento oportuno trarei algumas das provocações para debate.

Por ora, chama-se atenção para o momento atual do SPFC, ou melhor, do clube social, que reverbera no time profissional, e a insistência no erro que, acima, se apontou: o debate político-associativo e, pior, o conteúdo – e o mérito - que se está a produzir.

Circulam e (fervem) nas mídias sociais peças a respeito de uma chapa de oposição, encabeçada pelo Conselheiro Vitalício Marcelinho Portugal Gouveia, e, de outro lado, vídeos relacionados ao movimento de situação, todos com o propósito explícito de obter êxito em processo eleitoral que se avizinha.

A oposição, diante da maior crise da história do clube, aponta o dedo e pleiteia uma mudança, ao menos formal, de comando. Figuras carimbadas que até pouco tempo mandaram no clube – e participaram da intensificação da crise – compõem o grupo, pois, numa eleição, composições sempre se justificam. Mesmo assim, a chapa se legitima por posturas e posições adotadas nos últimos anos, de efetivo combate ao situacionismo, pela maioria de seus principais articuladores.

De outro lado, posiciona-se a chapa de situação que, por definição, controla os instrumentos de exercício do poder, mesmo que, ao longo dos anos, comandantes tenham sido trocados – afastados ou expulsos. Pessoas saíram e outras entraram, mas estiveram – e estão - conectadas pela proximidade com o próprio poder. E para preservar o poder. Mesmo que se tenha revelado um poder de destruição.

Chama atenção, nesse confronto, material disponibilizado pela chapa incumbente, que demonstra, para todos os fins, como o associativismo é o motivo da decadência do futebol profissional no São Paulo.

Em determinado vídeo, uma pequena multidão de associados e associadas desce uma rampa do clube e, ao fundo, toca a canção Seven Nation Army, da banda White Stripes, que sugere - foi a minha percepção – a união pela vitória. E o mote é o seguinte: a força de quem acredita no futuro do São Paulo. Repita-se: a força de quem acredita no futuro do São Paulo; escrita e projetada por quem está no poder deste São Paulo que deixou de ser aquele glorioso time do passado.  

As falas de membros da chapa, que ainda não conseguiu designar um cabeça, indicam o incontornável conflito entre os interesses associativos e os futebolísticos, estes manifestados pela fidelidade das gentes que frequentam o campo e seguram o time, há anos, na Série A – apesar dos esforços feitos pelos dirigentes para derrubá-lo.

Para se ter uma ideia, determinado associado (e ocupante de outros cargos) afirma, em um dos vídeos, que o São Paulo é o futebol, sim, mas também é o clube. Mais: também é “as nossas crianças” e o “nosso futuro”, que está aqui, no clube (sic).

De outra liderança grupal: é o momento do sócio de ter orgulho do clube, nossas crianças e nossas famílias que viveram aqui no clube têm muito orgulho, têm que acreditar em quem trabalhou e deu coração e amor ao SPFC.

Apesar de a chapa ainda não estar composta, o que indica a ausência de uma liderança natural e a dificuldade para construção de uma candidatura viável para lutar pela manutenção do poder, não se encontra, por onde se procura, qualquer proposição de resgate do vanguardismo que caracterizou o clube no passado. Sobram ideias abstratas, compostas por chavões já expressados pelo presidente anterior, pelo antecessor, pelo antecessor do antecessor e assim vai.

Aliás, no programa da oposição também se formulam ideias e frases de efeito, que, quando apertadas, não deverão destoar, na prática, das rivalizadas.  

Não há, em ambos os programas, menção à SAF. E o motivo é simples: acredita-se que o grupo que revelar o interesse pela SAF perderá a eleição.

Sim, poderá perder a eleição porque o associado, que não se confunde com o torcedor, preocupa-se (eventualmente por razões legitimas) com a família, a segurança de seus filhos no clube, seus amigos clubísticos, seus privilégios e, eventualmente, seus poderes. Enfim, com temas associativos, e não com a empresa do futebol.

Ou seja, para que um candidato se viabilize, ele não poderá ser favorável à principal solução de salvamento do SPFC ou, se a favorecer, deverá contrariar sua opinião, para se viabilizar. E assim os debates deverão repetir os temas de sempre, que gravitarão ao redor de modernidade, profissionalização, eficiência, governança, compliance, moralidade, ética e honestidade. Atributos ou características que não deveriam ser diferenciais, mas essência. Do clube e da SAF.

A brutalidade do sistema se apresenta sem disfarce, para evitar mudanças, ou para induzir as aparentes mudanças que farão com que tudo permaneça como sempre esteve. Até que o pior aconteça. Exceto se o torcedor reivindicar a verdadeira mudança, de modelo e de estrutura.

Colunista

Rodrigo R. Monteiro de Castro advogado, professor de Direito Comercial do IBMEC/SP, mestre e doutor em Direito Comercial pela PUC/SP, coautor dos Projetos de Lei que instituem a Sociedade Anônima do Futebol e a Sociedade Anônima Simplificada, e Autor dos Livros "Controle Gerencial", "Regime Jurídico das Reorganizações", "Futebol, Mercado e Estado” e “Futebol e Governança". Foi presidente do IDSA, do MDA e professor de Direito Comercial do Mackenzie. É sócio de Monteiro de Castro, Setoguti Advogados.

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