A reconstrução do São Paulo - Parte I
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
Atualizado em 22 de setembro de 2026 14:17
Não, não há qualquer fato novo que mude a situação atual do São Paulo; ao contrário. A situação é complicadíssima - para se dizer o mínimo. Mas há caminho para solucionamento do trágico estado de coisas.
Antes da apresentação do caminho, faz-se uma breve recapitulação de avisos sobre o que aconteceria com o São Paulo – e, infelizmente, aconteceu.
Publiquei neste espaço, em 20 de fevereiro de 2019, um texto com o seguinte título: “O fim da história do São Paulo Futebol Clube”1. Afirmava-se, ali, que não, o time não deixaria de existir, mas ingressara em nova fase, de apequenamento, que não seria, portanto, soberana. Tratava-se do fim do poderio que o caracterizou entre as décadas de 1980 e 2000.
Dizia-se, ademais, que o clube havia sido, com efeito, o maior durante a prevalência (ou monopólio) do clubismo, mas que este modelo fora substituído na Europa – e futuramente o seria no Brasil – por outro, caracterizado pela organização empresarial, para a qual o São Paulo não estava preparado; pior, a rejeitava.
Também se dizia que, enquanto o São Paulo autoadmirava a sua suposta soberania, outros times se preparavam para a revolução futebolística-empresarial e o superariam, com folga.
E ainda se acrescentava que a politicalha, tão presente em outros clubes durante o auge do São Paulo, e que a sua institucionalidade soubera conter, passou a dominar o ambiente são-paulino com diversos partidos políticos, reformas estatutárias promovidas no interesse de incumbentes – e consolidadas com apoios grupais -, escândalos envolvendo mal uso do cargo, renúncias e outros eventos maléficos que se avolumaram com o tempo.
Importante, muito importante: naquele texto se apontava que, em 2017, promoveu-se uma reforma estatutária do clube, que foi anunciada pelos dirigentes como a retomada do caminho da vanguarda, mas que foi implodida pelos seus próprios dirigentes e conselheiros, que (i) usaram o novel conselho de administração - que devia ser composto de membros realmente independentes e reconhecidos por suas carreiras empresariais e financeiras, e cumprir função de passagem para o ambiente de mercado - como palco de conchavos e articulações políticas e (ii) não apresentaram e submeteram à votação estudo de criação de uma entidade autônoma, uma SAF antes da Lei da SAF, realizado por uma das quatro maiores auditorias do planeta. A proposição, lamentavelmente, foi engavetada, por anos, pelo órgão que deveria tê-la encaminhado para o conselho deliberativo, com a conivência da diretoria.
Concluía-se, por fim, que a crise política, a situação financeira precária e a preponderância de interesses pessoais talvez indicassem “o fim de um grande time, que apenas terá um grande passado”.
Outro artigo foi escrito, também neste espaço, em 26 de maio de 2021, com o seguinte título: “Salve o tricolor paulista”2. Ou seja, logo após o título de campeão paulista.
Apesar da celebração, perguntava-se: e agora? E a resposta vinha com o seguinte conteúdo: “(...) pouco mudará, financeira ou estruturalmente, por conta do título estadual – além do nível de felicidade ou de aliviamento da torcida e dos próprios jogadores, que afastaram o peso de insatisfações acumuladas após quase dez anos de jejum de taças. Mais do que isso: a estrutura associativa ainda é um impeditivo para que o SPFC se financie adequadamente; e o sistema político uma prisão que há muito cobra seu preço – e reduz a sua importância”.
O São Paulo já sinalizava, em comparação a outros times, conforme números ali apresentados, que caminhava para o apequenamento estrutural, administrativo, gerencial, econômico, financeiro e, os anos mostraram, esportivo, moral e ético.
E assim se concluía: “para que o São Paulo volte a ser grande, deve almejar mais, muito mais do que a própria limitação da estrada física: haverá de saltar num avião e alçar voos ambiciosos”.
Os artigos, a respeito da situação do São Paulo, se avolumaram. Mais um, contendo a mesma temática, foi publicado neste mesmo espaço em 15 de dezembro de 2021, e assim denominado: “O fim do fim da história do São Paulo”3.
Nele se indicava que já era evidente a aceleração do processo de decadência e que somente a arrogância (ou a negligência diante de movimentos disruptivos) impediam que se percebesse que o São Paulo seguia o caminho de grandes marcas ou empresas, que não souberam se adaptar às mudanças estruturais, como Pan Am, Kodak e Blockbuster.
Mais: afirmava-se que o pior estava por vir, na esteira de um processo político-absolutista, comandado pelo então presidente, que anos depois movimentou a estrutura para reformar o estatuto em favor de sua permanência, e deixou como legado a maior crise da história, desnudada após a sua renúncia.
Enfim, para finalizar as referências aos quinze artigos sobre o São Paulo publicados neste espaço, menciona-se apenas mais um, de 27 de abril de 2022, chamado “Salve o Tricolor Paulista – Parte II”4.
Nele se questionou a defesa que a diretoria fazia do associativismo como forma de direcionamento do São Paulo ao futuro, associado à construção da imagem de um presidente messiânico, que soube usar, talvez como nenhum outro, as fragilidades do sistema estatutário e impor uma dominação que terminou apenas por motivos extra políticos – algo que subsiste apenas em estruturas que podem ser apropriadas pelo populismo antieconômico.
E assim se concluía: “agora, antes que as ‘profecias’ se realizem, e times sem tradição histórica se tornem realmente relevantes e superiores àqueles que o foram (...) não resta outro caminho ao da segregação da politicalha clubística da atividade futebolística”. E, na sequência: “aí está, aliás, a origem da decadência, na trajetória são-paulina, e que se espalha, há anos, em metástase. Só não reconhece quem não quer. Ou quem tem interesse em não reconhecer”.
Eis que, quase cinco anos após aquele último vaticínio, o time do São Paulo luta, mais uma vez, contra o fantasma do rebaixamento, algo que já se tornou rotina – e ainda não se materializou pela força e fé de sua torcida – e imponência de seu estádio.
E se submeterá, no final do ano, para o bem ou para o mal, a mais um processo político, consubstanciado em uma eleição para membros do conselho deliberativo, cujos próprios membros elegerão – e não os associados e muito menos os torcedores – o futuro presidente, que receberá o pior, repita-se, o pior balanço da história, que reflete a também pior crise futebolística da história.
Por isso tudo, a próxima eleição não deveria ser sobre situação e oposição, que, ao final, se formam por interesses casuísticos, em função de poder e dominação – e não de projetos transformacionais.
Daí, aliás, a dificuldade que se tem encontrado na diferenciação dos programas de governo, inclusive, desde 2017, no tocante ao projeto de criação de uma entidade autônoma e apta ao recebimento de investidor e investimentos (projeto que está lá, pronto como ideia, em gavetas ou memórias de computadores encostados nos corredores do Morumbi). Sobraram, até hoje, discursos amorfos que se propuseram a despistar o enfretamento da realidade e da inevitabilidade.
O cerne da próxima eleição também não deveria ser sobre a reforma do estatuto, pois sobre essa farsa já se deveria ter aprendido com a tragédia de 2017. Reforma-se para deixar as coisas como estão. O estatuto deveria ser problema dos associados – muitos e muitos deles, é o que se diz pelo clube, torcedores de outros times -, e não do time e muito menos da torcida.
Se o campo de debate permanecer em âmbito político-associativo, pautado por reformas estatutárias, em micro ou macro escala; redução de dívida pelo clube, sem capital externo e uma entidade autônoma; moralização gerencial; redução de folha salarial; e temas conexos, o time estará perdido. Mesmo a história e as glórias do passado serão sombreadas pelos dramas do presente e a hecatombe do futuro.
O sistema é bruto e, com o tempo, irá se recompor, em prol de interesses micro-coletivos ou individuais.
Não há mais tempo, credibilidade e dinheiro para a troca de poder, pelo poder. Passou da hora, mas ainda há tempo, para um – e necessário - movimento transformacional.
Sobre ele se falará na sequência desta série.
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