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Eventos que conectam: A nova fronteira do branding jurídico

Como experiências sensoriais em eventos jurídicos se tornam narrativas vivas de marca e geram vantagem competitiva duradoura.

19/2/2026
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No atual cenário da comunicação institucional e do branding jurídico, a disputa por atenção se tornou mais acirrada do que nunca. O excesso de mensagens digitais, a banalização de conteúdos e a perda progressiva de atenção do público tornaram a diferenciação uma tarefa complexa, especialmente para setores historicamente associados à formalidade, como o jurídico.

É nesse contexto que os eventos presenciais ressurgem não apenas como tática de relacionamento, mas como verdadeiro ativo estratégico. Eles não só reforçam vínculos humanos, como permitem que as marcas, inclusive as jurídicas, sejam experienciadas de maneira sensorial e afetiva.

A experiência presencial, quando bem desenhada, oferece aquilo que nenhuma campanha digital consegue: presença, memória e emoção.

É nesse ponto de convergência entre estética e estratégia que ganha relevância o conceito de cenografia aplicada à comunicação institucional, prática que tem se consolidado no Brasil como ferramenta para transformar ambientes em experiências de marca e posicionamento.

O setor de eventos: Entre números e narrativas

Em 2024, o setor de eventos movimentou R$ 131,8 bilhões no Brasil, representando 4,6% do PIB. Apenas no primeiro semestre de 2025, esse setor cresceu 19%, de acordo com dados da Ubrafe - União Brasileira de Feiras e Eventos de Negócios. Trata-se de um mercado em franca expansão, que ganha contornos estratégicos à medida que empresas percebem que presença física é mais do que ocupação de espaço, é construção de legado.

No ambiente jurídico, historicamente conservador quanto à adoção de novas práticas comunicacionais, o investimento em eventos ainda é visto com reservas. A presença institucional, quando ocorre, costuma restringir-se a painéis, estandes simples e discursos técnicos. 

No entanto, escritórios e departamentos jurídicos que entendem o potencial dos eventos como canal de comunicação integrada começam a redefinir suas práticas.

O uso da cenografia como ferramenta de negócios revela um modelo interessante para reflexão: a possibilidade de alinhar ROI - Retorno Sobre Investimento, sensibilidade estética e estratégia de marca em um único projeto. Essa abordagem, tradicionalmente associada ao marketing corporativo, começa a ganhar espaço também no setor jurídico à medida que a reputação institucional se consolida como um ativo competitivo central.

Branding jurídico: Entre a tradição e a inovação

No universo jurídico, a construção de marca, ou branding, não pode ser reduzida à criação de logotipos sofisticados, paletas de cores institucionais ou peças gráficas padronizadas, trata-se, acima de tudo, de coerência narrativa. 

Escritórios de advocacia e departamentos jurídicos que se destacam são aqueles que constroem uma identidade sólida em que cada ponto de contato, do atendimento ao cliente à postura em eventos, comunica os mesmos princípios, valores e diferenciais. A marca jurídica, portanto, não está no material visual, mas na convergência entre o que se diz e o que se faz.

Nesse contexto, a estética institucional ganha um papel estratégico, em vez de ser vista como elemento decorativo, torna-se uma linguagem complementar da cultura organizacional. A cenografia, quando aplicada a eventos jurídicos, atua como extensão visual e sensorial da promessa da marca. O espaço físico deixa de ser apenas um suporte funcional e passa a ser um canal ativo de comunicação.

A experiência vivida por clientes, parceiros ou potenciais contratantes em um estande, congresso, seminário ou evento corporativo precisa refletir o mesmo nível de seriedade, atenção aos detalhes e excelência técnica que caracterizam a atuação jurídica da organização. Quando o ambiente transmite clareza, segurança, sofisticação e acolhimento, ele antecipa, de forma não verbal, os valores e o estilo de trabalho da equipe jurídica representada.

Transformar um espaço físico em vetor de posicionamento institucional exige mais do que design elegante, exige sintonia entre a missão da organização, seus valores centrais e a execução estética. Essa coerência sensorial reforça a identidade institucional, gera lembrança duradoura e contribui para a construção da confiança, ativo intangível e essencial no setor jurídico.

Em tempos de competição acirrada e oferta crescente de serviços jurídicos, criar experiências memoráveis em eventos não é luxo, é estratégia. É por meio dessas experiências que a marca jurídica pode transcender o discurso técnico e se estabelecer, no imaginário do público, como referência de competência, humanidade e propósito.

Como o ambiente comunica no jurídico

Imagine um escritório especializado em Direito Ambiental que decide participar de um dos maiores congressos jurídicos do país. 

Ao invés de montar um espaço padronizado, com fundo branco, mesa de atendimento e pilhas de folders, a equipe decide investir em uma proposta cenográfica alinhada com sua identidade institucional: o estande é construído com materiais recicláveis e de origem sustentável, o chão é revestido com fibras naturais, a vegetação compõe o cenário com plantas nativas, a iluminação é feita com lâmpadas de baixo consumo energético, e um som ambiente emite discretamente sons da natureza como pássaros, água corrente e vento.

No lugar de panfletos impressos, os visitantes encontram QR codes gravados em pequenas placas de madeira certificada levando a conteúdos digitais sobre projetos do escritório, cases emblemáticos e artigos jurídicos. Todo o ambiente transmite, sem uma única frase de marketing, o compromisso da organização com sustentabilidade, inovação e responsabilidade socioambiental.

Essa escolha comunica, de forma silenciosa mas eloquente, uma série de valores fundamentais: consistência ética, atenção aos detalhes, respeito ao meio ambiente, atualização tecnológica e sensibilidade estética.

Mais do que isso, revela maturidade estratégica. 

Trata-se de um posicionamento deliberado que transforma a estética em linguagem institucional, criando conexão emocional com o público.

Num ambiente saturado por discursos semelhantes, esse tipo de presença se destaca. Em poucas horas de evento, o escritório atrai não apenas visitantes curiosos, mas potenciais parceiros que se reconhecem nos mesmos valores, a interação torna-se mais fluida, as conversas mais profundas e os vínculos mais duradouros. Em comparação com campanhas digitais baseadas em automação e cliques impessoais, a experiência presencial oferece profundidade relacional e memória afetiva.

Mais do que chamar atenção, o espaço cria um atalho emocional para a decisão de confiança, afinal, se o cuidado com o ambiente é tão meticuloso, o que se pode esperar da atenção dedicada aos processos jurídicos, aos clientes e às causas? O estande, nesse contexto, funciona como uma metáfora tangível da atuação profissional: ética, detalhista e coerente.

Ao final do evento, quem passou por aquele espaço não apenas “viu” o escritório, mas viveu a sua proposta. Essa vivência é o que diferencia marcas que são lembradas daquelas que simplesmente estavam lá.

Estética não é vaidade, é estratégia

A crítica recorrente de que “forma não é conteúdo” esvazia-se diante da realidade contemporânea, onde forma e conteúdo são, cada vez mais, elementos indissociáveis. 

Em um cenário de comunicação saturada, marcado por disputas de atenção e excesso de informação, a maneira como uma mensagem é apresentada passa a ter peso quase equivalente ao seu conteúdo. A forma, longe de ser mero invólucro estético, participa ativamente da construção de sentido.

Pierre Bourdieu já apontava que os símbolos desempenham um papel estruturante nas relações sociais. A forma simbólica, seja ela visual, espacial ou ritualística, comunica hierarquias, valores, intencionalidades e pertencimento. No universo organizacional, isso se traduz na forma como empresas e instituições se apresentam ao mundo. Cada escolha estética carrega uma proposta relacional: minimalismo pode sugerir objetividade, exuberância pode transmitir autoridade, organicidade pode evocar empatia e inovação.

Nesse sentido, eventos jurídicos bem planejados, com cenografia estratégica e curadoria sensorial, tornam-se mais do que vitrines institucionais, tornam-se dispositivos simbólicos de poder, cultura e visão. A forma como um escritório organiza sua presença num evento revela não apenas sua capacidade logística, mas sua clareza de propósito, sua leitura de contexto e sua sensibilidade em comunicar por múltiplas linguagens.

Esses elementos não são periféricos, são estruturantes na forma como o público percebe e confia numa organização jurídica. Em um campo baseado fundamentalmente na autoridade, na ética e na reputação, a experiência oferecida nos momentos de exposição pública precisa ser coerente com a promessa da marca.

Quando um escritório de advocacia investe em criar ambientes que expressam seus valores institucionais, está ampliando sua comunicação para além do verbal, está dizendo que compreende as novas exigências do mercado, que respeita a inteligência emocional de seus interlocutores e que possui uma visão de mundo que vai além da técnica.

Em um evento, a arquitetura do espaço, a escolha dos materiais, a iluminação, a disposição dos elementos e até o aroma do ambiente formam uma narrativa paralela ao discurso técnico. Ignorar essa dimensão é desperdiçar uma das formas mais potentes de gerar identificação, transmitir valores e consolidar autoridade perante o mercado e a sociedade.

ROI na comunicação sensorial

Muitos gestores jurídicos ainda resistem a esse tipo de investimento por não verem retorno imediato.

No entanto, a mensuração do ROI em eventos vai além da contabilidade tradicional. Ela envolve:

  • Qualidade dos contatos gerados;
  • Percepção de marca reforçada;
  • Retenção da mensagem após o evento;
  • Aumento de oportunidades comerciais pós-evento;
  • Aproximação de stakeholders estratégicos;
  • Fortalecimento da cultura organizacional junto aos próprios colaboradores.

A integração entre criatividade e métricas demonstra que é possível, e necessário, aplicar critérios de avaliação também na comunicação sensorial. A estética, quando estrategicamente utilizada, torna-se uma forma sofisticada e eficaz de marketing jurídico, gerando impactos mais duradouros e significativos do que ações digitais dispersas e de curta duração.

Entre Adam Smith e Daniel Pink: Capital simbólico em ação

Ao refletir sobre as transformações nas formas de geração de valor no século XXI, é pertinente resgatar duas abordagens aparentemente distantes no tempo e no campo teórico, mas que se revelam complementarmente relevantes.

Adam Smith, em sua obra fundacional A Riqueza das Nações, já sinalizava que o valor de um bem ou serviço não é determinado exclusivamente pela sua composição material ou pelo custo de produção, mas sim pela sua utilidade percebida, ou seja, pela capacidade de atender a uma necessidade reconhecida pelo consumidor. Trata-se de uma concepção de valor intrinsecamente ligada à percepção subjetiva.

Mais recentemente, Daniel Pink, em Motivação 3.0, amplia essa compreensão ao introduzir a ideia de que o comportamento humano, inclusive nas decisões econômicas, é fortemente impulsionado por motivações intrínsecas, como autonomia, propósito e senso de pertencimento. Em outras palavras, a lógica do valor se desloca ainda mais para o campo simbólico e emocional, onde a experiência e a identificação subjetiva passam a ter peso igual ou superior ao benefício funcional direto.

Nesse cruzamento entre utilidade percebida e emoção mobilizada, eventos com forte carga narrativa e sensorial ganham protagonismo. Eles não apenas oferecem um serviço (informação, visibilidade, networking), mas criam valor simbólico: constroem reputação, reforçam vínculos e transmitem significado. São experiências que, ao mesmo tempo, geram percepção de utilidade e ressoam emocionalmente, o que os torna ferramentas estratégicas em setores baseados em confiança e capital reputacional, como o jurídico.

Para o mercado jurídico, entender essa lógica implica abandonar a visão reducionista da comunicação como algo meramente informativo e técnico. A linguagem institucional precisa evoluir para um modelo mais holístico, que integre razão e emoção, conteúdo e forma, substância e experiência. Posicionar-se com inteligência emocional e sensorial não é apenas uma questão de estilo, é um diferencial competitivo em um mercado saturado de discursos homogêneos.

Por que o jurídico deve investir em cenografia estratégica?

Eventos não são custos, são ferramentas de posicionamento. Cenografia não é vaidade, é linguagem. E marcas jurídicas não precisam apenas ser competentes, precisam também ser percebidas como tal.

Em um mercado em que a confiança é disputada com sofisticação, construir ambientes que contam histórias é um passo natural para quem deseja permanecer relevante. Não basta estar presente, é preciso ser lembrado.

E para ser lembrado, é necessário tocar. Não apenas convencer pela razão, mas também cativar pela emoção. Porque, ao fim, escritórios e empresas jurídicas são feitos de pessoas, e pessoas são feitas de histórias.

Autor

Eduardo Koetz Eduardo Koetz é advogado, sócio-fundador da Koetz Advocacia e CEO do software jurídico ADVBOX . Especialista em tecnologia e gestão, ele também se destaca como palestrante em eventos jurídicos.

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