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2026 exige líderes em ação, não estratégias na sala de espera

Planejamento não muda escritórios nem carreiras. O que transforma é a ação. Permanecer na sala de espera custa caro: tempo, relevância e futuro. 2026 começa com liderança em movimento.

16/1/2026
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Ao longo da minha trajetória profissional, trabalhando com estratégia, cultura e desenvolvimento organizacional em escritórios de advocacia, aprendi uma lição que se repete com frequência quase desconcertante: o problema raramente está na falta de estratégia. O problema está, quase sempre, na ausência de ação.

Já presenciei de inúmeros processos de planejamento estratégico em escritórios jurídicos. Mapas claros, diagnósticos bem feitos, metas definidas, discursos alinhados. No papel, tudo parecia promissor. Mas, passados alguns meses, o que se via era um retorno silencioso ao ponto de partida. Não por falta de inteligência, mas por falta de movimento.

Recentemente, ouvi alguém dizer algo que ficou ecoando em mim: muita gente não está vivendo, está apenas esperando. Essa ideia da “sala de espera” é uma metáfora poderosa para o que observo diariamente no mundo jurídico. Escritórios esperando o mercado melhorar. Líderes esperando o time amadurecer. Advogados esperando reconhecimento, promoção, segurança, o momento ideal.

A sala de espera é confortável porque não exige exposição. Nela, ninguém erra, ninguém se compromete, ninguém se responsabiliza de verdade. Mas também não se cresce ali. E o custo de permanecer nesse espaço é alto: o tempo passa, o mercado muda e a estagnação se instala.

No contexto dos escritórios de advocacia, isso se traduz em decisões adiadas, conversas difíceis evitadas, mudanças culturais sempre postergadas para “o próximo ano”. Em termos individuais, vejo carreiras promissoras sendo desperdiçadas porque profissionais altamente qualificados permanecem esperando condições ideais que nunca chegam.

A literatura organizacional é clara ao demonstrar que estratégia só gera valor quando se transforma em prática. Estudos sobre cultura organizacional mostram que são os comportamentos cotidianos, e não os discursos, que moldam os resultados das organizações (Schein, 2017). Planejar é essencial, mas executar é o que diferencia escritórios que sobrevivem daqueles que evoluem.

E aqui entra um ponto central: o primeiro a sair da sala de espera precisa ser o líder. Em escritórios de advocacia, a liderança é o espelho da cultura. Quando sócios e gestores permanecem no campo da intenção, da análise excessiva e da postergação, essa lógica se espalha. A cultura da espera se institucionaliza.

Por outro lado, quando o líder age, mesmo sem todas as respostas, ele autoriza o movimento. Lideranças que executam comunicam, na prática, que errar faz parte, que aprender acontece no caminho e que a ação é mais valorizada do que a paralisia travestida de prudência.

Do ponto de vista das carreiras jurídicas, o raciocínio é o mesmo. Não basta planejar cursos, títulos ou transições. É preciso coragem para colocar em prática, para se posicionar, para assumir projetos, para se expor intelectualmente e profissionalmente. A execução é um ato de responsabilidade consigo mesmo.

Pensar em 2026 exige, portanto, uma mudança de postura. Estratégia continua sendo fundamental, eu acredito profundamente nela. Mas estratégia sem execução vira apenas um exercício sofisticado de autoengano. O futuro não começa quando tudo estiver perfeito. Ele começa quando alguém decide agir com o que tem agora.

Talvez o maior desafio do mundo jurídico contemporâneo não seja a falta de conhecimento técnico ou de planejamento, mas a dificuldade de sair da sala de espera. E essa saída não acontece por decreto, mas por decisão.

Como já alertava Aristóteles, “somos o que repetidamente fazemos. A excelência, portanto, não é um ato, mas um hábito.

Agir, executar e liderar pelo exemplo não são eventos isolados, mas escolhas diárias que constroem culturas mais vivas, escritórios mais sustentáveis e carreiras mais coerentes.

2026 não será diferente por si só. Ele será diferente para quem decidir levantar da cadeira e transformar estratégia em ação.

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Schein, E. H. (2017). Organizational Culture and Leadership. 5th ed. Hoboken: Wiley.

Davenport, T. H., & Prusak, L. (1998). Working Knowledge: How Organizations Manage What They Know. Boston: Harvard Business School Press.

Bonavia, T., Prado-Gascó, V., & Tomás, I. (2009). Organizational culture and its relation to job satisfaction. Journal of Organizational Change Management, 22(6), 589–608.

Fontenele, Í. (2024). Liderança e Cultura Organizacional na Advocacia. São Paulo: [Juruá].

Autor

Ísis P Fontenele Consultora, autora e professora. Foi presidente da Comissão de Gestão da OAB/GO (2016-2021) é reconhecida por ter criado o primeiro curso de pós-graduação em gestão para advogados no Brasil.

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