Vivemos um momento curioso — e, por vezes, preocupante — na relação da sociedade com a inteligência artificial. Ao observar o comportamento de profissionais, empresas e usuários em geral, torna-se cada vez mais evidente um cenário polarizado, quase binário: ou se rejeita completamente a IA, ou se a utiliza de maneira desenfreada, acrítica e, muitas vezes, equivocada. É o famoso "8 ou 80".
De um lado, estão aqueles que afirmam, com certa convicção, que não usam inteligência artificial. Rejeitam ferramentas, discursos e até debates sobre o tema, como se a IA fosse algo distante, opcional ou restrito a laboratórios de tecnologia avançada.
O paradoxo é evidente: essas mesmas pessoas desbloqueiam o celular com reconhecimento facial, recebem sugestões personalizadas em redes sociais, utilizam corretores automáticos de texto, mapas inteligentes, assistentes virtuais e filtros de segurança — tudo isso movido por IA.
A recusa, portanto, não é real. É simbólica. Trata-se menos de não usar e mais de não perceber que já se usa.
No extremo oposto, encontramos aqueles que abraçam a inteligência artificial com entusiasmo quase irrestrito. Utilizam ferramentas de IA para tudo, delegam decisões críticas a sistemas automatizados, reproduzem conteúdos sem validação e, em alguns casos, acreditam estar plenamente respaldados por regulamentações que mal conhecem.
Há quem confunda disponibilidade tecnológica com autorização legal; inovação com ausência de responsabilidade.
Esse uso desenfreado carrega riscos sérios: violação de dados, problemas éticos, falhas jurídicas, perda de autoria, dependência cognitiva e decisões automatizadas sem supervisão humana adequada.
Em muitos casos, esse uso excessivo vem acompanhado de uma percepção superficial ou incompleta sobre regulamentação. É comum uma confiança tácita de que o simples acesso à ferramenta legitima seu uso. O problema é que os marcos regulatórios ainda são parciais, em evolução e altamente contextuais, exigindo interpretação jurídica, responsabilidade ética e supervisão humana contínua — elementos que não podem ser terceirizados à tecnologia.
O ponto central é que nenhum dos extremos é saudável. Negar a IA não impede seu avanço, tampouco protege o usuário de seus impactos. Usá-la sem critérios, por outro lado, não é sinal de modernidade, mas de imprudência.
A maturidade digital está justamente no meio do caminho: no uso consciente, informado, estratégico e responsável da inteligência artificial.
Isso exige letramento em IA. Compreender onde ela está presente, como funciona, quais são seus limites, quais dados utiliza, quais decisões pode ou não automatizar e quais responsabilidades permanecem, inevitavelmente, humanas. A tecnologia não elimina o dever ético, jurídico ou crítico — ela o amplia.
Esse letramento não é técnico no sentido estrito, nem restrito a programadores ou especialistas. Trata-se de uma competência transversal, que envolve pensamento crítico, compreensão de contexto, noções básicas de funcionamento algorítmico e, sobretudo, consciência sobre impactos.
Saber usar IA não é apenas saber "extrair respostas", mas entender as consequências dessas respostas no mundo real, seja na comunicação, nos negócios, na educação ou na tomada de decisões estratégicas.
Ignorar essa necessidade empurra o debate novamente para os extremos: ou a rejeição baseada no medo, ou a adesão baseada no deslumbramento. Nenhuma das duas prepara indivíduos ou organizações para um futuro que já chegou.
A inteligência artificial não pede fé cega nem resistência obstinada; ela exige maturidade intelectual. E maturidade, nesse contexto, significa assumir que a tecnologia é uma ferramenta poderosa - mas que continua subordinada a valores humanos, escolhas conscientes e responsabilidade contínua.
Mais do que escolher entre o "sim" ou o "não" à inteligência artificial, o desafio contemporâneo é aprender a dizer "como", "quando" e "para quê". Afinal, a IA já faz parte do cotidiano. A diferença real está entre ser um usuário consciente ou apenas mais um conduzido por sistemas que não compreende.