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Quando a exposição midiática dificulta o reconhecimento da incapacidade

A exposição midiática de doenças como fibromialgia e burnout gera desconfiança nas perícias, aumentando indeferimentos e dificultando o acesso a benefícios por incapacidade.

5/2/2026
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Benefícios por incapacidade e o efeito da mídia: Quando a repercussão das doenças dificulta o reconhecimento pericial

Nos últimos anos, diversos diagnósticos ganharam enorme visibilidade na imprensa e nas redes sociais: fibromialgia, burnout, transtornos ansiosos, sequelas da Covid longa, lombalgias crônicas, entre outros. À primeira vista, seria natural imaginar que essa exposição pública facilitaria o reconhecimento de incapacidades laborais. Afinal, quanto mais a sociedade fala, mais esclarecimento existe.

No entanto, a realidade previdenciária mostra exatamente o oposto: doenças que ganham a mídia muitas vezes se tornam alvo de maior desconfiança nas perícias do INSS.

Esse fenômeno, embora pouco discutido, tem produzido impactos profundos no acesso aos benefícios por incapacidade. A “hipervisibilidade” - o momento em que um diagnóstico se torna pauta frequente - gera uma reação institucional de suspeição. O raciocínio implícito é simples e equivocado: se muita gente está falando sobre determinada doença, então “todo mundo deve ter”, e, por isso, casos individuais passam a ser vistos como banais ou exagerados.

Isso é particularmente cruel em condições cujo diagnóstico depende de avaliação subjetiva ou cuja manifestação não é demonstrável por exames laboratoriais.

Fibromialgia é exemplo emblemático. Reconhecida pela OMS há décadas, continua sendo tratada em muitas perícias como condição “subjetiva”, especialmente depois de ganhar espaço na mídia.

Burnout, outra expressão que se popularizou, sofre do mesmo mal: ao ser amplamente divulgada, passou a ser confundida com simples estresse cotidiano, como se sua gravidade fosse fruto de modismo.

Transtornos psiquiátricos, considerados doenças invisíveis, encontram resistência ainda maior quando entram em tendência nas redes sociais.

E a Covid longa, apesar do forte respaldo científico internacional, em alguns contextos periciais passou a ser vista como diagnóstico genérico demais.

O problema não é o diagnóstico em si, mas a leitura que o sistema faz dele após a repercussão midiática. O aumento da procura por benefícios gera preocupação administrativa com possíveis fraudes; essa preocupação gera rigidez; a rigidez gera indeferimentos injustos. Esse ciclo se repete, principalmente quando o perito não está atualizado com novas evidências científicas ou quando a estrutura institucional incentiva avaliações rápidas e pouco aprofundadas.

O impacto jurídico é evidente: indeferimentos crescentes em casos legítimos, judicialização massiva e agravamento da vulnerabilidade social. O segurado, já fragilizado pela doença, enfrenta o peso adicional da desconfiança institucional. Muitas vezes, a negativa deriva não da ausência de incapacidade, mas da forma como o diagnóstico é percebido social e administrativamente.

Essa realidade exige mudança de abordagem por parte da advocacia. Em doenças com alta visibilidade na mídia, a estratégia não pode se limitar à apresentação de exames e atestados. É essencial demonstrar a incapacidade funcional, e não apenas o nome da doença. Escalas clínicas validadas, descrição precisa das limitações nas atividades diárias, histórico ocupacional detalhado, linha do tempo da evolução do quadro, relatórios de especialistas e quesitos periciais bem elaborados reduzem a margem de subjetividade e fortalecem o caso.

Outro ponto decisivo é estabelecer o nexo entre a doença e a atividade habitual. Não importa quantas reportagens existam sobre burnout; o que importa é como ele incapacita aquele segurado específico para a função que exerce. Essa personalização probatória é a ferramenta mais eficaz para neutralizar a ideia equivocada de massificação dos diagnósticos.

A superexposição midiática não torna uma doença menos grave. O fato de se falar muito sobre um problema não significa que ele seja falso, exagerado ou oportunista. Ao contrário: quanto maior a discussão pública, maior tende a ser a conscientização, o diagnóstico precoce e a procura por tratamento.

A missão do Direito Previdenciário - e da perícia médica que o integra - não é controlar tendências, mas proteger a capacidade laboral do indivíduo. Quando um diagnóstico ganha a mídia, o papel das instituições não deve ser restringir automaticamente concessões, mas compreender a complexidade clínica envolvida. Informar não é banalizar. E aparecimento em manchetes não transforma incapacidade real em ficção.

Em um sistema previdenciário já marcado por filas, dificuldades e desigualdades, tratar doenças midiáticas com desconfiança reforça estigmas, amplia injustiças e afasta o segurado da proteção constitucional que deveria ampará-lo justamente nos momentos de maior fragilidade. Reconhecer esse fenômeno é o primeiro passo. Superá-lo exige formação continuada, sensibilidade técnica, rigor científico e uma postura jurídica comprometida com a dignidade do trabalhador adoecido - independentemente da popularidade do diagnóstico.

Autor

Lucas Morrone Costa Advogado previdenciário e assistencial. Graduado em Direito FURG, Especialista em Direito UNISC. Mestre em Direito e Justiça Social pela FURG. Site: www.lucasmorrone.adv.br

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