A leitura de Gestão do Amanhã, de Sandro Magaldi e José Salibi Neto, oferece um mapa de como organizações devem repensar estratégia, educação corporativa e liderança para prosperar numa era transformada pela tecnologia. Aplicado ao universo jurídico, esse mapa explica a transição que presenciei: do gabinete tradicional - quase medieval - para uma firma que combina técnica jurídica, disciplina e infraestrutura tecnológica de ponta. Aqui conecto as ideias centrais do livro à prática do mercado jurídico, incorporando uma reflexão pessoal publicada na revista Ponto de Vista.
Vivemos a 4ª Revolução Industrial. No Direito, isso se traduz na massificação de dados, na emergência de plataformas legais, na automação de rotinas e em novas expectativas dos clientes por rapidez, previsibilidade e eficiência financeira. Escritórios presos a “vestes e mobílias medievais” perdem competitividade; outros reconfiguram seu core sem abrir mão da técnica.
O livro enfatiza estratégias baseadas em plataformas. No jurídico, isso significa estruturar serviços em camadas: um front-end relacional (confiança, customização), um middle-layer de soluções (jurimetria, LPM, dashboards) e um back-end automatizado (assistentes virtuais, workflows). O escritório torna-se um ecossistema que integra especialistas, tecnologia e parceiros - preservando, porém, atendimento sob medida.
Gestão do Amanhã defende ainda plataformas educativas multimodais. Para escritórios, isso vira um programa contínuo de upskilling: jurimetria, ética em IA, legal project management e soft skills (escuta, negociação, empatia). A educação transforma advogados em leitores-aprendizes capazes de avaliar, adaptar e extrair valor das tecnologias.
O livro aponta novas competências de liderança - adaptabilidade, pensamento sistêmico, alfabetização digital, capacidade de facilitar redes. Líderes jurídicos devem ser simultaneamente guardiões da técnica e arquitetos de inovação: definir governança de dados, implantar KPIs relevantes (tempo médio de resolução, taxa de sucesso ajustada por custo, economia gerada por automação) e criar incentivos para experimentação responsável.
Tecnologia é alavanca, não destino. Jurimetria, modelos preditivos e assistentes virtuais ampliam capacidade analítica e velocidade, mas a vantagem competitiva nasce ao ancorar tecnologia em propósito, processos e cultura. Gosto da metáfora: tecnologia é vento favorável - sem casco e vela adequados (governança e processos), o sopro é apenas brisa.
Riscos e governança exigem atenção: o “black box” de modelos complexos e as alucinações de sistemas generativos impõem procedimentos formais - validação de fontes, revisão humana obrigatória, trilhas de auditoria e cláusulas contratuais que identifiquem uso de IA. Só assim se preserva o accountability hermenêutico e a segurança para os clientes.
Nossa experiência confirma que unir engenharia de produção (LPM, fluxogramas, padrões de qualidade) com sensibilidade relacional (lealdade, discrição, atendimento sob medida) gera vantagem sustentável. Disciplina operacional fornece estabilidade; experimentação controlada gera inovação - exatamente o equilíbrio que o livro recomenda.
Como disse numa entrevista à revista Ponto de Vista: “Não há nenhuma receita ou fórmula pronta, com a melhor eficiência corporativa que funcione sem uma equipa integrada, motivada, justamente remunerada e bem liderada. Dizer que a gestão, em outras palavras, não poderá fugir totalmente às receitas tradicionais da vovó, porque têm o tempero do sucesso na essência do simples.” Essa ideia sintetiza o ponto crucial: tecnologia e novos modelos só produzem valor se ancorados em equipa e cultura.
O mundo corporativo, dos negócios, das grandes estratégias, dos visionários e das nossas perspetivas, é camaleónico. Estamos diariamente num frenético processo de mutações. Novos conceitos, novas ideias, novas crenças. Apostamos, nesse infinito universo de mentes desassossegadas, nas mais variadas receitas de sucesso, colocando aqueles finos ingredientes que provocam sabores novos. Tudo isso é absolutamente inteligente, obviamente. Só não podemos esquecer do produto mais valioso e principal dessa receita que busca o paladar do sucesso e os resultados esperados. Refiro-me ao capital humano.
Seguindo Gestão do Amanhã, recomendo tratar cada inovação como hipótese - pilote, mensure (KPIs claros), aprenda e escale. Mantenha curiosidade ativa, com critérios: propósito, segurança, valor para o cliente e retorno sobre investimento.
O livro ensina que prosperar na 4ª Revolução Industrial exige atualizar mentalidade e operação. No Direito, isso significa preservar técnica e confiança enquanto se adotam motores de eficiência. Escritórios que combinarem disciplina operacional, educação contínua, liderança adaptativa e governança tecnológica transformarão o casaco antigo em sobretudo capaz de enfrentar ventos imprevisíveis - sem perder a essência do ofício. Mas não há nem haverá nenhuma receita ou fórmula, com a melhor eficiência corporativa que funcione sem uma equipe integrada, motivada, justamente remunerada e bem liderada.