“Como já alertava Hermann Heller, não é possível a garantia de sobrevivência da democracia em um país em que imensas parcelas do povo não se reconhecem mais no Estado(...)”1
Na República dos Penduricos e dos Adornos, onde o contracheque nunca vem sozinho e toda verba precisa de um sobrenome respeitável, surgiu um movimento inédito: a greve penduricarial.
Não era greve por salário atrasado, nem por falta de condições de trabalho, nem por estrutura precária, nem por excesso de serviço. Nada disso. Era uma greve mais refinada: uma greve de quem já goza dos penduricos e, por amor antigo, deseja mantê-los.
A notícia correu ligeira pelos corredores da República. Se bem que também correu pela internet, WhatsApp, Instagram, X, ou seja, por várias vias:
- Como assim, greve? - perguntou um servidor antigo, desses que ainda acreditam no teto como conceito, e não como peça decorativa.
- Greve penduricarial, meu caro - respondeu o outro, ajustando a gravata com solenidade de quem vai defender a Constituição, mas só até a página que convém. - Estamos mobilizados em defesa das verbas acessórias, dos auxílios sensíveis, das parcelas interpretativas, das compensações existenciais e dos adicionais de alta relevância pessoal.
- E o que aconteceu?
- Aconteceu o absurdo de sempre: alguém teve a ousadia de lembrar que teto é teto.
Fez-se silêncio. Um grande e eloquente silêncio.
- Mas veja bem - prosseguiu o militante penduricarial, já em tom de manifesto - ninguém aqui é contra a lei. Somos todos legalíssimos. Nosso movimento é em defesa da segurança jurídica das vantagens historicamente sedimentadas no tecido remuneratório da República.
- Traduz.
- Queremos continuar recebendo o que já recebemos.
- Mesmo que não caiba no teto?
- Sobretudo se não couber. Se coubesse, nem precisaria de engenho.
E assim nasceu a pauta da greve. Era uma peça de rara criatividade. Não pedia reajuste; pedia “preservação da arquitetura compensatória”. Não defendia privilégio; defendia “tratamento remuneratório compatível com as singularidades da função”. Não falava em pendurico; falava em “instrumentos indenizatórios de recomposição civilizatória”.
Em resumo: trocou-se o nome da sobremesa, mas o açúcar seguia o mesmo.
Nos bastidores, organizavam-se atos simbólicos. Um grupo sugeriu suspender a assinatura de documentos em caneta azul e aderir ao preto austero. Outro propôs um “apagão hermenêutico”: durante duas horas, ninguém interpretaria norma a favor de si mesmo. A proposta foi considerada radical demais e arquivada por falta de consenso.
Houve também quem quisesse internacionalizar a causa.
- Se necessário, levaremos o tema a fóruns comparados - disse um entusiasta das diárias. - A comunidade global precisa conhecer a gravidade da supressão indenizatória em tempos de contenção.
- E quem paga a viagem?
- Ora, não misture as pautas.
Enquanto isso, do lado de fora, a população assistia sem entender.
O trabalhador que pega ônibus lotado olhava a manchete e coçava a cabeça.
A professora que compra material com dinheiro do próprio bolso lia a nota oficial e franzia a testa. O aposentado, que contava o dinheiro para comprar remédio de pressão, pois o do posto de saúde acabou, via a palavra “greve” e balançava a cabeça sem nada entender. Mas a ali a greve era outra coisa: era uma paralisação contra a possibilidade de cumprimento do que já deveria estar sendo cumprido (o tão falado "teto constitucional").
Porque a greve penduricarial tem esse traço singular: não luta para conquistar o mínimo; luta para impedir o retorno ao máximo razoável.
Num café discreto, dois velhos conhecidos conversavam:
- Então é isso? - perguntou um. - Fizeram greve para defender enfeites no contracheque?
- Enfeites, não. Adornos institucionais.
- Ah, sim. E amanhã?
- Amanhã, se tudo der certo, transformam exceção em tradição, tradição em direito adquirido, e direito adquirido em cláusula sentimental.
- E se não der certo?
- Aí convocam nova assembleia. Com auxílio-convocação, se possível.
No fim do dia, a República apareceu à janela, cansada, com ares de quem já viu muita fantasia virar parecer. Olhou a multidão, olhou os cartazes, olhou as notas técnicas e suspirou:
- Curioso país este. Quando falta o essencial, pedem paciência. Quando ameaçam o acessório, chamam greve.
E a República, conhecedora de tantas e tantas histórias, lembrou-se da origem da “greve”:
- Pois é, se bem me lembro, “greve” remete à Place de Grève. A Place de Grève era um terreno plano, coberto de areia e cascalho, situado às margens do rio Sena. O local, no século XVIII, era ponto de encontro para desempregados e trabalhadores insatisfeitos, que ali permaneciam para protestar contra as condições de vida e xingar seus patrões, chamando-os de “chacais” ou “vampiros”. E, assim, estar na Place de Grève passou a significar estar em greve.2-3
Mas essa “greve” que se avizinha... poderia mesmo ser chamada de “greve”......?
E recolheu-se, não sem antes anotar no seu caderno de ironias:
Na República dos Penduricos, até a resistência vem com rubrica.
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1 BERCOVICI, Gilberto. Constituição econômica e desenvolvimento. 2. ed. São Paulo: Almedina, 2022. Pág. 149.
2 FIGUEIRA, José Alex Gonçalves; SILVA, Guilherme Barbosa da. Greve: breves considerações acerca de seu significado. S. l.: s. n., 20--?. Disponível em: https://uniesp.edu.br/sites/_biblioteca/revistas/20170721101519.pdf. Acesso em: 22 fev. 2026.
3 FERREIRA, Carlos Augusto de Aguiar. Direito de greve do servidor público civil. 2007. Monografia (Bacharelado em Direito) – Departamento de Direito Processual, Faculdade de Direito, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2007.