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O faroeste racista no futebol

A partir do caso Vini Júnior, o artigo expõe como racismo, colonialidade e controle cultural seguem presentes no futebol.

12/3/2026
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Mais uma vez o nome de Vini Júnior voltou a ocupar o centro de uma controvérsia envolvendo racismo no futebol. No dia 17 de fevereiro de 2026, em partida de seu time, o Real Madrid, contra o Benfica, o atacante denunciou ter sido alvo de ofensa racial, proferida por um adversário que cobriu o rosto com a camisa para escapar de registros, fato amplamente noticiado pela imprensa internacional. Na ocasião, o árbitro paralisou o jogo ao acionar o protocolo antirracismo, mas, sem elementos além da palavra do jogador, a cena terminou com a punição do denunciante e a ausência de sanção imediata ao acusado, que veio a ser suspenso preventivamente apenas após o término da partida.

Já são vários os casos de racismo contra o Vini Júnior. Desta vez, observamos alguns elementos inéditos, outros nem tanto. De novidade, a transmissão televisiva registrou o momento em que o adversário levou o uniforme ao rosto, o que acabou impedindo a identificação do que teria sido dito. A cena evocou a estética dos antigos filmes de faroeste, em que personagens ocultavam o rosto atrás de lenços amarrados à face. Também repercutiu a postura de José Mourinho, técnico do Benfica, que ao final do jogo interpelou Vini Júnior e depois, em comentário, repreendeu a forma do jogador celebrar seus gols, deixando implícito que isso seria uma das razões para as ofensas recebidas.

Não é novidade a tendência de se exigir da vítima uma prova que ela não tem além de sua própria palavra de ofendido. A falta de um cartão vermelho no ato para Prestianni demonstrou isso. Somente após a repercussão do caso - e talvez por causa dela - o jogador do Benfica foi suspenso preventivamente.

Como destacou Vicent Kompany, técnico do Bayer, em entrevista, Vini Júnior não teria qualquer razão para mentir, pois não teria proveito algum com isso. O histórico de ofensas que recebeu demonstra que, em todas as vezes que alegou ter sofrido racismo, este ficou constatado. Afora isso, o jogador brasileiro tem postura ativa na luta contra o racismo. Certamente, não deixaria tudo a perder, enfraquecendo essa luta apenas para ter um proveito em campo. Nesse contexto, parece razoável sustentar que sua palavra mereceria maior credibilidade ainda durante a partida, sem prejuízo de posterior apuração mais detida dos fatos e eventual revisão de medidas disciplinares.

Mas por que então Vini Júnior, dentre tantos jogadores pretos, virou a vítima principal e majoritária de tantas ofensas racistas?

A resposta talvez esteja menos no indivíduo e mais no que ele simboliza. O racismo no futebol dialoga com uma herança histórica de matriz colonial, que, conforme aponta Luciana Ballestrin, naturalizou hierarquias raciais e acostumou determinados espaços de prestígio a tolerar corpos pretos enquanto força física e espetáculo, mas não enquanto protagonismo autônomo. Há, ainda hoje, resquícios de uma lógica colonial que aceita o talento do atleta, mas resiste à sua voz, à sua afirmação identitária e à sua recusa em se submeter ao silêncio.

Não é coincidência, que a primeira ofensa sofrida por Vini Júnior desde que chegou ao Real Madrid ocorreu quando passou a ter maior protagonismo, coincidindo com sua eleição como melhor jogador da Liga naquela ocasião. O brilho do colonizado ofusca, tornando-se fonte de estranhamento e, em muitos casos, de revolta e não aceitação.

Além disso, a frequência e repetição de ataques em jogos de diferentes agremiações mostra que o racismo e a discriminação não são algo característico de uma dada torcida, mas, sim, um fenômeno generalizado em jogos de futebol. Tem razão Pedro Sousa de Almeida quando diz que, especialmente na Europa, “a ideologia colonial racista se estende muito para além dos grupos de adeptos”.

Franz Fanon, em Os Condenados da Terra, nos ensina que o colonialismo, para além de subjugar o colonizado, se “orienta para o passado do povo oprimido, distorcendo-o, desfigura-o, anula-o.” Trata-se de um movimento de desvalorização de sua história, que se presta a apagar qualquer centelha de revolta ou descontentamento. A intenção é “esvaziar o cérebro colonizado de todas as formas e de todo conteúdo”, substituindo-o pela aceitação passiva da verdade hegemônica do dominador.

No livro Descolonizando a Mente, Ngugi wa Thiong’o aponta que “o triunfo final de um sistema de dominação” ocorre quando “os dominados passam a aclamar as virtudes desse sistema.” A alienação colonial assume duas formas: promove o distanciamento de si mesmo da realidade em seu redor e, ao mesmo tempo, a identificação com o que “é mais externo ao seu meio”. No caso retratado por Thiong’o sobre a colonização na África, essa alienação começou pela dissociação da língua falada, substituída pela do dominador.

No campo do futebol vemos algo parecido quando a dita escola de futebol europeu tenta - e até certo modo consegue - impor seu padrão atlético, tático e até mesmo estético e comportamental de jogo. Nessa cartilha, até mesmo o modo de comemorar os gols, é, por vezes, demarcado e doutrinado. A crítica de José Mourinho à dança de Vini Júnior expressa esse incômodo. Como se sua celebração, traço de cultura e origem, fosse a fonte da hostilidade. As palavras de Mourinho dão a entender que Vini Júnior não tem espaço para ser ele mesmo. Sua função é apenas jogar futebol e se conformar ao padrão dele exigido. Não lhe cabe ter voz. Como se seu lugar social estivesse confinado às quatro linhas do campo de futebol e a seu papel de atleta.

Neste sentido, não é surpresa Vini Júnior ser alvo de tantos atos racistas. Ele não é apenas um atleta talentoso. Ele encarna uma postura decolonial ao se recusar a abdicar de seus traços culturais, de sua dança, de seu modo de celebrar e existir em campo. Ao manter o drible, a ginga e a expressão corporal que dialogam com a memória do futebol brasileiro, ele desafia padrões eurocêntricos de comportamento e jogo. Não atoa desperta críticas como a do técnico José Mourinho, já mencionada. Recorde-se ainda da declaração de Pedro Bravo em 2022, na época presidente da Associação Espanhola de Empresários de Jogadores, quando disse que se o jogador quisesse dançar que fosse ao sambódromo no Brasil, e que parasse de fazer macaquice.

Mas nos lembra Walter Benjamin, a memória não é mero registro do passado. Ela é força ativa que resgata experiências silenciadas e impede que a história oficial apague as marcas dos oprimidos. Cada gesto de Vini é também evocação da memória coletiva e festiva do futebol brasileiro, que evoca a tempos de Garrincha, Pelé, Jairzinho, dentre tantos. As celebrações de Vini Júnior remetem a uma história de protagonismo do Brasil no futebol que é reproduzida e restaurada pela ação pessoal do jogador. E esse protagonismo - destacados nos traços culturais que Vini Júnior não aceita apagar- incomoda e gera reações das mais variadas matizes, chegando ao extremo das ofensas racistas.

O estádio de futebol é, em si, um espaço em disputa, que carrega elementos igualitários, mas também desiguais, como destaca Luiz Antônio Simas. Quando se tenta constranger o gesto, a dança ou o drible de Vini Júnior, não se está apenas reprimindo uma comemoração. Está-se tentando impor um padrão cultural que neutralize diferenças e domestique singularidades.

A reação do jogador - denunciar, insistir, continuar - insere-se no que David Sánchez Rúbio descreve como lutas concretas das quais os direitos humanos se constroem não apenas nas normas, mas nas práticas sociais. Lutas que nos remetem a figuras fundamentais como as de Martin Luther King Jr. e de Nelson Mandela. Ambos que, por lutarem contra o racismo, foram vítimas do mal que pretendiam combater, sendo o primeiro assassinado e o último preso durante longos anos, antes de tornar-se Presidente com o fim do Apartheid na África do Sul.

Afinal, normas existem, e são várias - tanto no ordenamento jurídico brasileiro quanto nos regulamentos da Fifa e das competições internacionais - todas voltadas a coibir práticas discriminatórias. Mas, para além da letra da regra, é a postura ativa do jogador que lhe confere concretude. Ao denunciar, ao não aceitar o silêncio, ele transforma a norma abstrata em ação efetiva. É essa atitude que, naquele instante fugaz do jogo, rompe a naturalização da ofensa e fomenta uma reação contra a opressão, implementando uma prática de emancipação frente ao racismo.

Por isso os episódios se repetem com ele. Porque não se trata apenas de racismo contra um atleta, mas de reação contra o que ele representa: memória, identidade e reivindicação de respeito às diferenças e singularidades que ele traz estampadas na sua pele, no seu espírito e na sua personalidade. Cada vez que insiste em jogar à sua maneira, reafirmando quem é, o que está em curso é uma disputa maior: saber se o futebol - e a sociedade - romperão com a herança colonial que hierarquiza corpos ou se continuarão tolerando, sob máscaras e lenços improvisados, velhas práticas de exclusão.

Contudo, o combate ao racismo não pode depender apenas da coragem solitária da vítima. Outras vozes devem se erguer junto a de Vini Júnior. Para além disso, exige-se compromisso institucional inequívoco com o respeito às diferenças e singularidades de cada atleta.

A responsabilidade do jogador do Benfica será apurada nas instâncias competentes e, se houver comprovação de culpa, que a sanção seja proporcional e exemplar. Ainda assim, medidas estritamente punitivas não bastam. Como recentemente pontuou Pep Guardiola, é indispensável investir em processos educativos consistentes e contínuos. O racismo é um problema estrutural da sociedade: o futebol apenas o reproduz e lhe confere maior destaque. Sem transformação cultural mais profunda, os episódios tendem a se repetir. E isso não pode, em hipótese alguma, ser naturalizado.

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ALMEIDA, Pedro Sousa. Futebol, racismo e media: os discursos da imprensa portuguesa durante o fascismo e pós-revolução de Abril. Revista de Ciências Sociais, nº 44,  p. 71-90, na./jun. 2016. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/politicaetrabalho/article/view/28332/16469. Acesso em: 12.06.2025. P. 86.

BALLESTRIN, Luciana. América Latina e o giro decolonial. Revista Brasileira de Ciência Política, [S.l], n. 11, p. 89-117, 2013. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/rbcp/article/view/2069. Acesso em: 12 jun. 2025.

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. tradução: Sérgio Paulo Rouanet. 3. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987. v. 1.

FANON, Frantz. Os condenados da terra. trad. Lígia Fonseca Ferreira e Regina Salgado Campos. 3ª reimpressão. Rio de Janeiro: Zahar, 2022. p. 211.

FOLES, Paulo. Guardiola exige providência após Vini Jr. sofrer racismo: “É um problema da sociedade”. Bola vip. Disponível em: https://br.bolavip.com/futebol/guardiola-exige-providencia-apos-vini-jr-sofrer-racismo-na-champions. Acesso em 26 fev. 2026.

SÁNCHEZ RUBIO, David (2010). Direitos humanos instituintes. Trad Bruna N M. Morato de Andrade e Leonam Lucas Nogueira Cunha. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2022.

SIMAS, Luiz Antonio. Maracanã: Quando a cidade era terreiro. Rio de Janeiro, RJ: Mórula Editorial, 2021.

TÉCNICO do Bayern, Kompany dispara contra Mourinho: 'Basicamente atacou o caráter de Vinicius Jr.' ESPN. Disponível em: https://www.espn.com.br/futebol/champions-league/artigo/_/id/16335813/tecnico-bayern-kompany-dispara-contra-mourinho-basicamente-atacou-carater-vinicius-jr. Acesso em: 26 fev. 2026.

THIONG’O, Ngugi wa. Descolonizando a mente. A política linguística na literatura africana. trad. Hilton Lima.  Porto Alegre e São Paulo: Dublinense, 2025. p. 65 e 78.

Autores

Pedro Sobrino Porto Virgolino Doutorando em Direitos e Garantias Fundamentais pela FDV. Mestre em Direito Processual Civil pela Universidade Federal do Estado do Espírito Santo. Procurador do Estado do Espírito Santo. Advogado.

Nelson Camatta Moreira Pós-doutor em Direito pela Universidad de Sevilla. Doutor em Direito pela Unisinos-RS. Professor do PPGD-FDV. Líder do GP CNPq Teoria Crítica do Constitucionalismo. Pesquisador PQ-FAPES. Advogado.

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