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Racismo não é passado. É método

O Brasil enfrenta a contradição entre a legislação antirracista e a realidade de desigualdade racial, com políticas públicas insuficientes para mudar a estrutura.

20/3/2026
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O 21/3, Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, expõe uma contradição que o Brasil insiste em contornar: não há democracia plena em uma sociedade estruturada pela desigualdade racial.

O racismo no país não é herança de um passado distante. É um mecanismo ativo de organização social. Ele define quem acessa direitos, quem ocupa espaços de poder e, em muitos casos, quem vive e quem morre.

Os números não deixam margem para negação. Cerca de 70% das pessoas negras já sofreram discriminação racial1. No mercado de trabalho, pretos e pardos seguem com maiores taxas de desemprego e menor remuneração2. Na segurança pública, o dado mais contundente: 76% das vítimas de homicídio no Brasil são negras.3

Isso não é falha pontual. É resultado de um modelo.

Do ponto de vista jurídico, o país dispõe de instrumentos robustos. A CF/88 define o racismo como crime inafiançável e imprescritível. A lei 7.716/1989 estabelece sanções para práticas discriminatórias. O STF ampliou a interpretação para incluir a injúria racial como forma de racismo.

Mas a existência da lei não garante sua aplicação.

Há uma distância histórica entre o que está escrito e o que é efetivamente praticado. Essa distância revela que o enfrentamento ao racismo nunca foi prioridade política suficiente para alterar estruturas profundas.

Não basta reconhecer o problema. É necessário enfrentá-lo com políticas públicas consistentes, investimento em educação antirracista e responsabilização efetiva das instituições.

O combate à discriminação racial não é um tema setorial nem restrito a determinados grupos. Trata-se de uma questão central para a forma como o país distribui direitos, oportunidades e reconhecimento.

O Brasil já decidiu, no papel, que o racismo é crime.

Resta decidir, na prática, se continuará sendo também uma política.

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1 Agência Brasil, 2024.

2 IBGE, PNAD Contínua.

3 Atlas da Violência 2025, Ipea/Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O dado refere-se a 2023: dos 45 mil homicídios registrados, mais de 35 mil vítimas eram pretas ou pardas.

Autor

Mabel de Souza Advogada, escritora, roteirista, cineasta, pesquisadora da escravidão. Membro da Comissão de Igualdade Racial e Verdade Sobre a Escravidão do SASP - Sindicato das Advogadas e Advogados do Estado de São Paulo.

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