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Inteligência artificial no futebol: Avanço tecnológico exige limites jurídicos claros

Parceria CBF-Google leva IA ao futebol e reacende debate sobre dados, decisões humanas e limites jurídicos da tecnologia no esporte.

24/4/2026
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A recente parceria entre a CBF - Confederação Brasileira de Futebol e o Google, que prevê o uso de inteligência artificial no suporte às seleções brasileiras, reacendeu o debate sobre os limites e os desafios jurídicos da tecnologia no esporte. 

Mais do que um simples patrocínio, trata-se de uma iniciativa que leva tecnologia de ponta para dentro do campo, influenciando diretamente a análise de desempenho, a preparação de jogos e a tomada de decisão.

No entanto, esse avanço também traz desafios jurídicos que precisam ser enfrentados com responsabilidade. A inteligência artificial pode ser uma grande aliada, mas não substitui o olhar humano. Treinadores e comissões técnicas continuam sendo os responsáveis finais pelas decisões e isso é essencial. O risco de uma dependência excessiva da tecnologia pode comprometer justamente aquilo que torna o futebol imprevisível, como a intuição, a experiência e a capacidade de adaptação em tempo real.

Situação exposta recentemente revelou que um treinador espanhol se valia do Chatgpt para preparar os treinamentos para um time russo que treinava. Contudo, ele foi questionado pelo diretor de futebol o porquê de os atletas estarem a 28 horas sem dormir...

Outro ponto sensível diz respeito à utilização e ao tratamento de dados. O funcionamento dessas ferramentas depende da coleta e análise de grandes volumes de informações, incluindo dados pessoais e até dados de saúde dos atletas, sendo estes classificados como dados sensíveis pela Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018). Isso impõe um nível ainda mais elevado de cuidado, uma vez que o tratamento dessas informações exige bases legais específicas, como o consentimento do titular, além da adoção de medidas rigorosas de segurança e governança.

Com efeito, não se trata apenas de cumprir a lei, mas de proteger direitos fundamentais. Nesse contexto, a transparência sobre o que é coletado, como é utilizado e quem tem acesso a esses dados deixa de ser um detalhe técnico e passa a ser uma questão central de confiança dentro e fora de campo.

Além disso, há um desafio menos visível, mas igualmente importante que é o de garantir que a tecnologia seja usada de forma justa. Sistemas de inteligência artificial aprendem com dados passados e, se não forem bem calibrados, podem reproduzir distorções ou favorecer determinados perfis de atletas. Por isso, é fundamental manter supervisão humana, revisar constantemente os resultados e garantir que as decisões não sejam guiadas apenas por algoritmos.

Para que essa inovação funcione de forma equilibrada, alguns princípios precisam estar no centro do processo: clareza sobre o uso da tecnologia, controle humano nas decisões, proteção rigorosa dos dados e monitoramento contínuo dos sistemas. Mais do que implementar ferramentas, trata-se de construir uma cultura de uso responsável da inteligência artificial no desporto.

A parceria entre CBF e Google mostra que o futebol brasileiro está atento às transformações do mundo digital. Mas o verdadeiro diferencial não estará apenas na tecnologia adotada e sim na forma como ela será utilizada. Quando bem aplicada, a inteligência artificial pode ampliar o potencial das equipes. Sem os devidos cuidados, porém, pode gerar riscos desnecessários. 

O desafio, portanto, não é escolher entre tecnologia ou tradição, mas encontrar o ponto de equilíbrio entre inovação e responsabilidade. É aí que estará o futuro do futebol.

Autor

Mauricio de Figueiredo Corrêa da Veiga Sócio do escritório Corrêa da Veiga Advogados; doutorando em Ciências Jurídicas pela Universidade Autónoma de Lisboa (UAL); membro da Academia Brasiliense de Direito do Trabalho (ABRADT); membro do IAB.

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