A educação superior no Brasil ocupa uma posição singular no cenário internacional. Enquanto na maior parte dos países da OCDE e de outras regiões as instituições públicas e privadas sem fins lucrativos concentram a maioria das matrículas, aqui esse papel cabe às instituições privadas — muitas delas com fins lucrativos e algumas até listadas na bolsa de valores.
Esse modelo, raro em escala global, situa a lógica de mercado no centro da gestão e do financiamento do setor, o que torna ainda mais relevante o papel das mulheres: são elas o maior contingente de estudantes e, por consequência, sustentam financeiramente boa parte dessas instituições.
Nas instituições privadas brasileiras, especialmente na modalidade de Educação a Distância (EAD), as mulheres respondem por cerca de 61% das matrículas. Nos cursos mais concorridos, sua presença é ainda mais marcante: 92% em Pedagogia, 84% em Enfermagem, 80% em Psicologia, 60% em Administração e 57% em Direito.
Em 2023, nas graduações a distância, 64% dos estudantes eram mulheres, e 76% delas conciliavam os estudos com trabalho remunerado. Esse contingente é decisivo para a sustentabilidade do setor, atuando majoritariamente em áreas estratégicas para a economia e para o serviço público.
O peso dessa participação, contudo, contrasta com um dado inquietante. Segundo a OCDE, em média 30% das mulheres com ensino superior completo em diversos países estão fora do mercado de trabalho.
O fenômeno, já consolidado no exterior, acende um alerta para o Brasil: mulheres mais escolarizadas podem se afastar progressivamente tanto da educação superior quanto de suas carreiras, pressionadas pela dificuldade de permanência e pelas desigualdades persistentes no acesso a oportunidades profissionais.
Esse quadro se aprofunda quando se examinam os dados internacionais. Levantamentos da OCDE indicam que, entre adultos de 25 a 64 anos, 40% das mulheres possuem ensino superior, ante 34% dos homens. Elas também são maioria entre os diplomados de 25 a 34 anos (51%) e entre os ingressantes em cursos de graduação e mestrado (54% e 61%, respectivamente). Na União Europeia, a predominância feminina é ainda mais expressiva nos mestrados, alcançando 58,3% das matrículas.
Ainda assim, mesmo com escolaridade superior, a taxa de emprego das mulheres jovens com ensino superior é, em média, seis pontos percentuais menor do que a dos homens. No Brasil, essa assimetria é mais acentuada: apenas 53% das mulheres em idade ativa integram a força de trabalho, contra 73% dos homens, segundo o Banco Mundial. É o paradoxo das mulheres mais educadas, mas com menor presença e permanência no mercado.
Caso essa tendência se confirme, o impacto será duplo: prejuízo econômico para as instituições privadas e perda de mão de obra qualificada para o país. A ausência de políticas institucionais robustas voltadas à permanência e à inclusão equitativa ameaça enfraquecer a base de financiamento do setor e comprometer o futuro da educação superior privada.
A tríplice jornada de estudo, trabalho e cuidados
A vida acadêmica dessas mulheres é atravessada por uma sobrecarga permanente. Além dos estudos e do trabalho remunerado, recai sobre elas a responsabilidade pelo cuidado doméstico e familiar. Somadas as horas de trabalho pago às de trabalho não remunerado, a jornada total chega, em média, a 56,4 horas semanais, restando pouco ou nenhum tempo para dedicação plena aos estudos.
Pesquisa do FGV IBRE revela que o trabalho doméstico e de cuidado não remunerado equivale a cerca de 13% do PIB brasileiro, sendo 65% dessa carga executada por mulheres. Elas dedicam, em média, 21 horas semanais a essas atividades, enquanto os homens despendem apenas 11 horas.
Para mães e cuidadoras, o cenário é ainda mais severo: o tempo disponível para si mesmas raramente ultrapassa duas horas diárias, e o estudo ocorre à noite, após o trabalho, ou em brechas fragmentadas ao longo do dia. Em casa, o ambiente frequentemente não favorece a concentração, com interrupções constantes e responsabilidades sobrepostas disputando a mesma atenção.
Política de permanências insuficientes
Embora as instituições privadas invistam pesadamente em captação e marketing, o suporte específico para mulheres, mães e cuidadoras ainda é exceção. Flexibilização de prazos, tutoria ativa, bolsas por perfil socioeconômico e redes de apoio psicossocial permanecem raros e pouco disseminados.
Em muitos casos, as universidades desembolsam milhões no desenvolvimento de tecnologias interativas, robôs e aplicativos de engajamento, convictas de que essas ferramentas resolverão o problema da evasão. No entanto, para uma estudante que divide o tempo entre trabalho, estudos e cuidado dos filhos, uma solução tão simples quanto uma brinquedoteca no campus, onde as crianças possam ficar em segurança durante as aulas, tende a ser muito mais eficaz do que qualquer plataforma digital.
Essa medida atende diretamente a uma das principais barreiras enfrentadas pelas mulheres estudantes e, paradoxalmente, custa menos do que as sofisticadas estruturas tecnológicas que raramente solucionam a raiz do problema.
Os números da evasão expõem a dimensão do desafio. Segundo o Censo da Educação Superior 2023, a taxa de desistência acumulada chega a 61% nas instituições privadas, contra 53% nas públicas. No EAD, o cenário é ainda mais crítico: dois em cada três alunos (66%) abandonam o curso antes de concluí-lo.
É justamente nesse segmento que a presença feminina é mais intensa, o que coloca as mulheres em exposição desproporcional ao risco de evasão. Além das dificuldades financeiras, fatores como sobrecarga de trabalho, ausência de apoio institucional e falta de políticas voltadas a mães e cuidadoras alimentam esse índice alarmante.
Diante desse cenário, reconhecer que as mulheres não apenas financiam, mas também moldam a dinâmica da educação superior privada é uma questão estratégica inadiável. Implementar políticas de permanência que respondam às suas necessidades reais, e que levem em conta as barreiras de gênero no mercado de trabalho, vai além de um compromisso social: é uma medida indispensável para assegurar a sustentabilidade acadêmica e econômica do setor.
Em um país onde a maioria dos universitários frequenta instituições privadas com fins lucrativos, ignorar essa realidade é pavimentar o caminho para repetir o padrão internacional de afastamento feminino da vida acadêmica e profissional. O risco é concreto: perder quem financia, quem sustenta e quem, tantas vezes, transforma a educação e o país.