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A escutatória na era da inteligência artificial: por que a advocacia continuará sendo uma profissão humana

É justamente quando a tecnologia se mostra tão eficiente que vale a pena fazer uma pergunta incômoda: se a máquina faz tanto, o que ainda restará de exclusivamente humano no exercício da advocacia?

6/6/2026
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Poucas profissões sentiram tão de perto o avanço tecnológico dos últimos anos quanto a advocacia. As ferramentas que hoje chegam aos escritórios não se limitam a automatizar tarefas repetitivas: elas redigem, pesquisam, comparam e sugerem caminhos jurídicos com uma desenvoltura que, até há pouco tempo, parecia reservada ao trabalho do advogado.

Sistemas de inteligência artificial generativa (o ChatGPT, o Claude, o Gemini e o DeepSeek, entre tantos outros) minutam contratos, resumem jurisprudência e devolvem uma pesquisa em segundos. Já há estudos sugerindo que, na revisão de contratos, esses sistemas alcançam índices de acerto comparáveis ou até superiores aos de advogados experientes, além de permitirem análises preditivas sobre o comportamento dos tribunais. Boa parte do trabalho jurídico mais repetitivo, em suma, já pode ser delegada à máquina.

Não se trata mais de prever o futuro. A inteligência artificial já é parte do presente da advocacia.

E é justamente quando a tecnologia se mostra tão eficiente que vale a pena fazer uma pergunta incômoda: se a máquina faz tanto, o que ainda restará de exclusivamente humano no exercício da advocacia?

Suspeito que a resposta esteja menos na técnica do que em algo que nenhuma máquina reproduz: a capacidade de escutar de verdade.

Quem advoga conhece bem uma cena que se repete. O cliente entra na sala, senta-se à mesa e, antes de chegar ao processo em si, simplesmente desaba. Fala do casamento que acabou, da empresa que quebrou, do filho que parou de lhe dirigir a palavra, do medo de ser preso, do luto recente, da sensação de ter fracassado.

A questão jurídica vem depois. Primeiro, vem a dor.

Nenhum algoritmo, por mais sofisticado, compreende esse instante. A inteligência artificial reconhece padrões, calcula probabilidades, aponta caminhos, mas não percebe o silêncio entre uma frase e outra, o tremor na voz, o olhar que foge, a pausa que muitas vezes diz mais do que o relato em si.

A advocacia sempre foi, antes de tudo, uma profissão humana. O Direito trata de patrimônio e de liberdade, mas também de família, de honra, de medo e de dignidade. Reduzir o trabalho do advogado a uma entrega técnica é desconhecer aquilo que a profissão tem de mais essencial.

É aqui que a velha provocação de Rubem Alves ganha atualidade. Ao cunhar a palavra “escutatória”, ele notava que existem cursos de oratória por toda parte, mas quase nada sobre a arte de ouvir. Todos querem aprender a falar; poucos se interessam em aprender a escutar.

A observação cai como uma luva na advocacia. A formação jurídica nos treina para argumentar, persuadir e sustentar teses; ensina a dominar a palavra. Sobre escutar o outro de fato, no entanto, quase ninguém fala na faculdade.

E escutar é mais do que ficar calado enquanto o outro fala. Exige presença, exige colocar em suspenso, por um momento, as próprias certezas, e exige sensibilidade para captar o que não chegou a ser dito.

Inspirado no poeta Alberto Caeiro, Rubem Alves dizia que não basta ter ouvidos para escutar o que se fala: é preciso também que haja silêncio dentro da alma. E talvez seja exatamente esse silêncio o que mais falta ao advogado de hoje.

Numa rotina hiperconectada e sempre apressada, ouvir virou exceção. Não raro, enquanto o cliente ainda fala, o advogado já formula a resposta, pensa na tese, antecipa a estratégia processual. Escutam-se as palavras, mas se perde a experiência humana que elas carregam.

Dessa escuta a inteligência artificial é, por natureza, incapaz. Ela processa informação, organiza dados e responde numa velocidade que impressiona, mas não há nela nada de subjetivo, de emocional, de existencial.

Responde no ato porque não sente, não hesita, não precisa de silêncio. Falta-lhe, no fundo, humanidade.

Isso ajuda a explicar um dado curioso. Os clientes em geral aceitam que os escritórios usem inteligência artificial; quando o assunto é delicado, porém, emocional ou juridicamente, a grande maioria continua preferindo conversar com uma pessoa.

A preferência diz muito. O cliente não procura só informação jurídica, isso ele encontra em segundos, no próprio celular. Procura confiança, acolhimento, alguma segurança diante da própria fragilidade.

A tecnologia oferece respostas. Presença, só outra pessoa consegue oferecer. 

Nada disso é apologia ao passado ou recusa à tecnologia. O futuro da profissão não pertence a quem ignora essas ferramentas. Ao contrário, dominar a inteligência artificial deixou de ser um diferencial para se tornar quase uma exigência do ofício.

E o ganho é real. Bem empregada, a tecnologia assume o trabalho repetitivo, agiliza a pesquisa de jurisprudência, organiza documentos e libera o advogado para o que exige mais discernimento, inclusive para o convívio com o cliente.

O problema não está na ferramenta, e sim na ilusão de que eficiência técnica baste para substituir, por inteiro, uma relação humana.

A advocacia nunca se resumirá a produtividade. O bom advogado dos próximos anos será, provavelmente, aquele que equilibrar competência técnica, fluência tecnológica e sensibilidade humana, que usar a inteligência artificial como aliada sem perder a percepção de tudo o que há de humano por trás de cada caso.

A maior vantagem do advogado, no fim das contas, pode estar justamente naquilo que a máquina não reproduz por inteiro: empatia, discernimento moral, sensibilidade ética e uma escuta verdadeira. 

Quanto mais automatizado o mundo, mais valiosa fica a presença de gente. Dar atenção de verdade, olhar nos olhos, ouvir sem pressa e se interessar sinceramente pelo que o outro vive talvez sejam, hoje, pequenos atos de resistência.

Por isso, o desafio da advocacia talvez não seja competir com a inteligência artificial, mas evitar que nós, advogados, nos tornemos mecânicos no trato com as pessoas.

No fim, a essência da profissão segue a mesma: transformar dor em amparo, conflito em solução, insegurança em confiança. E confiança, ao contrário do que entregam os algoritmos, ainda nasce de algo profundamente humano, a experiência de se sentir, enfim, ouvido.

Autor

Rodrigo Aiache Cordeiro Advogado, possui graduação em Direito pela Universidade Federal do Acre, especialização em Direito Processual Civil pela PUC/SP e mestrado em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Escreveu os livros "Poder Econômico e Livre Concorrência: uma análise da concorrência na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988" e "Princípios Constitucionais Tributários." Atualmente, ocupa os cargos de Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (Seccional Acre) e de Auditor Vice-Presidente Administrativo do Superior Tribunal de Justiça Desportiva do Futebol.

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