Migalhas de Peso

Por que estudantes brilhantes travam ao falar em público?

A dificuldade de falar em público nem sempre decorre da falta de conhecimento. O artigo reflete sobre comunicação, oratória e os desafios da formação jurídica contemporânea.

31/7/2026
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Existe uma cena relativamente comum nos cursos de Direito. O estudante demonstra domínio do conteúdo, participa das discussões em sala de aula, obtém bom desempenho nas avaliações escritas e revela sólida capacidade de raciocínio jurídico. No entanto, quando precisa apresentar um seminário, participar de um júri simulado ou defender oralmente uma tese, algo parece mudar. A segurança desaparece, o raciocínio perde fluidez e a sensação de domínio dá lugar à insegurança.

Não se trata de falta de conhecimento. Tampouco de ausência de dedicação. Em muitos casos, o problema está em outro lugar: Na forma como a comunicação é compreendida durante a formação jurídica.

Ainda persiste, em diversos ambientes acadêmicos, a ideia de que falar bem é um atributo natural, uma característica reservada a pessoas mais extrovertidas, carismáticas ou espontaneamente confiantes. Como consequência, a oratória costuma ser tratada como uma habilidade secundária, quase um detalhe complementar ao estudo do Direito.

Essa percepção merece ser repensada. O conhecimento jurídico, por si só, não resolve tudo.

A graduação em Direito desempenha papel fundamental na construção do pensamento jurídico. O estudo da legislação, da jurisprudência e da doutrina permanece como elemento indispensável para a formação de profissionais qualificados.

Entretanto, a experiência acadêmica demonstra que o domínio do conteúdo não é suficiente para enfrentar todos os desafios que a profissão impõe.

O Direito é exercido por meio da linguagem. Advogados defendem teses, orientam clientes, negociam conflitos e sustentam argumentos. Magistrados fundamentam decisões. Professores explicam conceitos complexos. Pesquisadores apresentam resultados e defendem interpretações.

Em diferentes contextos, o conhecimento precisa ser comunicado.

Por essa razão, a capacidade de estruturar ideias, transmitir segurança e tornar uma mensagem compreensível não pode ser vista como mero acessório da formação jurídica. Trata-se de uma competência que integra a própria atividade profissional.

Comunicação não é personalidade. É competência.

Em sua obra "Um Novo Jeito de Ensinar e Influenciar Pessoas", Ariovaldo Alberto Silva Jr. chama atenção para um problema frequentemente ignorado na formação de profissionais que dependem da comunicação para exercer suas atividades. Segundo o autor, grande parte das pessoas jamais recebeu qualquer treinamento estruturado para desenvolver essa habilidade.

Aprende-se a admirar quem fala bem, mas raramente se ensina como alguém pode aprender a falar melhor.

Essa constatação ajuda a compreender por que tantos estudantes acreditam que a boa comunicação é um traço de personalidade e não uma competência profissional. Quando um colega se destaca em apresentações ou demonstra desenvoltura diante da turma, é comum atribuir seu desempenho a um suposto talento natural. Pouco se observa o conjunto de experiências, práticas e exposições que contribuíram para a construção dessa segurança.

A comunicação, assim como qualquer outra habilidade complexa, desenvolve-se por meio de treinamento, repetição e aperfeiçoamento constante.

Ninguém espera dominar Direito Constitucional ou Processo Civil após uma única aula. Da mesma forma, não há razão para imaginar que a segurança ao falar em público surgirá espontaneamente, sem prática ou preparação.

O peso das experiências negativas.

Outro aspecto que merece atenção é o impacto que determinadas experiências acadêmicas exercem sobre a autopercepção dos estudantes.

Uma apresentação malsucedida, uma resposta equivocada em sala de aula ou um episódio de nervosismo diante de uma banca podem produzir efeitos desproporcionais sobre a confiança de quem ainda está construindo sua identidade acadêmica e profissional.

Muitas vezes, um episódio isolado transforma-se em uma conclusão permanente: a de que falar em público não é uma habilidade compatível com determinada personalidade.

O resultado costuma ser previsível. O estudante passa a evitar situações de exposição, recusa oportunidades de apresentação, participa menos dos debates e se afasta justamente dos ambientes que poderiam contribuir para o seu desenvolvimento.

Forma-se, então, um ciclo difícil de romper. Quanto menor a exposição, menor a prática. Quanto menor a prática, maior a insegurança.

O problema não está na falta de capacidade. Está na ausência de experiências suficientes para desenvolver confiança.

A confiança surge depois da prática.

Uma das contribuições mais relevantes das reflexões de Ariovaldo Alberto Silva Jr. está justamente na compreensão de que a confiança não deve ser encarada como pré-requisito para a comunicação.

No imaginário de muitos estudantes, existe a expectativa de que primeiro seja necessário sentir-se seguro para depois enfrentar situações de exposição pública. Na prática, o processo costuma ocorrer de forma inversa.

A segurança é construída pela experiência.

Cada seminário apresentado, cada participação em grupo de pesquisa, cada sustentação em júri simulado e cada exposição em sala de aula representam oportunidades de desenvolvimento. A confiança não surge antes da ação; surge como consequência dela.

Essa percepção possui grande relevância para o ambiente universitário, pois permite compreender que a evolução comunicacional não depende de uma transformação repentina de personalidade, mas de um processo gradual de aprendizagem.

Uma competência construída ao longo da graduação

Talvez uma das maiores contribuições da universidade esteja justamente na possibilidade de desenvolver habilidades que extrapolam o conteúdo das disciplinas.

Seminários, monitorias, grupos de pesquisa, projetos de extensão e júris simulados não são apenas instrumentos de avaliação acadêmica. Funcionam também como espaços de formação comunicacional.

Cada apresentação representa uma oportunidade de aperfeiçoar a clareza da fala, a organização do raciocínio e a capacidade de transmitir ideias de forma segura.

Sob essa perspectiva, a comunicação deixa de ser um elemento periférico e passa a ocupar posição estratégica na formação profissional.

Uma reflexão necessária para o futuro da formação jurídica

A crescente valorização das competências comunicacionais e socioemocionais tem provocado transformações importantes no ensino superior. No Direito, essa discussão ganha especial relevância.

Em um cenário marcado pela complexidade das relações humanas, pela ampliação dos métodos consensuais de resolução de conflitos e pela crescente importância da comunicação institucional, torna-se cada vez mais evidente que o conhecimento técnico, embora indispensável, não atua sozinho.

O estudante que compreende essa realidade ainda durante a graduação passa a enxergar a comunicação não como um talento reservado a poucos, mas como uma habilidade que pode ser desenvolvida, aperfeiçoada e incorporada à sua atuação profissional.

Dominar a lei continuará sendo requisito essencial para qualquer carreira jurídica. Entretanto, a capacidade de comunicar esse conhecimento com clareza, segurança e propósito talvez seja uma das competências mais relevantes para quem pretende transformar conhecimento em influência, credibilidade e autoridade profissional.

Mais do que uma ferramenta acessória, a comunicação integra a própria essência das carreiras jurídicas. E quanto mais cedo essa percepção for incorporada à formação acadêmica, maiores serão as possibilidades de desenvolvimento profissional daqueles que, no futuro, terão a missão de defender direitos, construir consensos e influenciar decisões.

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SILVA JR., Ariovaldo Alberto. Um novo jeito de ensinar e influenciar pessoas: alavanque sua carreira com uma metodologia de comunicação poderosa baseada na neurociência. São Paulo: Gente Autoridade, 2023.

Autor

Priscilla Allan Gomes Ramos Advogada, professora, palestrante e autora. Especialista em Direito Médico e da Saúde. Atua e pesquisa temas relacionados ao Direito da Saúde e Bioética. Pós-graduanda em Comunicação e Oratória.

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