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Governança não é luxo: É o que faz uma empresa valer mais

Governança não é luxo de empresa grande nem papelada de bolsa. É o que faz a sua empresa valer mais na venda e segura o negócio na crise entre sócios. Quem deixa a casa bagunçada paga o desconto.

31/7/2026
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Já vi uma empresa de faturamento invejável perder uma fatia relevante do preço na mesa de negociação, e não foi por causa do produto, da carteira de clientes ou do mercado. Foi porque, quando o comprador abriu o capô na due diligence, a casa estava bagunçada por dentro. Sócios sem acordo, contabilidade que não fechava com a realidade, decisões importantes sem nenhum registro, contratos com partes relacionadas que ninguém sabia explicar. Cada um desses pontos virou desconto, retenção de valor ou cláusula de risco. No fim, o dono levou para casa bem menos do que a empresa valia, por uma razão que tinha conserto e custava barato: governança.

Existe um mito que precisa morrer. Governança corporativa não é burocracia de companhia listada em bolsa, nem comitê cheio de gente de terno discutindo papel. O próprio Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, na 6ª edição do seu Código, lançada em 2023, redefiniu o conceito de um jeito que serve para qualquer empresa: é o sistema de princípios, regras, estruturas e processos pelo qual a organização é dirigida e monitorada, com vistas à geração de valor sustentável para a empresa, para os sócios e para a sociedade. Repare na expressão geração de valor. Governança não é enfeite nem custo de compliance, é mecanismo de criar valor, e se apoia em cinco princípios simples de enunciar: integridade, transparência, equidade, responsabilização e sustentabilidade.

Por que isso aparece no preço

A lógica é mais econômica do que jurídica. Quem coloca dinheiro num negócio, seja comprando, seja financiando, seja entrando como sócio, sabe menos sobre a empresa do que quem está dentro dela. Esse desnível de informação, que os economistas chamam de assimetria informacional, é caro. Quanto mais o investidor desconfia do que não consegue enxergar, mais risco ele embute no preço e maior o retorno que exige. Governança boa ataca exatamente esse ponto. Transparência, conselho que de fato monitora e regras claras entre os sócios reduzem o risco percebido, ampliam o acesso a financiamento e baixam o custo do capital. A literatura empírica brasileira mostra que a qualidade da governança é, no jargão técnico, value relevant, ou seja, o mercado paga mais pela empresa bem governada. Não é teoria bonita, é desconto que você evita.

A empresa que mais precisa é a que menos faz

Aqui está a parte que poucos contam. Quase toda a evidência sobre governança foi produzida estudando gigantes listadas na bolsa, e é justamente por isso que o assunto soa distante para o dono de uma empresa média. Quando alguém olha para fora do topo do mercado de capitais, o quadro se inverte: um estudo com mais de quinhentas empresas registradas na CVM, incluindo as não listadas, encontrou aderência média às boas práticas de pouco mais de trinta e seis por cento. A empresa familiar, a de médio porte, a fechada, que é a que mais sofre com conflito de sócio e sucessão mal feita, é a que menos adota governança. O problema não é falta de relevância, é a ilusão de que isso é coisa de companhia aberta.

Onde a teoria encosta na sua realidade

Para o dono de empresa, governança deixa de ser abstrata em três momentos muito concretos. O primeiro é a venda. Na due diligence, o comprador sofisticado vai cobrar exatamente o que a governança organiza, e a falta dela vira preço menor, dinheiro retido em escrow ou earn-out amarrado a metas. O segundo é a captação. Se você quer atrair um investidor, um fundo ou um sócio estratégico, governança é o passaporte. No mundo das startups isso ganhou até moldura legal: o Marco Legal das Startups, a lei complementar 182 de 2021, organizou a figura do investidor-anjo, que aporta sem virar sócio e sem responder pelas dívidas da empresa, e instrumentos como o mútuo conversível, mas nenhum investidor sério entra onde não há regra clara de quem decide o quê. O terceiro momento é a crise societária, quando a ausência de acordo de sócios e de regras de saída transforma uma divergência comum em um processo que ninguém escolheu e que destrói valor dos dois lados.

Mesmo que você não pretenda abrir o capital nunca, vale conhecer o mapa que o mercado usa. O regulamento do Novo Mercado da B3, reformado em 2017 e em vigor desde 2018, elevou bastante a régua e passou a exigir conselho de administração com mínimo de independência, comitê de auditoria e políticas formais de gestão de riscos e de transações com partes relacionadas. Você não precisa cumprir tudo aquilo, mas aquela lista é, na prática, o checklist do que um comprador ou investidor maduro vai querer ver na sua empresa.

A régua

Governança não é despesa de empresa grande, é investimento que reaparece no valor do seu negócio na hora em que ele é avaliado. A empresa organizada vale mais e vende melhor, e a bagunçada paga o desconto, sempre. A boa notícia é que governança não é tudo ou nada: ela se adapta ao porte e ao momento da empresa, e começar cedo, com um acordo de sócios decente, uma contabilidade fiel e regras claras de decisão, custa uma fração do que custa arrumar a casa no susto, com o comprador já sentado na mesa. Como eu costumo dizer: "é melhor a gente conversar sobre isso enquanto está tudo bem, porque é exatamente quando ninguém acha que precisa".

Autor

Giovani Riboli Beirigo Pós-graduado em Direito Empresarial, com especialização em Direito Societário, Governança Corporativa e atividades de M&A. Fundador do Baum, Beirigo & Milani Adv, empresário, palestrante e professor.

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