O cheque do futuro
Em entrevista a Zanny Minton Beddoes, editora-chefe da The Economist, divulgada em 23 de julho de 2026, Elon Musk previu que o dinheiro perderá importância por volta de 2036. A inteligência artificial e os robôs produziriam tanto que a escassez deixaria de organizar a vida econômica. Perguntado sobre a renda de quem perdesse o emprego para as máquinas e sobre a necessidade de tributar mais o capital, Musk respondeu com uma solução simples. O Tesouro mandaria cheques às pessoas. Na conversa que se seguiu, associou o pagamento à criação de moeda e sustentou que, se a produção crescer mais rápido que a quantidade de dinheiro, o resultado será deflação, e não inflação (The Economist, 2026).
A ideia seduz. Quem não gostaria de um futuro em que o trabalho penoso fica com as máquinas e o dinheiro chega pelo aplicativo do banco no começo do mês? Musk fala de abundância com a autoridade de quem pôs foguetes em órbita e carros elétricos nas ruas. Merece ser ouvido com seriedade.
Quem lida com contas públicas tem, porém, o dever de fazer a pergunta incômoda que costuma ficar fora das promessas. Quem paga a conta enquanto a abundância não chega? A pergunta não é retórica. No Brasil, ela tem resposta constitucional, e essa resposta não admite que a esperança de um futuro farto sirva de fonte de custeio para as despesas de hoje.
Imprimir dinheiro não fabrica pão
O cheque mostra quem recebe. Não mostra quem paga. Bastiat ensinou, ainda em 1850, que o bom economista se distingue do mau por enxergar o efeito que não se vê, aquele que as alternativas sacrificadas escondem por trás do benefício visível. Friedman (1975) popularizou a mesma lição na fórmula de que não existe almoço grátis. O meio de pagamento é uma coisa. O custo da despesa é outra, e confundir as duas é o primeiro passo para esconder a conta.
Criar moeda não aumenta a quantidade de arroz, de remédio ou de casas disponíveis. Mises demonstrou que o dinheiro novo não chega a todos ao mesmo tempo. Ele altera preços e rendas em momentos distintos e muda de modo desigual a posição de cada um (Mises, 2010, p. 487-490). Rothbard descreveu os perdedores desse processo, os que recebem o dinheiro por último e os que vivem de rendimentos que demoram a acompanhar os preços (Rothbard, 2013, p. 48-49).
O exemplo é cotidiano. Se o feijão e a carne sobem antes do salário, a mãe que acorda às cinco da manhã para trabalhar compra menos com o mesmo contracheque. O aposentado perde poder de compra a cada ida ao mercado. Quem guardou um pequeno saldo na conta descobre que ele vale menos. O nome técnico desse fenômeno é imposto inflacionário, um tributo que nenhum parlamento votou e que recai com mais peso sobre os mais pobres.
No Brasil, o atalho dos cheques impressos esbarra na Constituição. O art. 164 da Constituição Federal atribui à União a competência para emitir moeda e determina que ela só pode ser exercida pelo Banco Central. O § 1º do mesmo artigo proíbe o Banco Central de conceder empréstimos, diretos ou indiretos, ao Tesouro Nacional. A LC 179/21 reforçou a autonomia da autoridade monetária. Nenhum governante pode, portanto, criar um programa de transferência e mandar o Banco Central imprimir o dinheiro para pagá-lo.
Há ainda o art. 164-A, incluído pela EC 109/21, que obriga União, estados, Distrito Federal e municípios a conduzir suas políticas fiscais de forma a manter a dívida pública em níveis sustentáveis. Esse dever não se suspende à espera de 2036. Ele incide sobre cada compromisso assumido hoje, com os juros e as receitas de hoje.
Enquanto houver escolha, haverá preço
A aposta de que a produção vai correr à frente da moeda também não resolve o problema. Ganhos de produtividade derrubam preços, e isso é uma bênção. A relação entre quantidade de dinheiro e volume de bens, porém, não é uma regra mecânica. A demanda das pessoas por moeda, as expectativas e o tempo que a oferta leva para chegar às prateleiras entram na conta. Prometer deflação para depois não protege quem paga inflação agora.
Holden Mitrione, em texto publicado pelo Mises Institute em agosto de 2026, foi ao ponto central. Uma economia pode produzir muito mais e continuar obrigada a escolher entre usos alternativos de recursos. Terra, energia, tempo e atenção humana seguem limitados. Enquanto houver escolha, os preços continuarão a informar, e a moeda continuará a servir de instrumento de troca e de cálculo (Mitrione, 2026). O fim do dinheiro pressupõe o fim da escassez. E o fim da escassez nunca foi demonstrado por ninguém.
Hayek acrescentaria uma advertência de humildade. O conhecimento necessário às decisões econômicas está disperso entre milhões de pessoas e não cabe na cabeça de um planejador, por mais genial que ele seja (Hayek, 1945, p. 519-520). Uma data como 2036 pode servir de cenário. Não pode servir de premissa orçamentária.
A história das previsões confirma a prudência. Em 1930, Keynes projetou que, cem anos depois, o padrão de vida nos países avançados poderia ser de quatro a oito vezes maior e que uma semana de quinze horas bastaria para repartir o trabalho restante (Keynes, 1931). O prazo vence em 2030. A riqueza cresceu muito, e ninguém trabalha quinze horas por semana.
O próprio Musk oferece um exemplo de como o tempo da tecnologia escapa ao calendário da promessa. Em 15 de outubro de 2026, a Tesla demonstrou um novo Roadster com propulsores desenvolvidos com a SpaceX e anunciou o início da produção para 2028. Na apresentação de 2017, as entregas haviam sido previstas para 2020 (Roy; Dey, 2026). Oito anos separam a primeira data da nova. Para uma empresa privada, o atraso custa aos acionistas que aceitaram o risco. Para o Estado, custa a quem depende do pagamento prometido e ao contribuinte que nunca foi consultado.
O que fazer enquanto o futuro não chega
Buchanan e Wagner (1977) explicaram por que a política gosta tanto de promessas como a de Musk. Benefícios presentes rendem votos. Custos adiados ou pouco visíveis não tiram nenhum. A expectativa de abundância agrava essa assimetria quando vira argumento para criar despesas permanentes hoje com a garantia vaga de que a tecnologia pagará amanhã.
O direito financeiro brasileiro já tem instrumentos para enfrentar esse risco. O art. 4º, § 3º, da lei de responsabilidade fiscal exige que a lei de diretrizes orçamentárias traga o anexo de riscos fiscais, com a avaliação dos passivos contingentes e dos riscos capazes de afetar as contas públicas e as providências a tomar caso se concretizem. Uma transição tecnológica que mude o mercado de trabalho é esse tipo de risco. Cabe projetá-la com hipóteses explícitas, cenários adversos e revisão periódica.
As bases de financiamento do Estado também podem mudar. Se a massa de salários encolher, encolhem com ela as contribuições sobre a folha que custeiam a previdência e o Sistema S. A produtividade maior pode ampliar outras receitas, e o alcance da mudança dependerá da formalização e das regras de incidência. O planejador sério pode torcer pelo paraíso. Prepara as contas para o caso de ele atrasar.
A proteção de quem perder a renda tem, aliás, uma versão liberal. O imposto de renda negativo de Friedman ligava o auxílio à insuficiência de renda, tornava o custo visível para a sociedade e pressupunha a substituição dos programas existentes, sem destruir o incentivo ao trabalho (Friedman, 1962, cap. XII). É o oposto do cheque emitido sem lastro. Um benefício que não pode ser mantido é uma promessa que será quebrada justo com quem mais precisa dela.
O caminho mais seguro para o futuro, seja ele farto ou modesto, começa pela despesa. Cortar privilégios, sobreposições e gastos sem resultado demonstrado abre espaço para reduzir os tributos que punem o trabalho, a poupança e o empreendimento. Contas arrumadas derrubam os juros, e juros menores aliviam a dívida e estimulam a economia que gera receita. O dinheiro público rende mais em tecnologia aplicada à educação e à saúde do que em prédios que custarão manutenção por décadas. Se a abundância vier, a sociedade terá mais liberdade para aproveitá-la. Se demorar, o país não terá assumido compromissos que não pode honrar.
A esperança não paga boleto
Nada disso desmerece a visão de Musk. A parcela da população mundial em extrema pobreza caiu de cerca de 38% em 1990 para 8,5% em 2024, segundo o Banco Mundial, e a liberdade de empreender e de inovar está no centro dessa conquista. O foguete reaproveitável que hoje alimenta tantas expectativas foi desenvolvido pela SpaceX com recursos próprios, sem dinheiro público na fase inicial do projeto, conforme relatou sua presidente, Gwynne Shotwell, em 2014. Foi o capital privado, disposto a correr o risco de perder, que transformou a promessa em máquina.
A questão jurídica é outra. Quem assume um compromisso público precisa mostrar quem recebe, como se financia e quem suporta o risco se o futuro atrasar. A Constituição brasileira já responde a essa pergunta ao proibir o financiamento monetário do Tesouro e ao exigir dívida sustentável. Para quem depende de uma transferência, o valor prometido importa menos que a certeza de que o pagamento vai continuar no mês seguinte.
A abundância pode chegar. Até lá, a conta chega todo mês.
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BASTIAT, Frédéric. Ce qu’on voit et ce qu’on ne voit pas, ou l’économie politique en une leçon. Paris: Guillaumin, 1850.
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THE ECONOMIST. An interview with Elon Musk. Entrevista concedida a Zanny Minton Beddoes para The Insider. The Intelligence from The Economist, 23 jul. 2026. Podcast. Disponível em: https://shows.acast.com/theintelligencepodcast/episodes/an-interview-with-elon-musk. Acesso em: 17 out. 2026.