No conto Um homem célebre, Machado de Assis narra a história de Pestana, autor de polcas de enorme sucesso que sonhou a vida inteira, em vão, com a grande obra erudita.
Já no fim da vida, gravemente doente, ele recebe o editor. Os conservadores tinham subido ao poder, e o editor queria uma polca para a ocasião. Sabendo que tinha pouco tempo, Pestana responde:
"— Olhe, disse o Pestana, como é provável que eu morra por estes dias, faço-lhe logo duas polcas; a outra servirá para quando subirem os liberais".
A tirada é curta, mas diz muito. O editor chega com a vitória de um grupo; Pestana já pensa na do outro. Nem a morte próxima lhe tira a certeza de que, na política, nenhum triunfo é definitivo e o adversário de hoje pode ser o governo de amanhã.
Mais de um século depois, o Brasil escolhe seu próximo presidente em uma disputa altamente polarizada. Haverá quem celebre e quem lamente, e isso faz parte da democracia. O problema começa quando quem vence confunde a vitória com licença para tudo, e quem perde trata a derrota como autorização para romper todas as pontes.
O dia seguinte pede firmeza nas convicções e cuidado nos gestos. Não se trata de poupar críticas nem de abrir mão de princípios. Trata-se de lembrar que, quando o período eleitoral acabar, o país continuará sendo de todos: dos vencedores e dos vencidos.
Pestana não tinha nenhum compromisso com a conciliação. Tinha, porém, uma noção realista da alternância no poder, e uma polca pronta para o dia seguinte, qualquer que fosse o vencedor.
Talvez valha aprender com ele. Na política, ninguém deveria apostar a vida inteira numa única melodia, nem mesmo queimar a partitura que pode servir para o dia seguinte.