Migalhas de Peso

Cheiro, alma e processo eletrônico

Uma pequena memória sobre aquilo que a tecnologia nos deu e aquilo que ficou pelo caminho.

6/11/2026
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A advocacia tem passado por inúmeras transformações desde o tempo em que os advogados iam às serventias, munidos dos números dos processos anotados, para que o serventuário responsável (sim, cada processo tinha um “dono”) empreendesse a hercúlea tarefa de buscar a localização dos autos em pilhas intermináveis de fichas em um fichário físico.

Ao receber o processo, o advogado recebia muito além de um caderno processual: eram folhas com histórias, vidas, cheiro e alma.

Folhear as páginas dos processos levava o advogado a um mundo real, com despachos escritos à caneta, letras desenhadas, perfume de mofo e folhas envelhecidas, carimbos às vezes tão apagados que era preciso imaginar qual comando cumprir, ligando os pontos num emaranhado de vida física, humana e afetiva.

Dúvida não há de que o marco legal do processo judicial eletrônico, instituído na lei federal 11.419/06, trouxe avanços e melhorias à vida dos operadores do Direito.

Não era incomum a paralisação de um feito diante do extravio dos autos e, se o profissional pretendesse trabalhar fora do expediente forense, precisava levá-los em carga, o que muitas vezes representava transportar inúmeros volumes de processos extensos, em carrinhos que mal conseguiam suportar uma resma.

Mas o processo perdeu sua voz, perdeu sua alma.

Os autos não contam mais as histórias paralelas daqueles que, diuturnamente, carregavam nas mãos o direito dos outros.

O processo físico levava consigo um mundo paralelo de histórias surpreendentes, muitas contadas por advogados que se orgulham de fazer parte de um tempo em que o processo tinha a alma daqueles que o manuseavam.

E as histórias, verdadeiras ou inventadas pela memória dos ‘causos’ debatidos nas intermináveis filas de espera, eram sempre intrigantes.

Conta-se que um advogado, folheando os autos de um processo antigo, deparou-se com uma barata morta entre as folhas e protocolou petição alertando o juízo sobre o inseto. O juiz, ao despachar, ordenou ao cartório: “desentranhe-se a barata”.

Em outro episódio, um advogado, também insatisfeito com a ausência de uma decisão após quase um ano do processo parado, protocolou sua petição com a reprodução de um bolo de aniversário em “celebração” ao aniversário de paralisação do feito. O juiz teria, de próprio punho, passado um pito no patrono debochado.

Há ainda relatos de páginas que desapareciam sem rastro, deixando uma das partes em verdadeiro apuros.

Era possível apreciar a caligrafia desenhada de serventuários concursados décadas antes, digna de convites de casamento, que dançava pelas páginas já tão amareladas e carimbadas.

Que advogado, em sua época de estágio, nunca esqueceu de copiar o verso de uma folha, por mera desatenção e inexperiência, e teve de retornar ao mesmo cartório apenas para xerocar a página esquecida?

Quem nunca fez amizade nas filas das copiadoras, quem nunca tentou conquistar a simpatia do serventuário para furar uma fila, quem nunca se feriu com as enferrujadas bailarinas que prendiam os volumes, com os grampos que carregavam lembretes de localização ou providência?

Os profissionais da nova era da informatização não tiveram a oportunidade de conhecer esse outro processo.

Hoje, o processo eletrônico, apesar de indispensável, oferece páginas frias, sem vida, que contam apenas o direito das partes, e não a vida daqueles que carregavam o peso dos volumes.

Não se trata de mero saudosismo, mas de lembrar de uma época em que os despachos tinham caligrafia, os recados eram lidos, as cores das capas dos cadernos processuais diziam onde o processo deveria estar.

O processo eletrônico tornou-se inegociável e imprescindível, mas a tela branca e fria deixou de contar as histórias daqueles que se dedicavam a manter vivo o rito processual.

O processo ganhou velocidade, acesso e eficiência, mas perdeu algo que nenhuma tecnologia parece capaz de reproduzir: o cheiro e a alma.

Autor

Debora Fontes Silveira Experiência de 25 anos, sócia do Silveira Galeão Advogados Associados. Vice-presidente da Comissão de Transportes da OAB/RJ, membro do Colégio da NTU. Pós UCAM/FGV. Gestão de contencioso de volume.

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