"O poeta é assim: tem, para a dor e o tédio, / Um refúgio tranquilo, um suave remédio."Machado de Assis
As leis são um caminho para a Justiça, mas esta não se esgota na jurisdição. Onde a realidade não alcança, chega a poesia. Recorrer aos versos é uma tarefa à qual muitos/as juristas também se dedicaram. Seriam juristas poetas/poetisas ou poetas/poetisas juristas? A classificação até se confunde. Afinal, a transição entre os dois universos fez - e faz - parte da trajetória de grandes nomes brasileiros.
Neste 20 de outubro, Dia do Poeta, Migalhas presta homenagem a algumas dessas personalidades.
Um dos grandes nomes da literatura brasileira, José de Alencar também construiu uma trajetória marcada pela advocacia, pela política e pelo pensamento jurídico.
Formado pela Faculdade de Direito de São Paulo em 1850, trabalhou em escritório de advocacia no Rio de Janeiro e, anos depois, ocupou o cargo de ministro da Justiça, entre 1868 e 1870.
Autor de romances como "Iracema", "O Guarani" e "Senhora", Alencar também produziu obras jurídicas e se destacou por iniciativas pioneiras no Direito brasileiro.
Em 1868, por exemplo, atuou na defesa de seu sogro, Tomás Cochrane, ao impetrar um habeas corpus preventivo no Supremo.
A convivência entre literatura e Direito, contudo, nem sempre foi recebida com naturalidade.
Durante sua atuação política, Alencar chegou a ser criticado por sua condição de romancista e poeta, considerada por adversários incompatível com a seriedade das funções públicas. Em resposta a um senador que questionava sua capacidade para ocupar o Ministério da Justiça, afirmou:
"Mas a verdade é que eu, romancista, e pretendido poeta, não trouxe para o Parlamento as produções da literatura."
A manifestação evidencia uma preocupação do escritor em distinguir suas atividades literárias da atuação política, embora ambas estivessem profundamente ligadas ao domínio da palavra.
A trajetória de Castro Alves é um dos exemplos mais expressivos da aproximação entre poesia, formação jurídica e luta por direitos no Brasil. Conhecido como o "Poeta dos Escravos", Antônio Frederico de Castro Alves nasceu na Bahia, em 1847, e ingressou na Faculdade de Direito do Recife em 1864.
Quatro anos depois, transferiu-se para o Largo de São Francisco, em São Paulo, onde passou a conviver com estudantes e intelectuais envolvidos nos debates abolicionistas e republicanos.
Entre eles estava Rui Barbosa, que também se destacaria na defesa do fim da escravidão.
Castro Alves não chegou a concluir o curso. Problemas de saúde interromperam sua formação, e o poeta morreu em 1871, aos 24 anos.
Sua obra, contudo, deixou uma contribuição decisiva para a literatura abolicionista. Em poemas como "O Navio Negreiro", denunciou a violência do tráfico de pessoas escravizadas e questionou a legitimidade moral de uma sociedade que sustentava a escravidão.
Em um período no qual a liberdade ainda não era reconhecida a todos pela legislação brasileira, seus versos deram voz a reivindicações que, décadas depois, seriam incorporadas ao debate sobre direitos fundamentais.
A poesia de Castro Alves ultrapassou, assim, a expressão individual para se tornar instrumento de denúncia e mobilização social.
Embora não tenha exercido a advocacia, sua passagem pelas faculdades de Direito e sua atuação intelectual fizeram dele uma figura importante na história das lutas por liberdade no país.
Advogada, jornalista, poeta e militante feminista, Almerinda Farias Gama fez da palavra um instrumento de expressão literária e de reivindicação de direitos.
Nascida em Maceió/AL, em 1899, destacou-se nas primeiras décadas do século XX pela atuação no movimento sufragista brasileiro, em um período no qual as mulheres ainda lutavam pelo reconhecimento de sua participação política.
Mulher negra, Almerinda enfrentou barreiras relacionadas ao gênero e à raça enquanto construía sua trajetória intelectual e profissional.
Foi integrante da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e participou das mobilizações pelo direito ao voto. Também se destacou na organização sindical, tornando-se uma das pioneiras da participação feminina na representação dos trabalhadores.
Paralelamente à militância, dedicou-se à escrita, produzindo poemas e textos jornalísticos.
Sua trajetória reúne, assim, diferentes formas de atuação por meio da palavra: a expressão poética, a intervenção pública e a defesa de direitos. Em uma época de profundas restrições à participação feminina na vida política e profissional, Almerinda ajudou a abrir caminhos que ultrapassaram os limites da literatura.
Advogada, escritora e poeta, Adalzira Bittencourt também integrou a geração de mulheres que, na primeira metade do século XX, buscaram conquistar espaço em profissões e ambientes intelectuais predominantemente masculinos.
Nascida em São Paulo, em 1904, desenvolveu uma trajetória que reuniu a formação jurídica e a produção literária, com especial interesse pela condição feminina e pelas transformações sociais.
Em seus escritos, abordou questões relacionadas à autonomia das mulheres, à educação e à participação feminina na sociedade.
Além da poesia, dedicou-se a romances e outras formas de expressão literária, construindo uma obra atravessada pelas discussões sobre os papéis atribuídos às mulheres.
Sua atuação como advogada e escritora revela uma aproximação entre duas áreas que, naquele período, também se tornavam espaços de disputa por reconhecimento e igualdade.
A relação entre Direito e poesia também marcou a trajetória da paranaense Vera Vargas, que conciliou a advocacia, o magistério e a produção literária.
Nascida em 1922, destacou-se especialmente pela dedicação à trova, composição poética de quatro versos que exige concisão, ritmo e domínio da linguagem.
Sua atuação literária a levou a integrar a União Brasileira de Trovadores, entidade dedicada à preservação e à difusão dessa forma de poesia.
Vera tornou-se a primeira mulher a presidir a seção de Curitiba da instituição, contribuindo para ampliar a presença feminina nos espaços de produção e valorização literária.
Ao lado da atividade poética, manteve sua ligação com o universo jurídico e com a educação.
Paulo Bomfim
Conhecido como o "Príncipe dos Poetas Brasileiros", Paulo Bomfim dedicou grande parte da vida à literatura, mas também construiu uma relação singular com o Judiciário paulista.
Nascido em 1926, ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, embora não tenha concluído a graduação. Optou pelo jornalismo e pela poesia, caminhos que não o afastaram do universo jurídico.
Ao longo de mais de meio século, exerceu diferentes funções no TJ/SP, entre elas as de assessor especial da Presidência, secretário de cerimonial, relações públicas e chefe de gabinete.
A proximidade com o Tribunal ultrapassou o exercício profissional. Bomfim escreveu a letra dos hinos do TJ/SP, da Escola Paulista da Magistratura e da Associação Paulista de Magistrados.
Em entrevista à TV Migalhas, resumiu o vínculo que cultivava com a instituição:
"A minha vida pertence ao Judiciário."
Autor de dezenas de livros, estreou na literatura em 1947, com "Antônio Triste", obra que recebeu o Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras.
Sua produção poética também dialogava com questões próximas ao pensamento jurídico. Em seus textos, a realidade e aquilo que ainda poderia existir apareciam como dimensões complementares da experiência humana.
"Só poeticamente conseguiremos explicar o mundo", dizia.
Antes de se tornar uma das vozes mais singulares da literatura brasileira, Hilda Hilst passou pelas salas de aula da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo.
Nascida em Jaú/SP, em 1930, ingressou na faculdade em 1948 e concluiu a graduação em 1952. Embora tenha exercido brevemente a advocacia, foi na literatura que encontrou seu principal caminho de expressão.
Ainda estudante, publicou seu primeiro livro de poemas, "Presságio", em 1950, dando início a uma trajetória que atravessaria mais de cinco décadas.
Ao longo da vida, produziu poesia, prosa e dramaturgia, explorando temas como amor, morte, desejo, religiosidade e os limites da existência humana.
Autora de obras como "Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão", "Da Morte. Odes Mínimas" e "Cantares de Perda e Predileção", Hilda construiu uma escrita marcada pela intensidade e pela experimentação.
Sua passagem pelo Direito foi breve, mas integra a trajetória de uma escritora que encontrou na palavra um espaço para questionar convenções e investigar a condição humana.
Nascido em São Manuel/SP, João Caio Goulart Penteado formou-se pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em 1965, e construiu uma trajetória de destaque na advocacia empresarial brasileira.
Iniciou a carreira no escritório Pinheiro Neto Advogados, onde chegou a ser sócio. Posteriormente, fundou, com outros profissionais, a banca Goulart Penteado, Iervolino e Lefosse Advogados, da qual se desligou em 2004. Nos últimos anos de vida, atuou como consultor do escritório Machado Associados Advogados e Consultores.
Especialista em Direito Societário, também teve participação importante no desenvolvimento da arbitragem no Brasil. Em 1979, tomou a iniciativa de constituir um dos primeiros núcleos de arbitragem do país, com apoio da Câmara de Comércio Brasil-Canadá.
Paralelamente à atuação jurídica, cultivou uma intensa relação com a poesia e a música, faceta que ganhou uma homenagem especial em 2016, com o lançamento de "As Vozes dos Meus Silêncios", obra póstuma publicada pela Editora Migalhas.
Entre reflexões sobre amor, família, vida e morte, os poemas mostram uma dimensão mais íntima do advogado, cuja sensibilidade literária convivia com o reconhecimento profissional.
Em um dos textos, intitulado "Epitáfio", João Caio escreveu:
"Deus meu, quero tentar a venturaQue por mais que não queira, me é querida"
Advogado, poeta e cronista piauiense, Paulo Machado construiu uma trajetória que reúne a atuação jurídica e a produção literária, com destaque para sua participação na cena cultural do Piauí.
Ligado à chamada Geração Mimeógrafo, movimento que ganhou força na década de 1970, o escritor integrou um período marcado pela circulação independente de poemas e pela busca de novas formas de expressão artística.
Em 2026, foi escolhido como patrono do Salipi - Salão do Livro do Piauí, uma das principais iniciativas de promoção da leitura e da literatura no Estado.
A relação entre Direito e poesia também aparece na trajetória de quem hoje ocupa um dos cargos mais importantes do Judiciário brasileiro. Antes de chegar ao STF, o ministro Edson Fachin experimentou a escrita literária durante os anos de graduação na Faculdade de Direito da UFPR.
Registros recuperados pelo Acervo de Memória e Cultura da universidade revelaram poemas e sátiras publicados pelo então estudante na *Folha Acadêmica*, jornal universitário que circulava entre os alunos.
Os textos, produzidos entre 1976 e 1980, mostram um jovem interessado não apenas nos estudos jurídicos, mas também na criação literária e no humor.
Entre os trabalhos identificados está "A Rádio de Todo Dia", sátira que retrata, de maneira bem-humorada, programas radiofônicos da época.
Os registros foram divulgados em 2025, quando Fachin assumiu a presidência do Supremo, revelando uma faceta pouco conhecida de sua formação.
A aproximação entre Direito e poesia também marca a trajetória do advogado e escritor maranhense Daniel Blume, que encontrou na própria linguagem jurídica inspiração para sua produção literária.
Procurador do Estado do Maranhão e secretário-geral da OAB/MA, Blume concilia a atuação profissional com a escrita e integra a Academia Maranhense de Letras.
Entre suas obras estão "Inicial", "Penal", "Delações" e "Resposta ao Terno", títulos que evidenciam o diálogo entre o vocabulário do Direito e a criação poética.
De diferentes gerações e trajetórias, os homenageados encontraram na poesia um espaço para expressar sentimentos, questionar convenções, denunciar injustiças e imaginar outras possibilidades para a sociedade.
Em alguns casos, a literatura acompanhou o exercício da advocacia ou a atuação no Judiciário. Em outros, foi o caminho escolhido por quem passou pelas faculdades de Direito, mas encontrou nos versos sua principal forma de expressão.
Neste Dia do Poeta, Migalhas celebra aqueles que mostraram que a sensibilidade literária também tem lugar no universo jurídico.